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Por que médicos estão cansados da Medicina?

By 28 de dezembro de 2015 Mercado

*Matéria originalmente publicada em 31/08/2014.

Encontrei essa matéria no Wall Street Journal, em seu top 5. Decidi traduzi-la para o português, pois acredito que muitos de nós médicos nos identificamos com os problemas enfrentados pelos americanos.

Já conversei com diversos alunos de medicina, que estão desiludidos com muitas coisas já na faculdade. Meu conselho é sempre o mesmo: Trabalhar com saúde, sendo médico, enfermeiro ou qualquer outro profissional envolvido diretamente com a vida dos pacientes, é lindo.

Mas apesar de seu valor e status na sociedade, ser médico requer muita vocação. Assim como outros profissionais de saúde, enfrentamos diversos problemas no dia-a-dia que não estavam previstos na nossa formação, e muitas vezes é abafado por nossos professores.

Não vou estragar o mistério, leia a tradução abaixo do texto escrito pelo médico cardiologista Dr. Sandeep Jauhar, Diretor do programa de Insuficiência Cardíaca no Long Island Jewish Medical Center.

No final do texto comento um pouco mais.

Médicos americanos estão cada vez mais descontentes com a sua profissão, uma vez muito vangloriada, e isso é ruim para seus pacientes.

Frequentemente encontro-me inquieto na porta do meu consultório tentando concluir uma consulta com um paciente. Quando olho para a minha carreira na meia-idade, percebo que em muitas maneiras me tornei o tipo de médico que nunca pensei em ser: impaciente, indiferente, às vezes desprezível ou paternalista. Muitos dos meus colegas também lutam com a perda de seus ideais profissionais.

Poderia ser apenas uma crise de meia idade, mas acho que a minha profissão é quem está em alguma espécie de crise de meia idade. Nas últimas quatro décadas, os médicos americanos perderam o status na sociedade, de que tanto gostavam. Em meados do século 20, os médicos foram os pilares de qualquer comunidade. Se você fosse inteligente, sincero e ambicioso, o melhor aluno da sua classe, não havia nada mais nobre ou mais gratificante para aspirar tornar-se.

Hoje a medicina é apenas mais uma profissão e os médicos tornaram-se parecidos com qualquer outro profissional: inseguros, descontente e preocupado com o futuro.

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Nas pesquisas, a maioria dos médicos expressam um entusiasmo diminuído para a medicina e dizem que desencorajariam amigos ou membros da família a entrar na profissão. Em uma pesquisa de 2008 com 12 mil médicos, apenas 6% descreveram uma moral positiva. Oitenta e quatro por cento disseram que seus salários eram sempre os mesmo, ou decrescentes. A maioria disse que não teve tempo suficiente com seus pacientes por causa da papelada, e quase metade disse que planejavam reduzir o número de pacientes que iriam atender nos próximos três anos, ou deixar de praticar completamente.

Médicos americanos estão sofrendo de um mal-estar coletivo. Nos esforçamos, fizemos sacrifícios, pra quê? Para muitos de nós, a medicina tornou-se apenas um emprego.

Essa atitude não é apenas um problema dos médicos. Dói nos pacientes também.

Veja o que um médico disse no Sermo, uma comunidade on-line com mais de 270 mil médicos:

“Eu não faria isso de novo, e não tem nada a ver com o dinheiro. Recebo muito pouco respeito dos pacientes, colegas médicos e administradores, apesar de uma boa avaliação clínica, trabalho duro e compaixão pelos meus pacientes. Atender pacientes na Sala de Emergência nos dias de hoje envolve solicitar diversos exames desnecessários (todos recebem uma Tomografia!), apesar do fato de sabermos que não precisam desses exames, e estar ciente do desperdício disso tudo realmente é uma porcaria e suga o amor de que faz. Eu me sinto como um peão em um jogo lucrativo para os administradores hospitalares. Há tantos outros caminhos que poderia ter tomado para me sustentar e ter uma vida mais plena. A parte triste é que escolhemos medicina porque achamos que valia a pena e era nobre, mas pelo que eu tenho visto na minha curta carreira, é uma farsa. “

O descontentamento é alarmante, mas como chegamos a este ponto? Até certo ponto, os próprios médicos são os culpados.

