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Resposta ao COVID-19 pode fortalecer por longo tempo pensamento anticientífico

Depoimento de profissional na linha de frente do enfrentamento do COVID-19

Optei, há alguns dias, por desativar temporariamente redes sociais e sair de muitos grupos de WhatsApp. Coloquei em modo de quase stand-by iniciativa que coordeno, a Choosing Wisely Brasil. Incomodava-me a quantidade de informações e, apesar dela, a total fragmentação e improdutividade.

Em situações bem mundanas, quando algumas peças de quebra-cabeças apareceram montadas, tive inquietudes (estou mais sensível que o normal, devem compreender). Como quando um colega divulgou no Facebook inúmeras mensagens retratando médicos como heróis (e, por tabela, a si próprio), enquanto fechou completamente seu consultório. No hiperlink imediatamente a seguir, acesse nota da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar sobre a questão. Se a atenção ambulatorial brasileira simplesmente desaparecer, haverá graves consequências negativas para o sistema de saúde e seus pacientes. Será preciso reinventar-se, isso sim.

Do ponto de vista mais técnico, não estava conseguindo juntar muitas peças. São posicionamentos referentes à ecologia, epidemiologia e sociedade polarizados demais, embora eu consiga assimilar bem perspectivas de ambos os lados. Estou tentando chegar a conclusões por outras fontes. Será que devemos? Ou melhor seria entregarmo-nos resignados às orientações do pessoal do Ministério da Saúde, aparentemente muito bem-intencionados e, dentro do possível, técnicos? Dei-me conta ainda que, para aprimorar a prática médica à beira do leito (onde tenho alguma chance maior de fazer diferença), preciso é de publicações científicas, não de Facebook, direcionando o tempo restante para qualquer outra coisa.

Venho atuando com pacientes COVID-19 suspeitos ou positivos e, no restante do tempo, em estratégia “humanamente impecável” de distanciamento social. Quando não no trabalho, costumo estar em casa então – a maneira mais fácil de ser efetivo. Ainda não tenho os critérios estabelecidos por meu hospital (em última instância, o poder público local) para isolamento completo. Entretanto, a atmosfera de irracionalidade está tão intensa que é socialmente aceito que eu vá de casa para o hospital de Uber, a menos de 1 metro de estranho, mas não que eu pratique responsavelmente exercícios na rua por 30 minutos (lembrem que o vírus não passeia pelo ar – espalha-se, mas muito pouco permanece, logo está nas superfícies). Muitas entidades médicas autorizam e estimulam a caminhada/corrida, desde que mantido o distanciamento social. E eu acrescento, embora não necessariamente estimule: sem parar em lugar algum durante percurso através de locais com previsão – já anterior à epidemia – de poucas pessoas, desviando delas e sem encostar em nada também. Mas a irracionalidade é tão prevalente e absurda que um colega do hospital que utiliza bicicleta para trabalhar foi atropelado por táxi e, ao invés de receber ajuda da Polícia Militar, recebeu um xingão (somente gaúcho fala assim?). Alguns profissionais da saúde que não têm carro e dinheiro para utilizar Uber todos os dias estão sendo hostilizados ao esperar por ônibus ou trem.

E, enquanto o calor da demanda ainda não se faz sentir no local que trabalho, é sobre irracionalidade que quero discorrer mais. Nada tem me incomodado mais do que isso por ora…

O debate sobre a Hidroxicloroquina é absolutamente esquizofrênico. Não será objetivo dessa postagem detalhar a razão. Sugiro leitura complementar aqui.

Mas a irracionalidade da Hidroxicloroquina trará consequências muito ruins em curto, médio e longo prazo. Em curto prazo, já está causando estresse moral em médicos de perfil mais cético – e o limite entre estresse moral e assédio moral, com sequelas futuras, é muito próximo. O leitor poderia dizer tratar-se de uma situação excepcional, sem tendência a se repetir tão cedo inclusive. Balela! E isso os estudantes e residentes da área da saúde precisam entender o quanto antes, para não moldarem o pensamento de forma anticientífica, culminando em grave consequência negativa de médio-longo prazo. Que mensagem queremos dar para os futuros médicos brasileiros???

A epidemia de agora é apenas um fator associado, servindo ainda como armadilha potencializadora. Não é causa de irracionalidade, nem deveria justificar suas consequências. Sabem bem aqueles que estão de fato conseguindo estudar racionalmente o fenômeno CONVID-19 – com terror é impossível. Quem viveu a época do Xigris (drotrecogin alfa ativada), entre muitas outras situações emblemáticas de “medical reversal” da história recente da Medicina, como a bem recente falácia da Vitamina C na sepse, larga em vantagem para compreensão do cenário. Recordar é viver…

O Xigris apareceu como a “bala de prata” da sepse. Condição grave, ameaçadora da vida, serve para traçar um bom paralelo com o CONVID-19 dentro das UTI’s. Diferente da Hidroxicloroquina para coronavírus, surgiu com algo que dava para chamar de trabalho científico. Detalhes dessa história aqui.

