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Doenças crônicas e ineficácia da saúde pública agravam pandemia de COVID-19

By 19 de outubro de 2020 Saúde Pública

• Os resultados do estudo mais abrangente do mundo – analisando 286 causas de morte, 369 doenças e lesões e 87 fatores de risco em 204 países e territórios – indicam o quanto a população mundial estava preparada para a saúde subjacente com o impacto da pandemia de COVID-19.

• A crise global de doenças crônicas e a ineficácia da saúde pública para impedir o aumento de fatores de risco, altamente evitáveis, ​​deixaram as populações vulneráveis ​​a emergências médicas extremas, como a COVID-19.

• É necessário adotar medidas urgentes para abordar a sindemia global de doenças crônicas, desigualdades sociais e a COVID-19 para garantir sistemas de saúde mais fortes e pessoas mais saudáveis, tornando os países mais resistentes a futuras ameaças de pandemias.

• O Estudo de Carga Global de morbimortalidade fornece um guia para alcançar os locais de maior necessidade, com dados sobre fatores de risco e carga de morbimortalidade de doenças crônicas para países específicos.

Para informações detalhadas:

• O vídeo para download do briefing

• O relatório para download “North America”

A interação da COVID-19 com o aumento global contínuo de doenças crônicas e fatores de risco relacionados, como obesidade, hiperglicemia e poluição do ar exterior, criou uma “tormenta perfeita” nos últimos 30 anos, que agora agrava as mortes por COVID-19.

Os resultados mais recentes do Estudo da carga mundial de morbimortalidade (GBD) [1], publicado no The Lancet, nos ajudam a formar novas ideias sobre como os países foram preparados em termos de saúde subjacente para a pandemia de COVID-19, e expões a verdadeira magnitude do desafio a respeito da proteção contra outras ameaças de pandemias.

Os resultados do estudo também revelam que o aumento da exposição aos principais fatores de risco (como hipertensão, hiperglicemia, alto índice de massa corporal [IMC] e hipercolesterolemia), juntamente ao aumento de mortes por doenças cardiovasculares em alguns países (por exemplo, os EUA e o Caribe) parecem indicar que o mundo pode estar se aproximando de um ponto crítico no aumento da expectativa de vida.

Os autores observam que a promessa de prevenção de doenças por meio de medidas ou incentivos governamentais, que possibilitem comportamentos mais saudáveis ​​e acesso a recursos de atenção médica, não está sendo cumprida em todo o mundo.

“A maioria desses fatores de risco é evitável e tratável, e lidar com eles trará enormes benefícios socioeconômicos. Não estamos conseguindo mudar comportamentos pouco saudáveis, em particular aqueles relacionados com a qualidade da alimentação, ingestão calórica e atividade física, em parte devido à falta de atenção regulatória e de financiamento para pesquisas sobre comportamento e saúde pública “, comentou o professor Christopher Murray, diretor do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde (IHME) da Universidade de Washington, EUA, que liderou a pesquisa [2].

Diversas doenças não transmissíveis (DCNT) e fatores de risco destacados no estudo, incluindo obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares estão associados a um risco aumentado de doença grave e morte pela COVID-19. Mas as doenças não interagem apenas com fatores biológicos, mas também com fatores sociais. É necessário adotar medidas urgentes para abordar a sindemia de doenças crônicas, desigualdades sociais e COVID-19, em termos da interação de várias epidemias que exacerbam a carga de morbimortalidade em populações que já estão sobrecarregadas e que aumentam sua vulnerabilidade.

O Dr. Richard Horton, Editor-Chefe do The Lancet, observou que: “A natureza sindêmica da ameaça que enfrentamos exige que não apenas tratemos cada aflição, mas também que abordemos urgentemente as desigualdades sociais subjacentes que as afetam, ou seja, a pobreza, a moradia, a educação e a raça, que são fatores determinantes poderosos da saúde “.

Ele acrescentou que “a COVID-19 é uma emergência de saúde crônica agravada. E a cronicidade da crise atual está sendo ignorada e nos coloca em risco no futuro. As doenças não transmissíveis têm desempenhado um papel crítico no número de mais de um milhão de mortes causadas pela COVID-19 até o momento, e continuarão a influenciar a saúde de todos os países depois que a pandemia diminuir. À medida que abordemos como regenerar nossos sistemas de saúde à raiz da COVID-19, este Estudo sobre a Carga mundial de morbimortalidade oferece um meio de nos dirigirmos onde a necessidade seja maior e ver como isso difere entre os países” [2].

Os sistemas de saúde estão mal preparados para um rápido aumento de doenças não transmissíveis e deficiências

Ainda que a expectativa de vida saudável – o número de anos que se espera que uma pessoa tenha de boa saúde – venha aumentado continuamente (mais de 6.5 anos) entre 1990 e 2019, não aumentou tanto quanto a expectativa de vida geral em 198 de 204 países avaliados, indicando que as pessoas estão vivendo mais com problemas de saúde [3].