Nos dias felizes de meados do século 20, a medicina americana também estava em uma idade de ouro. A expectativa de vida aumentou significativamente (de 65 anos em 1940 para 71 anos em 1970), com a ajuda de triunfos na ciência médica como a vacinação contra a poliomielite e bypass cardiopulmonar. Médicos definiam seus horários e preços. Representações populares de médicos (“Marcus Welby”, “General Hospital”) foram extremamente positivas, quase heróicas.

Médicos americanos em meados do século eram geralmente satisfeitos com suas circunstâncias. Prosperavam sob o modelo privado de fee-for-service, em que pacientes pagavam os custos do próprio bolso ou através dos incipientes programas de seguros privados, tais como Blue Cross/Blue Shield. Eles poderiam ajustar as taxas com base no poder aquisitivo do paciente e serem vistos como benfeitores. Eles não estavam subordinados à hierarquia burocrática.

Após a introdução do Medicare em 1965 como uma rede de Seguridade Social para os idosos, os salários dos médicos na verdade aumentaram à medida que mais pessoas buscavam atendimento médico. Em 1940, com o ajuste a inflação, a renda média dos médicos norte-americanos era cerca de US$ 50.000/ano. Em 1970, era cerca de US$ 250.000/ano quase seis vezes a renda média das famílias americanas.

Mas como os médicos lucravam cada vez mais, passaram a ser percebidos como fraudes do sistema. Os gastos com saúde cresceram, ano após ano, mais rápido que a economia norte-americana como um todo. Enquanto isso, relatos de desperdícios e fraudes eram comuns. Uma investigação do Congresso descobriu que, em 1974, cirurgiões realizaram 2,4 milhões de cirurgias desnecessárias, custando cerca de US$ 4 bilhões e resultando em cerca de 12.000 mortes. Em 1969, o presidente da Sociedade Médica de New Haven County alertou seus colegas “to quit strangling the goose that can lay those golden eggs”.

Se os médicos estivessem administrando mal o cuidado de seus pacientes, alguém teria de gerenciar isso para eles. A partir de 1970, as organizações de manutenção da saúde, ou planos de saúde, foram desafiadas a promover um novo tipo de prestação de cuidados da saúde, construído em torno do controle de preços e pagamentos fixos. Ao contrário do Medicare ou seguro privado, os próprios médicos seriam responsabilizados por excesso de gastos. Novos mecanismos foram introduzidos para reduzir os gastos, incluindo uma maior divisão de custos entre pacientes e seguradoras. Isso inaugurou a era dos planos de saúde.

Em 1973, menos de 15% dos médicos relataram quaisquer dúvidas se tinham feito a escolha certa de carreira. Em 1981, metade disse que não recomendaria a prática da medicina tanto quanto teriam uma década antes.

A opinião pública dos médicos mudou claramente para baixo também. Os médicos já não eram inquestionavelmente exaltados. Na televisão, os médicos eram retratados como humano, falhos ou vulneráveis ​​(“M * A * S * H *”, “St. Elsewhere”) ou profissionalmente e pessoalmente falível (“ER”).

Como a assistência gerenciada crescia (pelo início dos anos 2000, 95% dos segurados estavam em algum tipo de plano de assistência), a confiança dos médicos despencou. Em 2001, 58% dos cerca de 2.000 médicos entrevistados disseram que seu entusiasmo para a medicina tinha ido para baixo nos últimos cinco anos, e 87% disseram que a sua moral em geral, tinha diminuído durante esse tempo. Pesquisas mais recentes têm mostrado que 30% a 40% dos médicos em atividade não escolheriam entrar na profissão médica se tivessem que escolher a carreira novamente, e uma porcentagem ainda maior não incentivariam os filhos a seguir a carreira médica.

Há muitas razões para essa desilusão além do gerenciamento do cuidado. Uma consequência não intencional do progresso é que cada vez mais os médicos dizem que não têm tempo suficiente para passar com os pacientes. Os avanços médicos transformaram doenças uma vez terminais – câncer, AIDS, insuficiência cardíaca congestiva – em condições crônicas complexas que precisam ser gerenciadas, a longo prazo. Os médicos também têm mais opções de diagnóstico e tratamento, e devem oferecer cada vez mais exames e outros serviços preventivos.

Ao mesmo tempo, os salários não acompanharam o ritmo das expectativas dos médicos. Em 1970, o faturamento médio, ajustado pela inflação, de médicos clínicos gerais foi de US$ 185.000/ano. Em 2010, foi US$ 161.000/ano, apesar de uma quase duplicação do número de pacientes que os médicos veem durante o dia.