Naquela época, frente à mesma desafiadora sepse dos dias atuais, muitos médicos sentiram-se pressionados por todos os lados para prescrever o milagroso medicamento.

Isto que não era tão fácil perceber a insuficiência da evidência como é na situação bizarra e caricatural da Hidroxicloroquina. Esforços em que participei buscaram alertar (vídeos amadores lembrando atividade de 2008 aqui e aqui),

em momento em que sociedades médicas e mídia praticamente só falavam maravilhas do Xigris, e não instigavam novos estudos.

Já os profissionais comuns dividiam-se entre apatia sob efeito manada, relatos eufóricos – muito pouco diferentes dos que têm surgido na mídia agora com a variante “sobreviveu pela Hidroxicloroquina”, apenas não viralizaram tão facilmente -, e os desconfortáveis. A droga somente foi retirada do mercado por aumentar mortalidade cerca de 10 anos depois de aprovada.

A questão aqui não é refutar medicamentos incertos em toda e qualquer circunstância por preciosismo científico. É sobre atuar em atmosfera que desestimula contusamente a conversa franca, verdadeira, com doentes e/ou familiares. É para que pelo menos a pressão por fantasias venha dos diretamente interessados, e possa existir uma negociação mínima, em estratégia de decisão compartilhada. Para tal, atmosfera oposta é imperativa! A impressão de que tu estás incorporado uma intervenção a mando do Trump, do Bolsonaro, da imprensa irresponsável ou do grupo condominial no WhatsApp – e não se fale mais nisto – é realmente muito difícil de lidar para quem se importa. Na instituição onde atuo, decidi que não falarei mais sobre Hidroxicloroquina – o clima não está adequado para debates dessa natureza, os tomadores de decisão estão com questões ainda mais relevantes e é justo atrapalhá-los. Mas o silêncio por vezes incomoda também…

A epidemia vai passar – com mortos, feridos e rastros de destruição. Do tipo que a sepse bacteriana já nos proporciona faz tempos (circunstancialmente pior pela soma das coisas). A mídia especializada em saúde, ao menos, precisa ajudar as pessoas a saírem disto tudo minimamente racionais, quem sabe a partir de algumas mensagens a serem trabalhadas:

Médicos não conseguiriam perceber, com os olhos próprios apenas, se exatamente a Hidroxicloroquina (ou qualquer outra droga) faz diferença. Quem sugere isso deveria ser chamado de João de Deus, para, provocado, talvez refletir e compreender. Pois só se tivesse poderes mediúnicos mesmo (entendam o porquê aqui);

Pesquisadores devem, mais do nunca, atuar e atuar bem. É justamente momento de estudos muito bem delineados e conduzidos. Coalizão que se preze precisa de grupo placebo;

Médicos que hoje defendem a Hidroxicloroquina estarão proibidos de falar mal de terapias alternativas, como tantos gostam de fazer. Muitas são apenas fantasias, é verdade. Mas seus apregoadores não costumam travesti-las tão bem de “científicas”. Além do que costumam ser mais inofensivas.

Disse-me um colega com quem debati o mesmo assunto, para acabarmos essa postagem:

– “Se emplacar a Hidroxicloroquina, não dá pra chamar de esquizofrenia. No teu caso, terás que te retratar”.

Boa oportunidade para resgate dos fundamentos básicos da Ciência. Ajudam na compreensão de que ela não serve a si própria, mas para defender as pessoas e a sociedade, justamente nos cenários embaçados. Que, ao cabo, todos comemoramos ou lamentamos juntos.

A situação específica não remete ao paradigma do paraquedas, na imensa maioria dos casos. Então representa contexto onde escutar vozes do além é loucura sim, até que se prove o contrário. Eu, se adoecer pelo COVID-19, até que uma evidência considerável surja para qualquer tratamento específico, não trocarei a incerteza pelos efeitos adversos de drogas como Hidroxicloroquina e Azitromicina, por mais incomuns que sejam. Quero, no pior dos cenários, bons intensivistas e bons ventiladores ao meu lado (muito eventualmente ECMO). Desejo profissionais livres de pressões desnecessárias, focados em ventilar de acordo com as melhores práticas, atentos à eventual sobreposição de insultos, os abordando como sempre fizeram, sem explosão criativa em momento onde o mais fácil é justamente perder a consciência situacional. E isto sabemos funcionar muito bem – dentro do possível.

Guilherme Brauner Barcellos

About Guilherme Brauner Barcellos

Guilherme Brauner Barcellos - Pioneiro no Brasil e na América Latina em Medicina Hospitalar. Foi o primeiro brasileiro a ser Fellow in Hospital Medicine e o primeiro profissional que não trabalha nos EUA Senior Fellow da Society of Hospital Medicine.