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Em tempos de fake news, há verdade nos programas de promoção à saúde?

By 8 de fevereiro de 2019 Destaques, TI e Inovação

O mercado de seguros de saúde nos Estados Unidos vem passando por um limbo legislativo. Desde que a administração Trump iniciou esforços para substituir o Affordable Care Act (ACA), muitas empresas que cresceram na esteira do Obamacare se viram com futuro incerto. A Oscar Health Insurance, startup de seguros de saúde, teria tudo para ser uma delas.

No entanto, a companhia espera obter uma receita de quase US$ 1 bilhão e alcançar pelo menos 250 mil segurados em 2018, quando completará apenas seu sexto ano de operação. Em dezembro de 2017, ela já havia registrado um aumento de 150% nas inscrições em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Se você acha que a startup está nadando contra a corrente, ou seja, crescendo quando se esperava um encolhimento do negócio, acertou. Mas a Oscar Health traz lições sobre disrupção no modelo de atenção, investimento em tecnologia e medicina preventiva que vão além dos índices financeiros.

Vamos descobrir quais são esses ensinamentos e por que a combinação de sucesso entre planos e promoção da saúde deve ser priorizada — seriamente — pelas operadoras.

Tecnologia é o único caminho para promoção à saúde

A Oscar foi a primeira companhia de seguros norte-americana a fornecer rastreadores de condicionamento físico aos beneficiários e a estabelecer recompensas financeiras para aqueles que mudassem seus hábitos, por exemplo, cumprindo uma cota de passos por dia.

A empresa posiciona-se como uma alternativa focada no beneficiário e baseada em tecnologia. Para cumprir essa promessa, atua em diversas frentes. Por exemplo: oferece, aos usuários, ferramentas gratuitas que os conectam diretamente com médicos. Paralelamente, disponibilizam à rede credenciada um dashboard amplo e detalhado.

O painel clínico virtual exibe as várias etapas da jornada do beneficiário, com dados sobre consultas, resultados laboratoriais, prescrições, internações e outras condições, como alergias. A interface é integrável com sistemas hospitalares e soluções de telemedicina. Assim, os médicos têm acesso a anotações de consultas e de alta que não poderiam ser visualizadas automaticamente em sistemas isolados.

A ideia defendida por seus fundadores é a de conectar o histórico do usuário, o sistema de saúde e a ciência de dados para obter insights aplicáveis em uma lógica de prevenção.

É claro que, sendo a Oscar uma seguradora de saúde, o dashboard incorpora também registros de sinistros. Mas com um passo adiante: os dados são colocados dentro de um contexto munido por diversos feeds e o sistema gera alertas sobre anormalidades e comportamentos que indicam condição grave e/ou evitável. Dados que, tratados separadamente, não diriam muita coisa.

Essa forma de atuação tem sido validada por grandes investidores e parceiros como uma habilidade necessária para superar os altos e baixos do setor, que nos EUA também está sujeito a regulamentações rigorosas, como a manutenção de grandes reservas de capital.

Hora de levar a expressão “plano de saúde” mais ao pé da letra

Investimos na explicação do caso Oscar Health para poder fazer uma pergunta. Ao estimular um beneficiário a caminhar mais, alimentar-se bem e monitorar sinais de enfermidades como diabetes e hipertensão, você pretende incentivar a prevenção de patologias? Se sim, você está na armadilha da medicina preventiva.

Esse argumento de prevenção reforça uma visão comum: a de operar planos focados em doenças. O discurso para conquistar novos usuários é pródigo em serviços assistências, terapias e diagnósticos. E fundamentado na ideia de validar a eficiência do modelo pela oferta de recursos terapeuticos  — uma mentalidade alimentada pelas grandes corporações farmacêuticas e de equipamentos médicos.

Esse padrão está cada vez menos disfarçado. No final do ano passado, a rede de farmácias norte-americana CVS HealthCorp adquiriu a companhia de planos de saúde Aetna por US$ 69 bilhões. O negócio representou a fusão de uma das maiores administradoras de benefícios farmacêuticos e farmácias dos EUA com um dos planos de saúde mais antigos do país.

“Medicina preventiva é prioridade”: Fake.

Apesar de se basear na grande oferta de terapias, o sistema suplementar brasileiro não é acessível, uma vez que 70% dos brasileiros não têm, hoje, um plano de saúde privado. E mesmo para os que acessam, o modelo não é abrangente, porque a pressão de mecanismos de regulação e remuneração criam impeditivos. Consequentemente, não corresponde às expectativas, posicionando o setor no topo dos rankings de reclamações de consumidores e na mira de ações judiciais.

No cenário ampliado, os médicos também ficam insatisfeitos, os hospitais têm queixas e os planos estão em declínio, tentando apenas sobreviver. Mas alguém está ganhando com isso. E não é a promoção à saúde das pessoas.

Dentro desse arranjo, a medicina preventiva é limitada ao básico. A partir de filtros pouco detalhados da carteira, detectam-se grupos mais sensíveis às doenças crônicas não-transmissíveis e montam-se programas subsidiários, sem métricas claras.

Instituir programas de prevenção apenas para cumprir exigências regulatórias ou aderir à moda está longe de ser uma medida disruptiva ou que realmente contribua para a redução da sinistralidade. A medicina preventiva, nesse caso, é motivada pelo fantasma do envelhecimento, como se esse processo natural devesse ser combatido. O desafio não é envelhecer. E sim envelhecer com saúde e qualidade de vida.

