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ROI divulgado em Saúde Corporativa pode induzir a um falso resultado

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Entendo que o título do artigo possa provocar indignação. A saúde corporativa, que tanto anseia por indicadores que possam oferecer compensações para investimentos em saúde e qualidade de vida, encontrou no ROI (Return Over Investment) uma alavanca poderosa. Por ser um assunto complexo, nada melhor para a nossa compreensão do que analisarmos um exemplo prático e elucidativo, tendo como referência a implantação de um programa de redução de peso à disposição dos funcionários.  Impressiona, em um primeiro momento, o comando da empresa quando em uma apresentação de resultados se menciona, por exemplo, que por ter havido investimento em um programa para redução de peso ao custo de R$ 10.000 houve, ao final de 12 meses, redução de sinistralidade em saúde suplementar em valor correspondente a R$100.000.  Ou seja: um resultado extraordinário. Ao calcular o ROI (receita-custo/custo) tem-se a proporção de 1:9; ou seja, a cada um real investido no programa houve economia de nove reais na sinistralidade. Alerto: normalmente esses valores não correspondem à realidade! Na sequência do texto detalho os motivos deste equívoco.

Mas, antes, vamos aos motivos da utilização do ROI ser tão popular e disseminada.  O uso do índice, como falado anteriormente, pode ter a nobre intenção de viabilizar investimentos em saúde que, para a empresa, de fato, deve ser revertido em lucro aferível monetariamente. Entretanto, este significado pode ser eventualmente distorcido por empresas de saúde que prestam serviço às corporações, sob a forma de aferir contratos por meio da argumentação que utiliza como fundamento o mecanismo de Retorno Sobre o Investimento. No exemplo descrito anteriormente, a ideia é que o programa, que tem como propósito melhorar a saúde do colaborador (favorecendo a perda de peso de quem o tem em excesso), ainda possa trazer como benefício financeiro um ganho na sinistralidade do plano, ao deduzir nove reais do prêmio a cada um  real investido no programa.

Nestas situações, a argumentação pode dar a ideia para a contratante de que o investimento não só é sustentável, mas reverterá em lucro. Ou seja, do ponto de vista financeiro, este serviço não é vendido como custo, e sim vantagem econômica. O ROI passa a ser um indicador aparentemente vantajoso utilizado por algumas empresas que trabalham com programas de qualidade de vida e saúde. O ponto negativo é que isto convence a curto prazo. Faço esta ressalva pois é evidente que, passado o investimento inicial e não havendo o retorno financeiro esperado, a contratada tem a credibilidade abalada, o que é incompatível com a sustentabilidade do negócio. Entretanto, o maior problema não tem relação com a contratação malsucedida. O real prejuízo está na falsa impressão, originada de uma argumentação insustentável de que programas de saúde que geram custos poderiam ser fontes de lucro. Isso prejudica a credibilidade de toda a iniciativa que visa implementar programas de saúde e qualidade de vida bem-sucedidos.

Conforme prometido acima, preciso esclarecer o problema do ROI utilizado comumente como fator de comercialização de produtos.  O equívoco é a metodologia. O que tenho observado são citações de ROI sem aprofundamento do real cenário de como isto foi alcançado. Para entender mais facilmente, voltemos ao exemplo do investimento do programa para redução de peso mencionado anteriormente e o retorno pela redução do custo em sinistralidade da saúde suplementar. O ROI, neste caso, intencionou relacionar estes dois fatores: programa X sinistralidade. Entretanto, não houve explicação de mais nenhum fator que poderia influenciar no resultado. Inúmeras situações – sem nenhuma correlação com os únicos dois fatores da fórmula – podem ter ocorrido ao longo do ano como: mudança para operadora de saúde com custo per capta mais baixo (redução de sinistralidade), programa de demissão voluntária (PDV) em que os colaboradores com mais idade (tendência de maior sinistralidade) se desligaram, mudança do cardápio do refeitório com diminuição de calorias (sem relação com programa implementado), entre outros.  Fica evidente que o resultado do ROI pode ser alterado por inúmeros fatores que os não englobados pela fórmula. Pode não haver relação de causa-efeito.  Por isso, a promessa de um programa bem-sucedido com base no resultado do ROI simplesmente é falha.

Com base nestas premissas, geralmente não confio unicamente no ROI em saúde corporativa. Este seria confiável apenas se a relação entre causa e consequência não sofresse influência de nenhum outro fator. O que causa confusão são os valores inerentes ao resultado – por isso afirmo que geralmente eles não condizem com a realidade -. Infelizmente isto raramente é abordado quando se relatam resultados pretensamente favoráveis ao ROI.  Isso sem falar como é raro observar divulgação de ROI desfavorável!

Penso que há outras maneiras de demonstrar a eficiência e eficácia da implementação das boas práticas em saúde corporativa, que além do potencial verídico de retorno em saúde e bem-estar pode resultar em efeitos financeiros positivos.  Fundamentalmente práticas eficientes e algumas inovações baseadas em três alicerces que devem se comunicar e retroalimentar acabam sendo fonte de resultados positivos. São eles:  Saúde Ocupacional, Qualidade de Vida e Gestão Técnica da Sinistralidade em Saúde Suplementar. Em cada um destes pilares devem ser traçados objetivos acompanhados de indicadores. A medicina do trabalho contribui, além da avaliação e condução médica de patologias idênticas, também para mensurar o absenteísmo (índice, taxas de frequência e de gravidade), afastamentos a previdência social, licenças maternidade, retornos ao trabalho e o percentual de efetivação dos exames periódicos. Para compreender melhor as características da população de trabalhadores é necessário também identificar e acompanhar o perfil de saúde populacional (mapeamento epidemiológico).

Com base nestes dados e dos índices da sinistralidade em saúde suplementar será possível, a partir das necessidades identificadas, traçar estratégias para melhorar a qualidade de vida dos colaboradores. Já com relação aos planos de saúde, um profissional médico competente, havendo apoio da empresa, é capaz de melhorar as negociações contratuais por demandas da população estudada, bem como identificar beneficiários que necessitam de um acompanhamento mais personalizado a fim de facilitar o cuidado com a própria saúde. Por meio destas múltiplas possibilidades e suas derivações é possível se investir em pontos de fragilidade, e com isso possibilitar melhores resultados para os colaboradores, beneficiários e comunidade. As boas práticas consolidadas se propagam muito além da saúde, tendo influência ainda no engajamento do colaborador, percepção da imagem da empresa, turnover e produtividade.

Entendo que investir em um mapeamento profundo da realidade corporativa (única para cada empresa), embora com ajuda informatizada, é trabalho artesanal e peculiar. Não há como propor soluções seriadas para múltiplas corporações com realidades distintas. Nem apenas ser guiado pelas determinações emanadas de entendimento tecnicamente incompleto de lideranças de um contratante (consultoria e/ou operadora). Ao colocar-se a par dos múltiplos fatores do universo da empresa e esclarecimentos sobre os propósitos almejados por ela, é que um profissional gabaritado (tanto pela técnica acadêmica, quanto por experiência) pode encontrar oportunidades de melhoria que devem ser demonstradas de forma transparente e realista.

Acredito ser este o caminho provável, embora trabalhoso e sem garantias, para implementar e ser bem-sucedido em programas de saúde e bem-estar sustentáveis que tragam reais benefícios não só para os colaboradores, mas também para a empresa.

       
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