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Empreenda Saúde: startups precisam considerar a demanda dos hospitais

O setor de Saúde brasileiro passa por intensas transformações. O papel foi substituído por soluções eletrônicas e as informações dos pacientes, pouco a pouco, são armazenadas e gerenciadas em uma só plataforma. Esses são apenas alguns exemplos de um processo de informatização que promete revolucionar a cadeia e a forma como a assistência é conhecida – caminho, esse, que deve ser trilhado a partir da inovação.  

A prática, porém, é um desafio no Brasil. “Além de pesquisa e transformação da ideia em um ativo digital, um projeto inovador precisa ser testado, e muitas vezes o que falta é o acesso ao hospital ou outro ambiente seguro para colocá-lo em prática”, explica Raphael Bueno, sócio da área de Healthcare da everis e responsável pela iniciativa do Prêmio Empreenda Saúde no Brasil. Na entrevista a seguir, o executivo fala também sobre a diferença entre o que os empreendedores oferecem para o mercado e o que os hospitais precisam, e como isso afeta o desenvolvimento da inovação no País. “O resultado financeiro não é o foco de um hospital, que tem como principal missão reduzir as chances de um paciente falecer ou ter alguma complicação. Assim, temos um trinômio, que envolve negócios, TI e o médico”. Mas, segundo o executivo, isso pode ser visto como oportunidade, ao invés de um problema.

  1. Qual é o atual cenário de inovação no setor de saúde brasileiro?

Raphael Bueno: A inovação pode ser tanto aberta quanto direcionada. A primeira, tem muito a ver com o que uma empresa faz com o ecossistema de startups, empreendedores, e vai desde o mundo acadêmico até soluções já prontas. Já a inovação direcionada significa traduzir um único desafio que uma empresa tem, como por exemplo, melhorar a experiência do paciente dentro do hospital. No Brasil, tanto para inovação aberta quanto direcionada, temos muitas ofertas, mas pouca maturidade para desenvolver os processos.

  1. Quais são os principais desafios?

Raphael Bueno: Hoje, se considerarmos os principais hospitais do País, cada um atua com um modelo de inovação, com ações que se conectam a empreendedores e startups ou mais orientado a pensar em soluções para o hospital. Um dos grandes desafios está no CAPEX (Capital Expenditure), ou seja, no dinheiro que os hospitais investem para ter uma estrutura inovadora. Existe um gap entre a forma como os grandes líderes de mercado fazem em relação aos demais. E isso faz com que a oferta também não seja tão estruturada. Quando olhamos para hospitais e o modelo de Saúde brasileiro, os processos de inovação são muito incipientes. Isso faz com que a oferta também não seja tão estruturada. Então, ao avaliar os projetos de empreendedorismo e inovação para Saúde, percebemos que são boas ideias; porém, com uma execução que poderia ser muito melhor.

  1. O que falta na execução dos projetos?

Raphael Bueno: Os motivadores por trás da criação de uma solução de saúde, na maior parte das vezes, são aspectos familiares. Ou seja, o empreendedor tem um pai, um tio, um avô ou um filho que precisa dessa solução. Analisando os projetos do Empreenda Saúde, cerca de um terço tem correlação com isso. As soluções partem de uma visão específica, menos focada naquilo que o mercado demanda. O mercado fala muito em melhoria do engajamento de pacientes para tratamentos, por exemplo, e quase não existem soluções para traduzir isso em ativos. Os motivadores de experiências individuais costumam ser bem-sucedidos, mas é preciso ter uma visão além disso.

As diferentes prioridades de empresas e hospitais também são desafiantes. A missão primordial de um hospitalé reduzir as chances de um paciente falecer ou ter alguma complicação. Assim, temos um trinômio, que envolve negócios, TI e o médico. Assim, se torna mais complexo inovar por conta desses diferentes players que fazem parte da cadeia.

  1. De um lado, temos startups que criam soluções para atender demandas específicas e, do outro, um setor que demanda inovações que ajudem a reduzir os custos e trazer receita. Isso pode ser considerado um gap?