Algumas respostas para muitas perguntas

A tática de mensurar a eficiência da saúde suplementar pelo volume da oferta de recursos assistenciais se mostra-se fracassada. Que tal classificar um plano como eficiente pela capacidade de causar o melhor impacto assistencial possível, com os meios disponíveis? Em outras palavras: harmonia entre uma entrega de serviços justa, de forma adequada aos atores envolvidos, com avaliações de performance, sem desperdício de recursos e sem restrições excessivas.

Alcançar esse nível de precisão não é fácil. Adicione-se a isso o conservadorismo presente na gestão em saúde e a tarefa torna-se hercúlea. Ter a mente aberta para as quebras de paradigma trazidas pela tecnologia é essencial para ir além da subsistência. E não estamos falando de exames com imagens holográficas ou braços cirúrgicos robóticos.

De que estamos falando, então? Os passos da Oscar Health já dão algumas dicas. Para desenvolver ações reais de saúde preventiva — ou melhor, de promoção à saúde — é preciso encarar como prioridade o investimento em ferramentas capazes de realizar um screening das condições dos usuários de forma automática, abrangente, detalhada e, ao mesmo tempo, integrada com o software de gestão.

Na sua operadora esses filtros são feitos de forma manual? Você usa planilhas que dependem de um preenchimento nem sempre feito de forma completa? Os dados disponíveis não são integrados e, portanto, não permitem que você trace um paralelo entre a realidade financeira da empresa e a possibilidade de criar um sistema de bonificações e descontos?

Se as respostas forem “sim”, provavelmente suas ações de medicina preventiva restringem-se a grupos e eventos pontuais de conscientização, certo? Será esse o caminho para a verdadeira mudança de comportamento dos usuários?

Promoção da saúde é objetivo estratégico

Ações de promoção da saúde devem estar relacionadas aos objetivos estratégicos e ao core business das operadoras e planos. Devem ser passíveis de mensuração e fornecer dados relevantes, para além do número de participantes em eventos de aferição de pressão arterial e glicemia.

E já que estamos falando da relevância das métricas, aí vão alguns indicadores: 40% de todas as mortes prematuras são causadas pelo estilo de vida, 30% pela herança genética, 20% por fatores ambientais/causas externas e 10% pela ausência de cuidados médicos.

Por outro lado, entre os custos totais da área de saúde, cerca de 75% são consumidos por gastos com as doenças crônicas e enfermidades, em muitos casos, evitáveis — como cardiopatias, diabetes e câncer. Em compensação, somente 2% referem-se a gastos com prevenção. Esses índices fazem parte de pesquisa publicada pelo médico especialista em medicina preventiva Sergio Abramoff no livro “Rejuvelhecer: a saúde como prioridade”.

O que faz bem ao usuário faz bem ao negócio. Esse fundamento, que deveria ser óbvio também para a saúde suplementar, não o é. Para inverter a lógica que tem contribuído para a insustentabilidade econômico- financeira dos planos de saúde, deve-se partir de um conhecimento bem mais aprofundado da carteira de beneficiários, que vá muito além da idade.

Informações superficiais e imediatistas — típicas de quem sofre uma pressão tão grande do presente que não consegue planejar o futuro — não permitem a clusterização das ações e nem oferecem aos programas de promoção da saúde e medicina preventiva a chance de oferecer resultados reais.

Personalização e pensamento em longo prazo

Sem personalização, torna-se muito mais difícil chegar ao coração do beneficiário, ou seja, promover seu engajamento, principal métrica de ações centradas na mudança de comportamento e no bem-estar físico e psicoemocional (não na doença).

Soluções tecnológicas serão fundamentais para viabilizar a automatização de ações simples e eficazes, como mensagens em dispositivos móveis, segmentadas para o momento que o usuário está vivendo — a retomada da atividade física, por exemplo.

A tecnologia, a exemplo de machine learning, será imprescindível também para que os sistemas se aperfeiçoem a partir das interações com os usuários e aprendam qual a frequência e a linguagem mais adequados para atingir o equilíbrio entre o que é um incentivo positivo e o que é uma cobrança chata. É necessário estar presente, sem ser intrusivo.

É necessário ainda ser certeiro, por meio do acesso a dados que representam a situação real do indivíduo. Para isso, não faltam alternativas de acessórios vestíveis (wearables) para monitoramento remoto de saúde e não faltam pessoas dispostas a fazer uso deles.

Um levantamento realizado pela GfK com mais de 20 mil internautas em 16 países apontou que 29% dos brasileiros monitoram condições físicas por meio de aplicativos, pulseiras e relógios inteligentes. A lista é liderada pela China, mas o percentual coloca Brasil e Estados Unidos empatados na segunda posição.

Só que, além disso, é imperativo pensar em médio e longo prazo. Dispositivos de recompensas objetivas e diretas, a exemplo do desconto no valor mensal oferecido ao beneficiário que atingir metas de bem-estar, são gastos ou investimentos?

A recompensa material pode até ser de curto prazo, mas os ganhos com a disseminação de hábitos que beneficiam tanto o indivíduo quanto o sistema são duradouros. Na lógica da promoção da saúde e não do plano de doenças, podemos considerar a Oscar Health como uma inspiração baseada em evidências.

Sobre o Autor:
Ney Paranaguá, Doutor em Ciência da Computação

 

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