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O setor será irreconhecível em 10 anos

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“Nós não precisamos de novas perspectivas, nós precisamos de olhos novos para enxergar o futuro da saúde” foi assim que Joe Flower, futurista de saúde, abriu a sua palestra no CONAHP 18. Como tese, ele criou uma tabela de elementos que mostra como será o futuro da saúde. Segundo ele, é normal que as pessoas e organizações estejam focadas em seus negócios, e não antecipem e se deem conta da velocidade da mudança, ou dos efeitos que outros setores podem ter nas suas instituições. Com a saúde, isso não é diferente, ela será irreconhecível em apenas dez anos, de modalidades de tratamentos a fluxo de trabalho, ou modelos de negócio.

Do pouco que conhece o Brasil, ele diz que o que mais o entusiasma é o impressionante comprometimento constitucional que o país oferece em relação à saúde: a nação mais populosa a garantir acesso a todas as pessoas, além do rápido crescimento do setor privado. Cada economia é diferente, mas existe uma batalha comum em escalar boas estratégias de gestão, e isso será possível através da combinação de acordos sócio-políticos com tecnologia, varrendo todas as práticas desnecessárias, aumentando o acesso, a qualidade – e reduzindo o custo.

Sua tabela começa pela medicina primária, por ser a base sólida de toda estratégia do sistema. O primeiro elemento é a confiança técnica na competência do time multidisciplinar e no fluxo seguro de informações, e a confiança humana, entre os profissionais, e entre o time e o paciente. A segunda é a centricidade do paciente, de fato, e não na teoria.

O que nos leva à discussão de modelos de pagamento. O modelo mais adotado atualmente é o de pagamento por serviço, insustentável. Não há o cuidado integrado dos episódios, e sim visitas isoladas e tratadas individualmente. Provedores possuem incentivos para sempre fazer mais, escolher os tratamentos mais complexos e caros. Estudos mostram que mais de um terço dos gastos em saúde nos EUA são frutos de procedimentos desnecessários. Isso significa mais de 1 trilhão de dólares.

Não há como negar a urgência do surgimento de novos players para esta questão, de trabalhar a divisão do risco financeiro entre instituições e consumidores, que assim podem fazer escolhas mais sábias e avaliar o custo-beneficio de suas interações com o sistema.

Outro elemento é a tecnologia, como wearables e telemedicina, o primeiro promove maior atrelamento do paciente ao sistema e o segundo maior conveniência e acesso. Com mais pontos de contatos, há menos gaps de informação, melhor fluxo de dados e maior coordenação de cuidados. A maior eficiência decorrente, auxiliado pela inteligência artificial e automação, permite que os profissionais se dediquem ao cuidado humano. Joe diz que a saúde é o negócio mais humano de todos e deve manter a sua solidez de relacionamento, principalmente através de programas de prevenção e gerenciamento de doenças.

Hoje a saúde funciona de um modo único, o paciente chega ao médico, faz exames, é diagnosticado e realiza o tratamento. “Um sistema de modo único, por sua própria natureza e eficiência, é propenso a gargalos custosos, porque não há competição, há apenas uma maneira de se fazer as coisas, apenas uma maneira de ser pago, todo sistema se beneficia da variedade”, disse Joe, trazendo o próximo elemento: a descentralização no sistema ideal, granular e fluido.

De acordo com o futurista, estamos observando um movimento de hospitais em casa. Realizar o tratamento em casa, em vez de ser internado em um hospital, quando viável, não somente economiza recursos financeiros, mas também previne prejuízos decorrentes do ambiente. Para citar: há uma chance maior de óbito somente pelo check in hospitalar do que no salto de bungee jump.

A variedade de modelos de cuidado é atraída pela diversidade de modelos de pagamento. Quanto maior for o incentivo na não-remuneração por volume, melhores são os resultados, e maneiras mais baratas de fornecer os cuidados se tornarão realidade. “O que estamos vendo é a desconstrução do sistema hospitalar, em termos de organizações e estruturas.”, explicou, frisando que a medicina primária e interdisciplinar é base nesse novo sistema disruptivo, que combina tecnologias para envolver o paciente no cuidado certo, acompanhado de um novo modelo de pagamento. Além disso, ele cita a importância do fator ambiental e social, ou seja, acesso a moradia de qualidade, transporte, alimentação e relacionamentos saudáveis como pontos de interferência no sistema. “O seu CEP é um preditivo muito melhor do seu estado de saúde e longevidade do que seu código genético”.

Joe diz que para toda essa desconstrução funcionar, será necessária uma verdadeira interoperabilidade e absoluta transparência de como os dados serão transmitidos entre sistemas, e tudo isso será mediado através de blockchain. Segundo Joe, o uso real desta tecnologia na área de saúde está apenas começando a emergir, mas podemos falar sobre o que promete. Neste contexto se inclui a troca segura de informações valiosas sem uma central validadora, o que promove transações mais rápidas e baratas, simplificando drasticamente a manutenção de registros e estabelecendo uma única verdade entre as partes.

Fazer um histórico imutável das transações de procedimentos médicos e atualização de registros em tempo real, permite que as organizações criem contratos inteligentes baseados em lógica de negócios que podem se executar de forma autônoma, e assim economizar tempo e dinheiro, além de reduzir o atrito gerado por intermediários. Imaginem como isso iria transformar os cuidados em saúde?

O futuro não é uma lista de itens, é um desenvolvimento conjunto e integrado para gerar, de fato, disrupção no sistema. Os elementos são o núcleo de uma matriz de mudanças estruturais. Deve-se existir variedade para atender todas as necessidades individuais de cada paciente, e de diferentes partes do mercado, mesmo que integradas. Todas iniciativas impulsionadas pela demanda do cliente para produzir uma estratégia de saúde populacional com maior capacidade, mais eficiência e mais poderosa: tecnológica e humana.

       
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