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“Estamos gastando muito mais em saúde do que já gastamos um dia”

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“Estamos gastando muito mais em saúde do que já gastamos um dia.” disse Clay Johnston, reitor da Dell Medical School, no início da sua palestra ao Summit Saúde Brasil. Infelizmente, disse ele, nós não estamos vendo uma associação entre o aumento das despesas e a expectativa de vida. No EUA, apesar do aumento dos custos, a expectativa de vida está declinando. Ou seja, não há retorno sobre o investimento.

Com base em cinco exemplos, ele mostra como o sistema de saúde está funcionando atualmente. Em primeiro lugar, ninguém paga por prevenção, ainda uma discussão sobre custos, qualidade e expectativa de vida. Johnston diz que poderíamos prevenir muitas despesas e necessidade de leitos adicionais se conseguíssemos manter as pessoas fora do hospital em vez de trata-las quando atingirem uma situação grave ou crônica. E que saúde pública primária e prevenção são fundamentais para um melhor e sustentável cuidado.

Outro ponto é que ninguém lembra os pacientes ou se importa com a adesão aos medicamentos. Três meses é o tempo no qual um usuário adere sem faltas ao seu tratamento, e ainda assim, os sistemas não são desenhados para checar isso, nem mesmo é tradicional o uso de mensagens por celular. Então pode-se colocar todos os esforços no desenvolvimento de novas medicações e formas de tratamento, que de nada irá adiantar se não houver o monitoramento da adesão de pacientes aos seus remédios.

Em terceiro lugar, as visitas ao médico são muito curtas. A média americana gira em torno de 12 minutos. Os médicos são forçados a atender mais pacientes e, a partir disso, combinado com o modelo adotado, gerar mais receita para a instituição. A falta de contato entre médico e paciente continua com o outro ponto, não é possível acessar os médicos por email. Um tópico um tanto quanto controverso. O email é tão fundamentado no dia a dia das pessoas que é difícil vê-lo como tecnologia. Para os defensores da tese, a desculpa mais comum é a falta de segurança com dados sensíveis que essa interação poderia provocar. Mas esse argumento é frágil se considerarmos nossas interações bancárias. Para ele, a questão é se o sistema está ou não preparado e deseja uma maior interação entre o médico e seu paciente.

Por ultimo temos a situação “Hospital Gowns Expose Your Rear” como alusão à pouca voz dos pacientes em processos que os envolvam, e que de alguma forma, os deixam desconfortáveis, como por exemplo a abertura que os aventais tem na parte de trás. Esse avental está presente na maioria dos hospitais do mundo pelos últimos 50 anos, e implica em uma situação incomoda para os pacientes, que relatam sobre-exposição e falta de privacidade. Johnston diz que o propósito da vestimenta não é claro e nem possui alta validação científica que a sustente no custo-benefício. Os médicos precisam acessar os pacientes tanto pela parte da frente quanto pela de trás, ou seja, a abertura não é justificada. “A questão é que a experiência do paciente é prejudicada, e ninguém está questionando a validade disso, ou pensando em soluções melhores. Então o que isso diz sobre nós?”

Historicamente temos investido em fazer mais do que fazer melhor, e não necessariamente em aumentar os resultados. Promover a saúde, e não somente tratar os doentes. Muito dinheiro é gasto nos últimos três meses de vida, e há uma certa resistência em se investir em tecnologia que se aumente a eficiência. Parte disso, porque os provedores são pagos por serviço e não resultado.

Johnston destaca que valor é um conceito chave, que precisa ser mensurável e adotado como cultura. “Normalmente pagamos mais por serviços que agreguem valor, e estamos dispostos a sacrificar algum recurso financeiro por qualidade. Em valor, nós deveríamos focar em melhorar os resultados com um menor valor possível, e isso precisa ser o core do que fazemos. Devemos eliminar as ineficiências e focar nas partes-chave do cuidado, e no que os pacientes querem, e não as instituições.”

Há uma tendência em focar nas visitas ao médico, exames e busca do melhor tratamento, e muitas vezes a experiência e individualidade do paciente é negligenciada. Como exemplo, o reitor da universidade da Dell conta um Case de Human Center Design. “O sistema de saúde dos EUA é incrivelmente complexo, grande e relativamente estagnado. Então como podemos mudar um sistema inteiro? É um trabalho muito difícil, então começamos com uma condição em particular para mostrar que poderíamos fazer. Ignoramos as restrições financeiras e protocolos usuais do sistema, e o primeiro passo foi conversar com as pessoas.”, disse ele ao explicar seu case de “dores nas articulações”, maior gasto atual do Medicare.

Segundo ele, havia o conhecimento de que ocorriam problemas de eficiência e experiencia dos usuários no processo, o que prejudicava os resultados. Pacientes que mal conseguiam andar de dores demoravam mais de um ano até conseguirem ser atendidos por um especialista. “Nós pensamos em um redesenho, primeiro entrevistamos os pacientes e pegamos o seu feedback para incorporar as tecnologias. Nós passamos muito tempo na triagem. Isso porque vários dos pacientes que estavam naquela lista não precisavam estar lá. Eles poderiam passar com um médico de atenção primária, um generalista, e poderiam resolver seus problemas muito mais rápido, inclusive por telemedicina. E dos que ficaram na fila, focamos em resolver a dor nas articulações da perspectiva deles. Ainda notamos que o estado emocional dos pacientes é tão importante quanto a técnica na definição de resultados. Adicionamos aconselhamento emocional ao tratamento, e ação conjunta de profissionais para a perda de peso, combate ao fumo e controle da diabetes. Nesses dois anos, conseguimos resultados clínicos muito bons, incluindo aumento de percepção da satisfação e redução 30% e 50% no custo dessa população.”, contou Johnston.

Para finalizar, ele deixa a mensagem de que precisamos lembrar do porquê estamos aqui. Não estamos aqui para perpetuar o nosso sistema de saúde atual, nem prolongar e melhorar a vida as instituições nesses moldes. Muito menos aumentar a sua receita. Devemos focar em manter as pessoas o mais saudável possível e para isso precisamos pensar em sua experiência. Precisamos pensar na promoção e sustentabilidade dos recursos de saúde. Como transformamos, inovamos, mas sempre nos mantendo fiéis ao nosso propósito.

       
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