Enquanto os pacientes de hoje estão, sem dúvidas, pagando mais por cuidados médicos, cada vez menos esse dinheiro vai para quem presta cuidados. De acordo com um artigo de 2002 na revista Academic Medicine, o retorno sobre o investimento educacional para médicos de cuidados primários, ajustado por diferenças no número de horas trabalhadas, é pouco menos de US$ 6 por hora, em comparação com US$ 11 para advogados. Alguns médicos estão limitando suas práticas para pacientes que podem pagar do próprio bolso, sem o desconto das empresas de seguros.

Outra fonte de problemas da nossa profissão, incluem uma burocracia labiríntica do pagador. Médicos norte-americanos gastam quase uma hora por dia, em média, e US$83.000/ano – quatro vezes mais que seus colegas canadenses – para lidar com a papelada das empresas de seguros. Os funcionários de seus consultórios passam mais de sete horas por dia no trabalho. E não se esqueça do medo de processos judiciais; “prêmios” de má prática; e, finalmente, a perda de autonomia profissional que tem levado muitos médicos a se ver como peões em uma batalha entre as seguradoras e o governo.

O crescente descontentamento tem consequências graves para os pacientes. Um deles é a ameaça da falta de médicos, principalmente na atenção básica, que tem o menor reembolso de todas as especialidades médicas e, provavelmente, tem os profissionais mais insatisfeitos. Tente marcar um horário com o seu médico de família; em algumas partes do país, é quase impossível. O envelhecimento dos baby boomers estão começando a exigir mais cuidados, assim como o envelhecimento dos baby boomers médicos, que estão se preparando para a aposentadoria. O país vai precisar de novos médicos, especialmente os geriatras e outros médicos de atenção primária, para cuidar desses pacientes. Mas o interesse na atenção primária está mais baixo que nunca.

Talvez a desvantagem mais grave, porém, é o que os médicos infelizes fazem para os pacientes insatisfeitos. Os pacientes de hoje estão cada vez mais desencantados com um sistema médico que é muitas vezes indiferente às suas necessidades. As pessoas costumavam falar sobre “o meu médico.” Agora, em um determinado ano, os pacientes do Medicare vê, em média, dois médicos de cuidados primários diferentes e cinco especialistas que trabalham em quatro práticas distintas. Para muitos de nós, é raro encontrar um médico de família que pode lembrar de nós, muito menos que nos conheça profundidade ou com qualquer significado ou relevância.

Insensibilidade nas interações médico-paciente tornou-se quase normal. Uma vez cuidei de um paciente que desenvolveu insuficiência renal depois de receber contraste para uma tomografia computadorizada. Durante as visitas, ele me lembrou de uma conversa que tivera com seu nefrologista sobre se a sua função renal, que ia ficar melhor. “O médico disse: ‘O que você quer falar?’ “Meu paciente me disse. “Eu disse: ‘Os meus rins vão voltar?” Ele disse: “Há quanto tempo você esteve em diálise? Eu disse: ‘Há alguns dias. “E então ele pensou por um momento e disse: ‘Não, eu não acho que eles vão voltar. “”

Meu paciente começou a soluçar. “‘Não, eu não acho que eles vão voltar.” Foi o que ele disse pra mim. Só isso. “

É claro que os médicos não são os únicos profissionais que estão descontentes hoje. Muitas profissões, incluindo legislativos e professores, tornaram-se limitados por estruturas empresariais, resultando em perda de autonomia, status e respeito. Mas, como o sociólogo Paul Starr de Princeton escreveu, na maior parte do século 20, a medicina era “a exceção heróica que sustentava a tradição em declínio do profissionalismo independente.” É uma exceção cujo tempo expirou.

Como podemos reverter a desilusão que é tão difundida na profissão médica? Há muitas medidas de sucesso na medicina: a renda, é claro, mas também a criação de laços com os pacientes, fazendo a diferença em suas vidas e prestar bons cuidados enquanto é responsável por gerir recursos limitados.

O desafio de lidar com o burnout médico em um nível prático é criar novos incentivos para fomentar o seu significado na sociedade: divulgação excelência clínica, por exemplo (relatórios públicos de “taxas de mortalidade ou taxas de readmissão é um bom primeiro passo para médicos cirurgiões), ou dando recompensas pela satisfação dos pacientes (médicos no meu hospital agora recebem relatórios trimestrais que nos dizem que notas nossos pacientes nos dão, baseadas na qualidade da comunicação e da quantidade de tempo que passamos om eles).

