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A Inteligência Artificial substituirá os médicos?

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Um tema que tem provocado muita polêmica é o da Inteligência Artificial (IA) aplicada à medicina. Será que esses programas serão capazes, no futuro, de fazer diagnósticos e recomendar tratamentos melhor que os próprios médicos? Se isso for verdade, será que os médicos serão substituídos inteiramente por softwares desse tipo? É possível, ainda, que essa tecnologia venha a ter um potencial realmente inovador, que torne a medicina mais perfeita, principalmente quanto a diminuição de erros humanos?

Não há dúvida que estamos entrando no limiar de uma nova era da computação cognitiva, ou seja, que funciona artificialmente como o intelecto humano avançado. Essas são dúvidas muito importantes, cuja resposta poderá anunciar uma revolução completa, uma disrupção talvez traumática, talvez benéfica, para o modelo atual da medicina.

Essas preocupações não são novas: elas existem praticamente desde os primeiros albores da IA aplicada à medicina, no início dos anos 1970. Muitos especialistas, no entanto, acham que, dessa vez, depois de duas tentativas históricas frustradas de inserir os sistemas especialistas e de outros aplicativos baseados em inteligência artificial para uso pelos médicos, finalmente poderá dar certo. Outros, no entanto, são mais céticos…

Um dos grandes motivos para essa renascença da IA é o grande número de novos produtos e ferramentas de inteligência artificial, com variadas metodologias, que estão entrando no mercado por meio de empresas como Microsoft, Google, Amazon, IBM etc., que nos últimos anos lançaram muitos recursos computacionais baseados em nuvem de baixo custo e de grande poder para facilitar a implementação dos chamados sistemas cognitivos.

Especialmente influente nesse novo período foi o produto da IBM chamado Watson, que também encontrou aplicações na medicina com auxílio ao diagnóstico e o tratamento do câncer etc. Além desses e outros gigantes mundiais da tecnologia, milhares de startups estão surgindo com novos produtos e serviços com esse foco, determinadas a conquistar mercados.

Entretanto, uma coisa é ter softwares de IA poderosos, capazes até mesmo de sobrepujar as habilidades e conhecimentos de médicos experientes (eu mesmo desenvolvi vários sistemas especialistas baseados em regras e em redes neurais artificiais desde os anos 90) e outra é conseguir utilizá-los rotineiramente em hospitais, clínicas e consultórios, em situações onde eles realmente poderiam ajudar. Infelizmente essa tentativa tem encontrado sistematicamente resistências e fatores de fracasso variados. Apenas uma fração muito, muito pequena dos sistemas envolvidos encontrou aplicação real.

Um dos motivos é que o uso desses programas não se encaixa adequadamente ao fluxo de trabalho do médico e ao tempo que ele necessita para utilizá-los. Outro, no entanto, é de natureza mais básica, já que os desenvolvedores parecem ignorar sobre como os médicos pensam e agem com respeito a sua própria atividade. Como transparece na famosa frase em Latim, a medicina é a “ars curandi”, ou seja, a arte da cura, um misto de arte e ciência, baseada extensamente em um conjunto complexíssimo de coisas, como sabedoria, conhecimento, intuição, bom senso e vivência, justamente coisas que são difíceis até hoje de implementar em uma máquina! O componente humano da medicina é indissociável de suas ações, filosofia e ética.

Em outras palavras, a medicina ainda é bastante cética quanto às promessas de que será sobrepujada algum dia por um programa artificial que apenas imita o complexo raciocínio clínico adquirido após décadas de práticas, principalmente devido ao fato de que ciência da IA ainda realmente não ter dominado a linguagem humana. A inteligência artificial apenas imita a inteligência natural, mas não funciona como ela. Não vou afirmar que isto não poderá ocorrer no futuro, mas por enquanto há dúvidas sérias a respeito…

Onde e como, então, os computadores podem ser verdadeiramente úteis ao exercício da medicina, na área de apoio a decisão diagnóstica e terapêutica? A minha opinião, e a de muitos especialistas, é que eles podem facilitar, durante os episódios de atenção médica, o acesso às informações necessárias para que o médico mesmo possa decidir o que fazer, ou seja, um suporte informacional eficiente, rápido e efetivo para que ele use seu próprio intelecto altamente treinado.

Estou falando de plataformas on-line como PubMed, Biblioteca Virtual de Saúde  e ClinicalKey, que dão acesso gratuito ou assinado não só a literalmente milhões de itens estáticos/passivos de conhecimento, como artigos médicos, revistas, livros, diretrizes, consensos, manuais, imagens, vídeos, áudios, bases genômicas, bibliográficas, de medicamentos, doenças, procedimentos, etc., como também itens dinâmicos/ativos, como calculadoras médicas, alertas de interação medicamentosa, sistemas especialistas e muitos outros (mas que, embora muitos usem técnicas de IA, atuam em domínio altamente especializados, não podem ser caracterizados como tendo uma inteligência e cultura médica geral e abrangente). Essa abordagem é, inclusive, a mais tradicionalmente aceita e incorporada pelos médicos, tendo uma longa história de uso, sendo que o efeito das tecnologias digitais e Internet são imensos e revolucionários. Basta agora incrementarmos o uso de soluções de integração com o Prontuário Eletrônico do Paciente, permitindo o uso direto e ágil dessas plataformas no ponto de assistência.

Um conjunto extenso de recursos como esses constituirá por muito tempo ainda o grosso do apoio computacional às ações na área da saúde, e deveriam ser mais conhecidos e mais utilizados. A IA parece ser fácil de ser adotada na medicina, mas não é. Nunca devemos nos esquecer do famoso aforisma atribuído a Hipócrates, o pai da Medicina, sobre ela mesmo:

“A vida é breve,
a arte é longa,
a oportunidade passageira,
a experiência enganosa,
e o julgamento difícil.”

       
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