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Cultura de Inovação e Adoção de Tecnologia

By 31 de julho de 2018 TI e Inovação

Entre as necessidades mais críticas enfrentadas atualmente pelas organizações provedoras de saúde estão encontrar mecanismos para viabilizar a saúde baseada em valor e personalizar cada vez mais a experiência e satisfação do paciente. Ambas abordagens incluem algumas quebras de paradigmas, e somente através de uma mudança de cultura setorial que habilitem a adoção de tecnologia e estabeleçam a inovação como parte estratégica, terão êxito –não no futuro distante- mas em um curto espaço de tempo.

Historicamente, o setor de saúde tem demorado em relação a outros mercados, a adotar novas tecnologias, especialmente aquelas digitais que transformam a operação. Por exemplo, foi somente nos últimos anos que hospitais e consultórios médicos começaram a abandonar o antigo armazenamento em papel para registros eletrônicos de saúde (EHRs).

Em geral, há um reconhecimento de que o fornecimento de uma experiência simplificada e consistente é necessário para oferecer valor. Médicos entendem o papel cada vez mais importante da tecnologia na assistência. No entanto, mais de 75% dos médicos, segundo pesquisa americana, dizem que os registros eletrônicos de saúde aumentam os custos de prática e reduzem sua produtividade. Junto com esses obstáculos, os desafios com a implementação e os fluxos de trabalho médico muitas vezes levam a uma adoção de tecnologia de cuidados de saúde abaixo do ideal.

Se, de um lado temos idolatrada a inovação por idealizadores com mentes nas nuvens, por outro temos aqueles que a enxergam como uma verdadeira corda bamba de riscos. Isso é especialmente verdadeiro neste setor, uma vez que testar novos modelos e “falhar rápido” precisa, ironicamente, ser realizado com muita cautela, dado que o core dos provedores é manter seus usuários seguros e saudáveis.

Para dar emoção, nessa corrida existem os “Early Adopters”. Os primeiros adeptos a qualquer tecnologia provavelmente enfrentarão muito mais obstáculos, mas sairão na frente. Os retardatários, em contrapartida, podem descobrir que, à medida que novos modelos de pagamento e entrega se consolidam, eles não podem mais competir no mesmo nível, pois ficaram muito tempo “vivendo no presente” e arriscam a extinção de seus negócios.

Um estudo da Harvard Business Review Analytic Services e Verizon mostrou que os early adopters têm colhido frutos: “Apenas 27% das organizações de saúde proativamente procuram obter a inovação como vantagem, em comparação com 36% que compram novas tecnologias depois que outros provaram seus benefícios e 35% que esperam até se tornar bem estabelecido”. Segundo a pesquisa, as organizações que adotam tecnologia mais cedo têm taxas de crescimentos significantemente maiores, ano a ano, do que os seus seguidores.

A nível de organização, os CIOs das instituições são responsáveis pela avaliação da eficiência operacional de tecnologias emergentes e pelo desenho de integração da mesma desde os colaboradores até o atendimento ao paciente. Mas fica a pergunta: será que precisamos mesmo de um Chief Innovation Officer, ou podemos mudar a cultura para um Chief Integration Officer? Há indícios de que Steve Jobs concordaria com isso.

A inovação em saúde não apenas economiza dinheiro no sistema – por exemplo, a cada dólar gasto em medicamentos inovadores, há uma redução de gastos totais com saúde em US$ 7,20, mas também tem o poder de salvar vidas ou aumentar a sua expectativa. Para citar, entre 1980 e 2010, os avanços tecnológicos na medicina ajudaram a adicionar 5 anos à expectativa de vida dos americanos. É por isso que várias instituições de saúde estão planejando construir centros de inovação para impulsionar mudanças, de fato, significativas.

Um alerta importante: deve-se tomar um enorme cuidado para não desenvolver a inovação tecnológica em silos. Grandes empresas, como a Sony, Xerox e Nokia, por exemplo, já sentiram na pele as consequências. Engajamento dos colaboradores seria a palavra chave. As novidades vêm a passos largos e é necessário, ainda que de difícil prática, o acompanhamento tecnológico e horizontalizado de todos na empresa. Não há razão para se atribuir a uma só pessoa o peso de carregar a inovação de uma empresa inteira. É claro que deve-se existir um certo nível de coordenação, mas a inovação é de responsabilidade e voz de todos.

Um bom primeiro passo é engajar de forma holística os colaboradores. Um grupo técnico e clínico multidisciplinar ajuda a colocar na mesa diferentes perspectivas e prioridades no processo de brainstorming tecnológico ou mesmo adoção. Além disso, a proximidade fortalece o senso de evangelização no processo de implementação e cria um vínculo entre estratégia, objetivo e métrica.

No setor clínico, médicos, enfermeiros e outros membros da equipe de atendimento têm suas responsabilidades. Normalmente confortáveis com seus processos e rotinas, a figura do “Integrador” deve surgir como aquele que entenda a importância da qualidade e consistência no atendimento ao paciente, e ao mesmo tempo saiba como minimizar os impactos na produtividade, receita e custos, no início da curva de adoção. Se não houver essa preocupação, provedores podem enxergar a otimização com um fardo adicional (e não queremos colaboradores desmotivados, não é?)

Aliás, há uma diferença entre adoção e implementação. Muitas vezes os recursos alocados em um projeto são desproporcionais ao desafios a serem enfrentados. Se engana quem pensa que uma implementação bem sucedida é a solução. Além de não ser, ela não é isolada e nem o final do processo. A implementação é um marco centrado na tecnologia que tem pouco a ver com alcançar os resultados específicos centrados no paciente que inspiraram o projeto em primeiro lugar. Embora a implementação de novos processos, equipamentos ou cultura tecnológica, seja muito inspiradora e excitante para seus idealizadores, apenas os colaboradores podem inspirar uma verdadeira adoção na instituição. A implementação e a adoção representam dois pontos diferentes, sendo assim, eles também precisam de métricas independentes.

Se cabe aqui um conselho, cultive relacionamentos externos, que se estendam além da sua instituição e setor. É inestimável o valor para a construção do conhecimento. A exposição a novas formas de trabalho e pensamento desperta a curiosidade, o instinto de promover mudanças e translações que agreguem para a melhora setorial. É impressionante a quantidade de “zonas cinzas” que podemos ganhar com um pouco de criatividade.

O quadro geral é que podemos nos beneficiar de um sistema de saúde mais inteligente, ágil e tecnológico, um sistema que aprenda e melhore constantemente. Estamos dependentes da cultura: já temos pessoas que valorizam a mudança e, se ainda não temos a tecnologia, estamos no processo de desenvolvimento. Já dizia Peter Drucker, “a cultura come a estratégia no café”, se há o desejo de mudança, comece agora.

Fernanda Fortuna

About Fernanda Fortuna

Engenheira Biomédica pela Universidade Federal do ABC, Fernanda passou um ano na Escócia estudando Engenharia Mecânica. Após retornar ao Brasil, emprendeu na área de robótica e reabilitação. Apaixonada por tecnologia e saúde, hoje atua na curadoria de conteúdo para os eventos Saúde Business Fórum, Hospitalar e Healthcare Innovation Show.

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