Raphael Bueno: Isso pode ser percebido como um gap ou como uma oportunidade. Muito das ofertas de inovação podem ser usadas para construir novos serviços. Por exemplo: existem soluções que visam trabalhar a melhoria da informação dos prontuários usando analytics e inteligência artificial. Ao trazer uma startup dessas para dentro do hospital, é possível, a partir do esboço de um produto que utilize essa tecnologia, aproveitar aquilo que já está pronto, traduzindo para uma estratégia que maximize receita.

  1. Como garantir que a inovação não seja apenas pautada no mercado, equilibrando o ganho financeiro com as necessidades das pessoas?

Raphael Bueno: Os hospitais precisam aliar a inovação com a adoção de novas fontes de receita, além daquelas obtidas em processos assistenciais. Eles podem, por exemplo, vender capacitação, consultoria, adotar parcerias com outros hospitais ou criar laboratórios dentro de grandes empresas. Isso não requer muito investimento e criaria uma nova fonte de receita para dentro dos hospitais. Assim, diminui a necessidade de gerar renda a qualquer custo. Mas, para isso, ele precisa ter autonomia de desenhar esses novos modelos de negócios e colocar essa estratégia em prática. Os grandes hospitais estão se organizando para isso, mas o mercado como um todo ainda depende muito dessa equalização.

  1. Como tem sido a inovação na Saúde em outros países?

Raphael Bueno: Na América do Sul, o Brasil é referência em termos de sofisticação tecnológica para a Saúde. Ou seja, países como Argentina, Colômbia e Chile estão começando agora a desenvolver inovações no setor. Nos Estados Unidos, que é muito mais desenvolvido que o Brasil, a missão do hospital é trazer o paciente para dentro, ele funciona como a ponta da cadeia com a seguradora. Por exemplo: se um paciente precisa fazer um determinado tratamento, o hospital fornece três alternativas com seus respectivos valores: o pagamento avulso, o tratamento via plano de saúde ou por um pacote com outros serviços. Além disso, boa parte dos hospitais americanos tem CRM, sistemas automatizados, uma boa estrutura e fazem até mesmo propaganda na televisão. Na Europa, cada país tem um modelo, mas que estão interligados em um sistema de saúde bastante sofisticado e tecnológico. Para alcançar essa robustez que os modelos americano e europeu trazem, é preciso ter uma área de inovação e de tecnologia muito forte, além de uma cultura de projetos mais eficiente. No Brasil, o foco é fazer com que a conta de resultados do hospital se pague.  

  1. Como tem sido, nesses últimos anos, a evolução dos projetos enviados ao Prêmio?

Raphael Bueno: Quando lançamos o Prêmio Empreenda Saúde, há quatro anos, a cada 100 projetos, cerca de cinco eram qualificados. Hoje, já temos mais de 20 projetos maduros nessa mesma proporção. Isso tem muito a ver com a relevância que o setor da Saúde tomou, já que ele foi inserido na transformação digital. As empresas, atualmente, têm muitas ideias e projetos. Assim, a nossa missão, que é fazer com que isso saia do papel e evolua, tem se tornado ainda mais importante.

  1. Quais as características de um projeto bem estruturado?

Raphael Bueno: Um projeto maduro é aquele que consegue equalizar bem os três aspectos considerados fundamentais para o Prêmio Empreenda Saúde: inovação, ou seja, o quanto ele é diferente e consegue levar uma solução para um problema; a aplicabilidade, se a proposta é viável técnica e economicamente; e o impacto que essa inovação gera para a população. O empreendedor precisa fazer uma autoanálise para entender o nível de maturidade do seu projeto. Mesmo startups que não vencem o prêmio, mas têm um modelo bem estruturado, conseguem progredir depois da participação. De todos os finalistas que tivemos, cerca de 90% levaram o projeto adiante.

Essa série de reportagens do Saúde Business sobre inovação em saúde faz parte de uma ação do Prêmio Empreenda Saúde, promovida pela fundação everis, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. Inscreva-se aqui até o dia 5 de agosto.

       

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