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O rastreamento de contatos pode funcionar na escala COVID?

Relato da experiência americana por Amit Kaushal e Russ B. Altman

O que acontece quando milhões de americanos saudáveis e sem sintomas são instruídos a se trancarem voluntariamente em uma quarentena de duas semanas para o bem público, com base apenas em uma possível exposição a alguém com COVID-19? Em breve poderemos descobrir.

Rastreamento de contato – o processo de identificação e quarentena de pessoas que podem ter sido expostas a uma pessoa com COVID-19 – é tão importante para quebrar as cadeias de transmissão e conter surtos da comunidade que os estados americanos planejam contratar dezenas de milhares de rastreadores nos próximos meses. As empresas de tecnologia estão correndo para criar aplicativos e tecnologias para ajudar. No entanto, sem construir uma infraestrutura para medir e calibrar esses esforços, identificar mais contatos mais rapidamente pode resultar na quarentena de tantas pessoas que se tornará insustentável.

Identificar contatos de novos casos por si só não diminui a doença, é necessário executar uma ação de interrupção da transmissão. Para a COVID-19, essa ação é uma auto-quarentena imediata, com duração de 14 dias após a exposição. Isso se aplica a todos os contatos – mesmo aqueles sem sintomas ou teste negativo. A maioria não terá COVID-19 até o final desse período. São pessoas comuns que serão solicitadas a colocar suas vidas em espera por duas semanas para o bem público. Isso significa ficar em casa longe do trabalho (e, consequentemente, perder renda como resultado em alguns casos), organizar mantimentos e outras necessidades e delegar responsabilidades de cuidar de crianças. Não é uma solicitação fácil, especialmente para aqueles em situações socioeconômicas desafiadoras.

Atualmente, os EUA estão relatando mais de 20.000 novos casos de COVID-19 por dia e cada caso pode ter em média mais de 30 contatos próximos identificáveis. Se esses números persistirem, o rastreamento bem-sucedido pode significar que, diariamente, centenas de milhares de pessoas sejam solicitadas a entrar em quarentenas voluntárias de 14 dias. Em um país onde as quarentenas são voluntárias, o grande número de pessoas em quarentena somado a onerosa duração deste período pode incentivar muitos a simplesmente desconsiderar as recomendações, minando os esforços do rastreamento de contatos.

A necessidade de uma abordagem de quarentena baseada em dados

À medida que foram construídas as operações de rastreamento do país, precisou-se garantir que fossem eficazes na identificação de contatos enquanto tentava-se colocar em quarentena o menor número possível de pessoas, pelo menor tempo possível. Para garantir que o rastreamento de contatos permaneça viável em escala, precisou-se desenvolver métricas baseadas em dados para avaliar e adaptar os esforços. Historicamente, o rastreamento bem-sucedidos é medido por sua sensibilidade: quantos contatos são identificados (mais é melhor), quantos são contatados (mais é melhor) e quantos estão em quarentena (mais é melhor). No entanto, na escala “mais é melhor” há falhas. São necessárias métricas correspondentes para especificidade, para garantir que também se exclua da quarentena as pessoas que não se tornarão portadoras do vírus.

Testar regularmente uma amostra de contatos que entrou em quarentena para ver quantos testam positivo pode servir como uma pontuação para calibração. Se uma grande fração dos contatos é positiva, sabemos que os esforços estão dando frutos e talvez poderíamos ser ainda mais agressivos. Se a porcentagem for muito baixa, sabemos que colocamos em quarentena os falsos positivos e devemos recuar ou redirecionar a abordagem. Dissecar esses dados pode nos ajudar a entender os perfis de risco de diferentes contatos e tipos de exposição. Quais tipos de exposições têm maior probabilidade de transmitir doenças e quais são menos prováveis? Que idade e características demográficas colocam os indivíduos em risco aumentado durante um evento de exposição? Esse conhecimento nos permitiria identificar com mais precisão exatamente quem precisa ficar em quarentena e quem pode ser poupado. Estabelecer e operacionalizar métricas de sensibilidade e especificidade enraizadas nos testes podem impulsionar um rastreamento adaptável, que é continuamente calibrado com dados.

Aprendendo com os dados de rastreamento de contatos

Os dados do rastreamento de contatos geram um recurso inestimável – um grupo de pessoas com datas conhecidas de exposição que podemos acompanhar ao longo do tempo. Estudar o que acontece com aqueles que estão com COVID pode nos ajudar a entender as principais características sobre a própria doença. Quais sintomas aparecem primeiro e quanto tempo após a exposição? Quais trajetórias pressagiam resultados preocupantes e quais serão aceitáveis?

As tecnologias de notificação digital de exposição para aumentar o rastreamento, como as anunciadas pela Apple e pelo Google, podem ajudar a estudar e entender a doença, mesmo que não sejam adotadas de maneira ampla o suficiente para se tornarem o ponto central de operações inteiras de rastreamento. Apesar de seu potencial, não parece que os aplicativos baseados nessa tecnologia sejam adotados nos EUA nos níveis necessários para suportar uma carga significativa de atividades de rastreamento.

Mesmo se usados de maneira desigual, esses aplicativos podem ser úteis. Da mesma forma que a pesquisa baseada em aplicativos permitiu à Apple e à Universidade de Stanford recrutar centenas de milhares de participantes para um estudo sobre problemas cardíacos, os aplicativos de rastreamento podem ter alcance e velocidade para direcionar indivíduos expostos a participar de estudos de benefício à ciência ou à saúde pública. Estes tipos de uso não são incorporados à tecnologia, eles devem ser concebidos, coordenados e apoiados por pesquisadores e autoridades de saúde pública.

Os Estados Unidos estão embarcando em um esforço operacional monumental – criando, em poucos meses, uma operação nacional de rastreamento, empregando dezenas de milhares de pessoas para investigar o novo coronavírus e impedir sua disseminação. À medida que se constrói a infraestrutura de rastreamento para alcançar e orientar as pessoas expostas à COVID-19, também deve-se lembrar de criar a infraestrutura de dados para aprender com eles.

 

Esta matéria foi publicada pela Health Affairs em 08 de julho de 2020 e pode ser acessada na íntegra em inglês através do link.

Pamela Paschoa

About Pamela Paschoa

Farmacêutica pela Unicamp, atuou por 8 anos como farmacêutica clínica em instituições públicas e privadas. Foi tutora e preceptora de programas de residência multidisciplinar. Hoje atua na produção de conteúdo para portal Saúde Business e na curadoria dos eventos Hospitalar, Healthcare Innovation Show e Saúde Business Fórum.