A incapacidade, em vez da morte prematura, tornou-se uma parcela crescente do fardo global de morbimortalidade; passou de cerca de um quinto (21%) da carga total em 1990, para mais de um terço (34%) em 2019. Em 11 países, mais da metade de todas as perdas de saúde (medidas em anos de vida ajustados por incapacidade [DALY] [4]) agora é devido à incapacidade causada por doenças não transmissíveis e lesões, incluindo Cingapura, Islândia, Noruega, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia e Qatar.

As iniciativas globais de saúde para combater doenças infecciosas e abordar os cuidados pré-natais tiveram sucesso na melhoria da saúde de crianças menores de 10 anos de idade nas últimas décadas (com uma redução na carga geral de doenças de aproximadamente 55%), mas isso não coincidiu com uma resposta semelhante nas faixas etárias mais velhas.

Os dez principais fatores que contribuíram para o aumento da perda global de saúde nos últimos 30 anos, medidos como os maiores aumentos absolutos no número de *DALYs, incluem seis causas que afetam amplamente os adultos mais velhos: doença cardíaca isquêmica (o número de DALYs relacionados aumentou em 50% entre 1990 e 2019), diabetes (aumentou em 148%), acidente vascular cerebral (32%), doença renal crônica (93%), câncer de pulmão (69%) e surdez parcial relacionado à idade (83%). Além disso, quatro causas são comuns da adolescência à velhice: HIV / AIDS (128%), distúrbios musculoesqueléticos (129%), dor lombar (47%) e distúrbios depressivos (61%). Por exemplo, de 1990 a 2019, o número de DALYs para doença isquêmica do coração aumentou em mais de 400% nas Filipinas, enquanto o número de DALYs para diabetes aumentou em mais de 1.000% nos Emirados Árabes Unidos. Esses aumentos de problemas de saúde ameaçam sobrecarregar os sistemas de saúde que estão mal equipados para lidar com as condições crônicas associadas ao envelhecimento da população. *DALYs = AVAD (anos de vida perdidos por pessoa ao ano).

Em 2019, as principais causas de perda de saúde variaram amplamente entre as diferentes faixas etárias. Lesões causadas por acidentes de trânsito, cefaleias, HIV / AIDS, lombalgia e transtornos depressivos foram os problemas de saúde predominantes em pessoas mais jovens (10 a 49 anos). Em contraste, a doença cardíaca isquêmica, derrame e diabetes foram os principais fatores que contribuíram para a perda da saúde em pessoas com 50 anos ou mais.

Nos últimos 10 anos, o avanço global na área da saúde não foi uniforme. Os países de renda baixa e média (LMICs – PIBM) fizeram um progresso extraordinário na saúde, em grande parte como resultado de iniciativas bem-sucedidas contra doenças infecciosas, maternas e neonatais. Por exemplo, Etiópia, Sudão e Bangladesh registraram reduções anuais de pelo menos 2% nas taxas de perda de saúde padronizadas por idade (DALYs).

No entanto, os autores alertam que os sistemas de saúde do LMIC – PIBM estão mal preparados para lidar com o aumento da carga de doenças e mortalidade causada por doenças não transmissíveis, que aumentou em países de baixa e média renda, em cerca de um terço da carga geral de doenças e mortalidade em 1990, para quase dois terços em 2019. Além disso, enquanto as mortes por doenças infecciosas diminuíram significativamente nos países de baixa renda, as mortes por doenças não transmissíveis estão aumentando. No Uzbequistão, por exemplo, o diabetes passou da 21ª para a 5ª causa de morte (um aumento de 600% no número de mortes). Além disso, nas Filipinas, a doença isquêmica do coração passou da quinta causa de morte (um aumento de mais de 350%).

Em vez disso, as melhorias na saúde começaram a estagnar na maioria dos países de alta renda e até mesmo foram revertidas em vários países, principalmente nos Estados Unidos, onde a taxa normalizada de perda de saúde por idade aumentou quase 3% na última década. Os autores acreditam que as razões para essa falta de progresso podem incluir o aumento das taxas de obesidade, bem como a diminuição das chances de redução do tabagismo e melhoria da cobertura de tratamentos para hipertensão e hipercolesterolemia, que serão necessários para manter o declínio nas mortes cardiovasculares.

“À medida que a incapacidade se torna uma parte cada vez maior da carga global de doenças e mortalidade e um componente maior dos gastos com saúde, há uma necessidade urgente de identificar intervenções novas e mais eficazes”, disse Murray. “Com o rápido aumento da população senil no mundo, os requisitos dos serviços de saúde para lidar com os desfechos de incapacidade e condições crônicas, que aumentam com a idade, exigirão níveis mais altos de financiamento, forte compromisso político e renúncia de contas apoiadas por melhores dados, e uma iniciativa global coordenada que prioriza os mais vulneráveis ​​”[2].

Ineficácia da saúde pública em impedir o aumento dos principais fatores de risco

Na última década, houve aumentos especialmente grandes e preocupantes (mais de 0,5% ao ano globalmente) na exposição a vários riscos altamente evitáveis ​​ (obesidade, hiperglicemia, uso de álcool e drogas) que estão contribuindo para a crescente carga de doenças não transmissíveis e destacando a necessidade crucial de fortalecer as iniciativas de saúde pública.

