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SHM2018: reflexões a partir do mais importante evento mundial para hospitalistas.

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Foi mais um grande congresso da Society of Hospital Medicine. Desta vez na Florida, uma variedade de temas, entre aspectos clínicos de pacientes hospitalizados e discussões sobre gestão, qualidade e segurança hospitalar, esteve em pauta nos intensos 4 dias do encontro acontecido no Orlando World Center Marriott. Um dos diferenciais deste evento é que entrelaçam essas questões na mesma apresentação, como que reconhecendo e destacando que o hospitalista tem sempre dois pacientes concomitantes: o do leito, e o sistema no qual inserem-se.

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Assunto que me chamou muita atenção este ano foi burnout. Foi trabalhado em conferência e workshop como tema principal, e acabou bastante mencionado também em vários outros momentos formais e informais. Os dados apresentados escacaram problema altamente relevante nos EUA, com potenciais consequências negativas drásticas para profissionais acometidos e seus pacientes. Em conversa com três hospitalistas de renomadas instituições norte-americanas, em bar após término de um dos dias, dois lembraram de colegas ou conhecidos médicos vitimados por suicídio nos últimos anos. Um deles referiu episódio de síndrome de esgotamento profissional bastante grave no ano anterior – no meu imaginário, era alguém trabalhando no lugar ideal, em condições ideias*. Falaram muito de alta carga de trabalho como uma das causas principais de burnout. Foi quando os questionei sobre o fato de que no Brasil, em média, trabalhamos mais. Consideramos então que pode ter relação maior com o tipo de cobrança e/ou momento histórico. Eles já aprenderam na pele que, em qualidade e segurança, menos pode ser mais. Nós ainda estamos iniciando a fase que já estão ultrapassando, o que pode significar um pico de burnout breve por aqui. Tomara que saibamos encurtá-la, aprendendo com os erros deles.

*Acabei lembrando mais adiante de situação semelhante e de como nosso imaginário pode pregar peças. Esta mensagem é de alguns anos atrás, de profissional antes trabalhando em hospital ranqueado como um dos top nos EUA (opto por manter original, em inglês, apenas extraindo dados de identificação):

Hello friend!

I quit. The numbers of patients on my service increased by 30-50%. 2,000 experienced nurses retired or quit. I was working 15-18 hour days & 110 hour weeks. Without experienced nurses and too many patients, the patients will die and I would be responsible.

I didn’t need the money.  I felt abused by XXX. 10% of the physician staff quit in the last year. They have 2000 staff openings from nurses to scientists.

I was glad to hear from you. I worry that because I left XXX I would lose your friendship, which means a lot to me.

Em relação ao tipo de cobrança causadora de burnout, chegaram a consenso de que percebem, em média, médicos atuando em hospitais que não são os “de grife” mais satisfeitos, e falaram em autonomia como um dos grandes diferenciais.

Em pré-curso sobre gestão de programas de MH, outros apresentaram tendência em alguns hospitais norte-americanos de separar o grupo de hospitalistas em dois blocos (dos que fazem a maior parte do atendimento na enfermaria, incluindo as altas, e daqueles responsáveis apenas por admissões hospitalares). Nenhum dos três palestrantes da atividade, experientes hospitalistas e consultores ou diretores de programas, disse gostar de tal inovação. Um deles, de uma dessas instituições de grife, disse a mim em separado: “infelizmente não é democracia, não houve opção”. A solução para todos eles seria reduzir o censo diário de pacientes por hospitalista. Fiquei pensando sobre qual deve ser o limite da eficiência nos serviços de saúde, quando traz consequências como descontinuidade do cuidado e fragmentação… Leia mais sobre isso em Crítica ao cuidado baseado em plantões. Portugal parece não permitir tanto, como retratei neste espaço há alguns meses atrás. Não percebi esgotamento profissional como algo tão significativo lá.

Quanto a esse pré-curso, o fiz em 2008 e novamente agora. Dez anos passaram-se! No primeiro, havia muita ênfase em eficiência e ferramentas para atingi-la. Demorei em média 5-10 anos para ver em prática no Brasil, de forma mais abrangente e consistente, os aprendizados que tive na época (do meu networking, foi muito recentemente que alguns grupos consolidaram um dashboard para extração de informações em tempo real sobre indicadores de eficiência, e ainda engatinham na utilização dos dados para melhoria contínua. Manifestei esta preocupação em Saúde Business em 2012: Desafios da Medicina Hospitalar). O curso de 2018 bateu muito em terceirização de trabalho médico para outros profissionais e trabalho em equipe (já abordei o tema em O Ato Médico e os médicos hospitalistas), e em telemedicina. Aliás, telemedicina e inteligência artificial foram os grandes destaques deste ano, sob inúmeras perspectivas, como neste exemplo onde inovam na forma do especialista focal atuar no hospital: https://bit.ly/2EJg0yR. Será que aguardaremos mais tantos anos para surfar nestas ondas? Saberemos fugir das armadilhas?

Tive, por fim, a grata satisfação de ver esta década de envolvimento registrada em imagens no International Lounge do evento:

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