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O debate do “erro médico” e o paradoxo da não generalização.

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Recente matéria suscitou intensa reação de entidades médicas. Responderam à publicação diversos conselhos médicos, sindicatos e sociedades de especialidade. Representante maior da categoria, o Conselho Federal de Medicina, não deixou por menos:

“O CFM lamenta, publicamente, o tom alarmista adotado pela reportagem “Erro médico”, publicada na edição 391 da Revista Superinteressante.

Comete-se equívoco ao tratar casos específicos como se fossem a regra, o que gera impacto negativo na relação médico-paciente, a qual deve ser pautada pela ética, confiança e respeito à autonomia.

Finalmente, reiteramos o protesto dos médicos contra a generalização inadequada com a qual foi tratado o assunto.”

[LEIA NA ÍNTEGRA AQUI]

À semelhança do CFM, muitos reclamaram da generalização. O paradoxo da não generalização decorre de raciocínio aparentemente bem fundamentado e coerente. Esconde, entretanto, perigosa armadilha: o contrário de não generalizar é apontar objetivamente culpados. Será este o melhor caminho?

Para responder a questão, é importante definirmos claramente de que erros estamos falando ou deveríamos estar.

Embora a Superinteressante fale de erro médico (e muito bem identifique uma categoria profissional), toda base teórica por ela mesmo utilizada diz respeito a “erros associados aos cuidados em saúde”. A discussão toda não é nada nova (relembro aqui artigo de 2010). A tradução indevida de “medical errors” para “erro médico” igualmente não é novidade. Já aconteceu porque informação era pouco acessível (o boom internacional do movimento de segurança do paciente, impulsionado por estatísticas semelhantes às mais recentemente surgidas no Brasil, só aconteceu a partir dos anos 2000). Atualmente, no entanto, as únicas explicações para a tradução indevida são incompetência ou interesses secundários ocultos. Acontece, então, porque sensacionalismo vende. Ou por interesses como agredir uma categoria profissional mesmo, tal como fizeram representantes de outra ao concluir, a partir da mesma matéria, que: “ao que parece, temos os piores médicos do mundo no Brasil. Em contrapartida, temos os melhores biomédicos”.

Esta mesma base teórica, já muito bem consolidada, traz, e não há como fugir disto, números contundentes. Uma profunda discussão-reflexão-ação é um exercício inarredável em nosso meio. Alarme é o mínimo que se espera para onde há fogo. Mas trata-se de realidade mundial, não do Brasil, e que diz respeito a muito mais do que erros por perversões, maldades ou profissionais incompetentes:

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Adaptado da obra Compreendendo Segurança do Paciente

Quem comete a maior parte dos erros é profissional bem treinado e bem-intencionado. O problema dos erros associados aos cuidados em saúde não é fundamentalmente um problema de “maçãs podres” (ainda que haja algumas, parcialmente representadas em vermelho – nem tudo ali é tão simples assim também). Estaríamos necessariamente falando de uma maioria de profissionais competentes trabalhando em um sistema caótico que não tem a segurança como prioridade. Como Kaveh Shojania e Robert Wachter, experts em segurança do paciente, escreveram no clássico livro Internal Bleeding:

“Décadas de pesquisa confirmam nossa própria experiência médica: a maioria dos erros é cometida por pessoas boas – porém passíveis de falhas –, que trabalham em sistemas deficientes, e isso significa que tornar mais seguro o cuidado em saúde depende de fortalecer o sistema para prevenir ou conter os lapsos inevitáveis dos mortais. Essa abordagem lógica é comum em outro cenário, o das indústrias de alta tecnologia, mas foi lamentavelmente ignorada na saúde. Em vez disso, agarramo-nos com firmeza à visão de que um erro é uma falha moral de um indivíduo, postura que deixou os pacientes irritados e inclinados a atribuir culpa, e profissionais sentindo-se culpados e desmoralizados. E mais importante: não se faz com esta postura quase absolutamente nada para tornar o cuidado em saúde algo efetivamente mais seguro.”

Que reste claro e cristalino, ainda, que este mesmo sistema certamente mais salva do que prejudica. Um alarmismo que na verdade é pirotecnia traduz postura de quem está vendendo mídia ou soluções (quando isto não vem como combo).

O paradoxo da não generalização é o oposto de abordagem defendida por todo especialista em segurança do paciente, capaz de lidar melhor com a maioria dos erros e, portanto, beneficiar, em média, muito mais gente. O maior problema, se continuarmos a insistir em tratar o assunto apenas com a postura de querer punição ou identificação mais precisa dos “culpados”, é incentivarmos um ambiente que estimula ainda mais o silêncio e não se prepare de verdade para antecipar falhas e interceptá-las, antes que causem danos. Lucian Leape, da Escola de Saúde Pública da Harvard, já escreveu que “mais de meio século de teoria e experimentação em psicologia cognitiva, engenharia de fatores humanos e vários campos de alto risco, principalmente o da aviação, dão força a esta recomendação: aperfeiçoe os sistemas, se quiser minimizar os danos”. Tirem o foco das pessoas!

Os casos em vermelho mereceriam uma pena, para o que precisam ser identificados? Muito provavelmente! Mas que seja briga travada no devido lugar – o sistema judiciário. O papel da mídia, queira ela ter maior alcance nas suas boas intenções, deve ser outro. A forma como escolhe lidar com os erros influencia a forma como as organizações e as pessoas respondem. Quanto mais distorcida for a cobertura (por exemplo, enfatizando as maçãs podres em vez do sistema), mais danosos os efeitos provavelmente serão. Atuando mais sabiamente e com foco nos pacientes, jornalistas ajudarão entidades profissionais, não as colocando na incômoda situação de ter que optar entre encarar um problema real em campo movediço ou relativizá-lo em nome de interesses secundários absolutamente legítimos. Ou fazer como um líder de profissão da saúde que, anos atrás, literalmente entregou profissional sua, da linha de frente, à fogueira, claramente emparedado. O caso ganhou enorme visibilidade na mídia. Resta claro, hoje, que a “culpada” foi pega segurando a arma fumegante (era um frasco de vaselina), representando apenas um último elo de longa cadeia de erros e outras tantas pessoas muito mais “responsáveis” do que aquela infeliz que estava na hora errada, no lugar errado, “no paciente errado”.

Eu, na posição das entidades médicas e com esta cultura equivocada, contraproducente, faria o mesmo e jamais reconheceria que acontecem erros todo dia, muito felizmente, a maioria, na zona branca da figura acima. Mas o fato é que eu erro com bastante frequência, nem que seja como parte menor de engrenagem falha, ou até irrelevante – não fosse eu, outro erraria em meu lugar.

Eu, Guilherme Barcellos, erro. Hospitalistas, para serem bons hospitalistas, precisam aceitar que pisam no “território branco e cinza” toda hora. Somente assim serão parte da solução, não do problema.

Proponho que nós, profissionais da ponta com conhecimento em segurança do paciente, quebremos o paradoxo da não generalização, compartilhando esta publicação com #Eu[Nome]CometoErros!

Não há orgulho nisto. A não ser no aspecto de que é a atitude que nossos pacientes esperam de qualquer profissional da saúde! Não todos, é verdade! Mas estaremos lutando em nome dos que não enxergam também!

       
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