Precisamos também de substituir o atual sistema de fee-for-service, por métodos de pagamento como pagamento por pacote, em que os médicos com um caso, recebem um pacote para dividir entre si, ou pay-for-performance, que oferece incentivos para que os bons resultados de saúde. Precisamos de sistemas que não basta recompensar o cuidado de alto volume, mas também ajudar a restaurar o humanismo na relação médico-paciente que foram enfraquecidos por considerações comerciais, diretrizes corporativas e invasões de terceiros.

Entenda mais sobre os tipos de remuneração.

Eu acredito que a maioria dos médicos ainda quererem ser como os Cavaleiros da idade de ouro da medicina. A maioria de nós entrou na medicina para ajudar as pessoas. Queremos praticar a medicina no caminho certo, mas muitas forças hoje estão nos impulsionando para fora da cadeira. Ninguém faz medicina para fazer testes desnecessários, mas esse tipo de comportamento é galopante. O sistema americano parece muitas vezes promover a desonestidade entre os Cavaleiros.

Plenitude na medicina, como em qualquer empreendimento, é o gerenciamento de esperanças. Provavelmente o grupo mais bem equipados para lidar com as mudanças que estão acabando com a profissão hoje, são os estudantes de medicina, que ainda não tiveram suas esperanças bombardeadas. Médicos de meia-idade profissional estão tendo um momento mais difícil.

No final, o problema é de resiliência. Médicos americanos precisam de uma bússola interna para navegar no cenário de mudanças da nossa profissão. Para a maioria dos médicos, este compasso começa e termina com os seus pacientes. Nas pesquisas, a maioria dos médicos – mesmo os insatisfeitos – dizem que a melhor parte do seu trabalho é cuidar de pessoas. Eu acredito que esta é a chave para lidar com as tensões da medicina contemporânea: identificar o que é importante para você, o que você acredita e o que você vai lutar. As escolas de medicina e programas de residência podem ajudar a incutir profissionalismo logo no início e avaliá-lo com freqüência ao longo dos muitos anos de treinamento. Apresentando os alunos a mentores virtuosos e opções de carreira alternativas, como o trabalho em tempo parcial, também podem ajudar a conter alguns dos casos de burnout.

O que é mais importante para mim, como médico, eu aprendi, são os momentos humanos. Medicina é sobre como cuidar de pessoas em seus estados mais vulneráveis ​​e tornando-se um pouco vulnerável no processo. Esses momentos humanos são o que os outros – advogados, banqueiros invejam em nossa profissão, e nenhuma empresa, nenhuma agência, nenhuma entidade pode tirar isso de nós. Em última análise, esta é a melhor esperança para a salvação da nossa profissão.

Não acredito que poderia escrever um texto melhor que o de Jauhar, pois não tive toda a vivencia profissional que ele, porém a degradação da medicina e outras áreas da saúde, é nítida.

Embora o texto contenha dados sobre a saúde americana, e o médico americano, acredito que esse seja um problema global. Nas oportunidades que tive de trabalhar em hospitais, principalmente no pronto-socorro, notei essas mudanças. O paciente precisa de suporte, de empatia, de compaixão, e apesar de muitos médicos acharem que não precisam disso, podem precisar até mais que o próprio paciente.

Um dos motivos que me levou a empreender, abraçar a tecnologia e entrar no mundo dos negócios na saúde foi justamente a missão de ajudar pacientes a ter melhores resultados e dar maior poder aos médicos.

A proximidade que temos com alunos de medicina, principalmente, também mostra uma desilusão que começa a afetar também nossos futuros médicos, o que é péssimo.

O texto é um chamado para os médicos e profissionais de saúde que acompanham o Empreender Saúde, e um aviso/pedido aos gestores do setor, para nunca deixarem de ver o lado humano da saúde, e buscarem sempre manter a humanização em pauta na hora de “fechar a conta”.

E você? Qual sua opinião sobre isso?

Raphael Gordilho

About Raphael Gordilho

Médico com MBA em Marketing, Raphael co-fundou a Live Healthcare, empresa responsável pelo Saúde Business Fórum, Healthcare Innovation Show e Portal SaudeBusiness.com. Em 2018 a empresa se juntou a Feira Hospitalar, no portfólio de saúde da UBM Brazil e posteriormente Informa Exhibitions. Hoje Raphael é Head of CX, onde é responsável pela experiência dos clientes em todos os canais digitais e offline.

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