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Qual o valor do médico?

By 6 de janeiro de 2015 Mercado
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Os principais desafios dos gestores de saúde pública (pública e suplementar) têm sido (ou deveriam ser): 1. Produzir mais saúde com o recurso existente; 2. Distribuir esses escassos recursos de forma igualitária; e 3. Reduzir o crescimento dos custos da saúde que aumentam num ritmo maior que o crescimento da nação. Para tanto, escolher e priorizar o que fazer é fundamental. Estas escolhas devem ser embasadas pelas melhores evidências técnico-científicas e respeitar os valores éticos e morais, e as preferências da sociedade.

O sistema de saúde é muito complexo. Tem diversos participantes com interesses nem sempre alinhados e lida com fenômenos biológicos onde a incerteza está sempre presente. As necessidades do cidadão são incertas, às vezes com eventos catastróficos e aleatórios, difíceis de serem economicamente arcados pelo cidadão. Por este motivo está estruturado como um seguro na forma de mutualismo de repartição simples. Utiliza um pool coletivo de recursos para satisfazer necessidades e expectativas individuais.

Há muitos anos, quando o conhecimento existente era pouco, a relação médico-paciente era determinada apenas pelo médico e seu paciente. O médico utilizava toda a sua capacidade para elucidar o motivo da queixa do paciente e propunha intervenções para reduzir o seu sofrimento. Um bom médico realizava uma anamnese detalhada e fazia um exame físico completo. O trabalho do médico consistia no uso concomitante de seu conhecimento técnico e na competência para estabelecer uma relação de confiança com o paciente, entendendo e atendendo (na medida do possível) suas preferências. O médico era remunerado pelo seu serviço, dedicação, apoio e eventual sucesso das intervenções propostas para o alívio do sofrimento do paciente.

Atualmente, desvaloriza-se a consulta médica e há o incentivo para o uso da tecnologia, muitas vezes de forma acrítica. Concomitantemente, sistemas de saúde de diversos países, preocupados com o crescimento dos custos da saúde (justificados por inúmeros fatores), tentam desesperadamente encontrar uma nova forma de remuneração do serviço público. Novas propostas de remuneração (e alguns modismos) têm infelizmente contribuído para aumentar a entropia dos sistemas de saúde; reações criativas e pouco previsíveis a estas propostas têm paradoxalmente ocasionado um aumento dos custos da saúde. Há uma ilusão da economia ao se pagar mal o médico. A desqualificação da consulta médica coloca em risco não apenas a saúde do cidadão, mas também a sustentabilidade do sistema de saúde.

O valor que a sociedade brasileira dá para seu sistema de saúde pode ser mensurado pela remuneração do médico. O SUS paga por uma consulta médica menos de R$10, e o sistema suplementar, na média, menos de R$40.

Para ter um desempenho satisfatório, os médicos precisam ser bem formados e ter uma clara e objetiva noção do seu papel no sistema de saúde; necessitam ainda de atualização constante e de condições minimamente adequadas para o trabalho. Por fim, uma remuneração justa e condizente com a responsabilidade de sua atuação é imprescindível.

Apesar da constante geração de novos conhecimentos e brutal ritmo de inovação tecnológica, o passo inicial (e crítico) no estabelecimento do raciocínio investigativo ainda é, e sempre será, a consulta médica. Desta forma, se quisermos ter um sistema de saúde melhor e que atenda minimamente as expectativas dos cidadãos precisaremos valorizá-la.

Em ambientes complexos, como o sistema de saúde, onde há assimetria de informação, conhecimento e poder, com inúmeras partes com múltiplos interesses, e uma necessidade e demanda invariavelmente maior que os recursos disponíveis, tão mais necessários serão os médicos bem qualificados para tomar decisões em nome do indivíduo ou coletivo, quanto maior for o conhecimento humano e ritmo de inovação e incorporação tecnológica.

O valor do médico para a sociedade está na sua capacidade de fazer uma consulta (e demais procedimentos) de forma qualificada, e contribuir ativamente para encontrar os caminhos para minimizar os três desafios encontrados.

Marcos Bosi Ferraz

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