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Impressão 3D: “estamos trabalhando em pé de igualdade com outros países”

By 12 de novembro de 2015 TI e Inovação

Replicar uma coluna, um crânio, uma orelha, vasos e veias de um coração, um feto e por aí vai. São inúmeras as possibilidades que a impressão 3D tem gerado para a medicina. Engenheiro mecânico do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biofabricação, André Jardini, está envolvido diretamente neste processo, mais precisamente, em encontrar e desenvolver materiais que possam reproduzir partes do corpo humano ou até mesmo substituí-las, sendo totalmente biocompatíveis. Todo esse trabalho é feito por um conjunto de laboratórios associados ao Instituto de Biofabricação (Biofabris), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, sediado na Faculdade de Engenharia Química da Unicamp.

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Como nasceu a impressão 3D e a Biofabris nesse contexto?
O termo correto para a impressão 3D seria manufatura aditiva. É uma tecnologia que nasce da engenharia mecânica para construção de peças aeroespaciais, desde a paleontologia, replicando fósseis, como estruturas moleculares e químicas. A ideia é materializar qualquer estrutura a partir do desenho de um computador. Para isso, usa-materiais industriais como resinas, cerâmicos, metais, polímeros, policarbonatos, entre muitos outros. Na Saúde, o uso começa por biomodelos, ou seja, réplicas anatômicas com o objetivo de auxiliar médicos a planejarem procedimentos cirúrgicos. Tudo a partir de imagens provenientes de ultrassom 3D, ressonância magnética, que transferidas para softwares de tratamento de imagens médicas (Invesalius), são segmentadas em tecido mole e tecido duro (osso). Isso acontece desde a década de 90, com o pioneirismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com a ampliação dos materiais para a impressão, a exemplo do titânio, que é biocompatível, passou a ser possível fabricar, no Brasil, próteses via impressão 3D e implantá-las no corpo humano (próteses ortopédicas, bucomaxilares, para crânio etc). Já é possível imprimir em 3D réplicas de vasos e veias do coração, assim como réplicas de um feto com suspeita de má formação etc. Trabalhamos direto com o Hospital de Clínicas da Unicamp através de um projeto de Comitê de Ética.

Li, que no mundo, o mercado de impressão em 3D cresce 30% ao ano e ainda há muito espaço para novos projetos. Em que fase o Brasil está em relação a essa tecnologia?
Hoje a impressão 3D está na infância, afinal, nasceu nos anos 90, enquanto a fundição tem quatro mil anos, mas é uma tecnologia que veio para ficar. Somente agora que estamos terminando as fases de estudo com implantes humanos. Já faz três anos e meio desde o primeiro implante craniano que fizemos. O Leandro [26 anos] havia sofrido um acidente de bicicleta e, por isso, teve que fazer uma craniotomia (retalho ósseo removido do crânio para acessar o cérebro). Leandro nos procurou depois de seu corpo ter rejeitado um implante de acrílico, então fizemos o implante de uma prótese de titânio. Depois de três anos, podemos dizer que foi um sucesso o procedimento e ele voltou a ser socialmente ativo.

Atualmente quais são as peças de impressão 3D na medicina mais utilizadas no Brasil? E como isso chega até os médicos?
Hoje ainda não existe Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para regulamentar a impressão 3D. Contamos com parcerias privadas para a distribuição de próteses, que não são comercializáveis. Ninguém tem autorização para a impressão e comercialização de próteses hoje no Brasil. Por isso por meio do Comitê de Ética buscamos registrar isso na Anvisa.

Quais são as maiores dificuldades da área. Seria em termos de importação de materiais, regulamentação?
Custos dos equipamentos e materiais, escassez de mão de obra especializada (operadores de máquinas, físicos, técnicos em eletrônica). Burocracia em relação à certificação de uso de determinados materiais e registro da Anvisa. Temos contatado empresas privadas para submeter a certificação e o registro das próteses.

Impressão de tecidos humanos, de células, órgãos já foram bastante mencionados pela mídia. O que de fato é realidade e o que ainda é uma busca?
Hoje já é possível a construção de arcabouços porosos feitos em impressão 3D e polímeros biodegradáveis para a semeadura de células com o objetivo de construir substâncias biológicas. Por exemplo, para reconstruir uma orelha que foi danificada por um câncer, faz-se um arcabouço de polímero e depois você vai jogando as células dentro desses polímeros e assim a cartilagem da orelha começa a ser criada dentro dessa estrutura porosa. Isso está sendo pesquisado no mundo. No Brasil já estamos testando para a reconstrução de meniscos (estrutura do joelho). Estamos trabalhando em pé de igualdade com outros países, o que nos falta hoje são maiores recursos financeiros. É preciso mais empresas para auxiliar nesses projetos. Temos vários produtos com planos de negócio já estabelecidos.

Há alguma outra experiência ou progresso nesta área que gostaria de compartilhar?
Estamos fazendo impressão 3D na medicina a partir de fontes renováveis. Tiramos do açaí, por exemplo, uma substância chamada poliol, para produzir biopolímeros [espuma rígida e porosa que facilita o crescimento ósseo] para aplicações médicas. Também temos projetos semelhantes a partir da laranja [o Brasil é o maior exportador de suco de laranja do mundo] e do milho e mandioca.

*Esta reportagem está na edição de outubro-novembro-dezembro da revista Saúde Business

Nathalia Nunes

About Nathalia Nunes

Fonoaudióloga formada pela FMUSP, com MBA em Economia e Gestão em Saúde na UNIFESP e apaixonada por comunicação, negócios e tecnologia em saúde. Na Live, trabalho com Marketing, Pesquisa e Conteúdo, tanto na produção de materiais editoriais e de pesquisa, quanto na difusão de temas e ações relacionados a negócios em saúde.

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