O maior efeito cumulativo sobre a saúde vem do aumento surpreendente nos riscos metabólicos, que aumentaram 1,5% ao ano desde 2010. Juntos, os riscos metabólicos (nomeadamente IMC elevado, hiperglicemia, hipertensão e hipercolesterolemia) foram responsáveis ​​por quase 20% da perda total de saúde global em 2019, um aumento de 50% desde 1990 (10,4%). Eles também são responsáveis ​​por muitas mortes em todo o mundo: a hipertensão contribuiu para 1 em cada 5 mortes (quase 11 milhões) em 2019, hiperglicemia (6,5 milhões de mortes), IMC elevado (5 milhões) e hipercolesterolemia (4.4 milhões).

Entre os principais riscos das doenças não transmissíveis, apenas o tabagismo diminuiu consideravelmente. Nas iniciativas mais importantes para a implementação de políticas internacionais de controle do tabaco, uma diminuição da exposição ao tabaco foi observada em quase 10% globalmente desde 2010, embora o tabagismo (fumado, involuntário e mascado) continue a ser a principal causa de morte em muitos países de alta renda, incluindo os EUA, Canadá, Reino Unido, Japão, Bélgica e Dinamarca em 2019, causou quase nove milhões de mortes em todo o mundo.

O efeito dos fatores de risco também varia muito de uma região para outra. Em grande parte da América Latina, Ásia e Europa, a hipertensão, hiperglicemia, IMC alto e uso de tabaco são os principais contribuintes para problemas de saúde. Na Oceania, a desnutrição e a poluição do ar estão entre os principais riscos. As diferenças mais marcantes são observadas na África Subsaariana, que, ao contrário de outras regiões, é dominada pela desnutrição; água imprópria para beber, higienizar e lavar as mãos; a poluição do ar; e sexo desprotegido (Anexo 2, Figura S3).

“Apenas fornecer informações sobre os danos causados ​​por estes riscos não é suficiente,” comentou a coautora do IHME e Professora Emmanuela Gakidou. “Uma vez que as considerações financeiras, a educação e a disponibilidade de alternativas influenciam as decisões individuais, os governos devem colaborar globalmente em iniciativas para tornar comportamentos mais saudáveis ​​disponíveis para todos. Além disso, com base nas lições aprendidas em décadas de controle do tabagismo, quando há um risco significativo para a saúde da população, como a obesidade, pode ser necessário que o governo tome uma ação coordenada por meio de regulamentação, impostos e subsídios ” [2].

Os resultados destacam a necessidade de abordar os fatores determinantes mais amplos da saúde

Desde 2000, tem havido avanços mais sólidos nos países menos desenvolvidos do que naqueles que se encontram em nível mais alto de desenvolvimento, levando a aumentos mais rápidos na expectativa de vida e na expectativa de vida saudável por meio de iniciativas para aumentar a renda, proporcionar mais anos de estudo e apoiar o planejamento familiar.

Os autores enfatizam que, por muito tempo, tem havido a falta de se reconhecer a importância do desenvolvimento socioeconômico para a saúde em geral, e a necessidade de um enfoque muito mais amplo, que dê mais atenção a todos os fatores que influenciam a saúde da população.

“Levando em consideração os efeitos avassaladores do desenvolvimento socioeconômico sobre o progresso da saúde, nossa prioridade coletiva deve ser aumentar as políticas e estratégias que estimulem o crescimento econômico, ampliem o acesso à escolaridade e melhorem a condição das mulheres”, comentou Murray [2].

NOTAS

A Fundação Bill e Melinda Gates financiou o estudo, que foi conduzido por colaboradores do projeto Global Burden of Morbidity and Mortality (GBD) de 2019 por doenças e lesões.

[1] O projeto GBD, que é coordenado pelo IHME, é produzido por uma rede global de 5.647 colaboradores de 152 países e territórios, trabalhando em mais de 1.100 universidades, centros de pesquisa e agências governamentais. O estudo de 2019 analisou 286 causas de morte, 369 doenças e lesões e 87 fatores de risco em 204 países e territórios. O GBD tem sido usado para informar a política de saúde em vários países e jurisdições locais, bem como em organizações internacionais como o Banco Mundial e a Organização Mundial da Saúde.

[2] Citações diretas de autores que não são publicadas em artigos.

[3] Apenas seis países viram um declínio no número de anos de saúde precária entre 1990 e 2019: Lesoto, Uzbequistão, Nicarágua, Tajiquistão, Filipinas e Zimbábue.

[4] A perda total de saúde é medida em anos de vida ajustados por deficiência (DALYs), que agrupa os anos perdidos devido a deficiência, doença e morte prematura. É calculado como o número de anos vividos com deficiência (AVD, ou seja, o tempo gasto em condições de saúde aquém do ideal) mais o número de anos de vida perdidos (YLL). A perda total de saúde (medida em DALYs) também é conhecida como o fardo da morbidade e mortalidade.
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