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Por quê cada vez mais estudantes querem unir medicina com administração ?

Estudantes querem unir medicina com administração

Por Rebecca Knight | Do Financial Times

Na virada do século XX, Abraham Flexner, um pesquisador acadêmico da Carnegie Foundation, visitou as 155 faculdades de medicina então em funcionamento nos Estados Unidos e no Canadá, numa missão investigativa sobre a qualidade e os padrões do moderno ensino de medicina.

Em suas descobertas, Flexner caracterizou algumas escolas como “indescritivelmente sujas” e uma em particular foi descrita como “um local do país afetado pela peste”. Aproximadamente metade das escolas foram fechadas como resultado de seu relatório e o currículo que ele propôs – dois anos de aulas de ciências básicas, seguidos de dois anos de rodízios clínicos- rapidamente se transformou em norma.

Hoje, esse currículo se tornou padrão e deixa pouco espaço para outra coisa. Muitos alunos de medicina se formam sem ter ideia de como o seguro funciona, ou de como montar um consultório. Mas numa época em que questões como a alta dos custos do seguro-saúde e o envelhecimento da população dominam a agenda política, muitos estudantes estão percebendo que essa abordagem tradicional não é mas suficiente. Um número crescente deles vem somando aos seus cursos de medicina um MBA (MD/MBA).

“Para provocar o impacto que eu quero, preciso entender como os negócios funcionam”, diz Fallon Upke, aluna de MD/MBA da Faculdade de Medicina da Universidade Duke e da Fuqua School of Business da Carolina do Norte.

Fallon, presidente do centro acadêmico dos alunos da escola, almeja trabalhar em um hospital em uma função estratégica e de liderança após a graduação. “Com apenas um diploma de médico, eu poderia cuidar de pacientes e isso é uma coisa muito nobre, mas eu quero mudar a maneira como praticamos a medicina”, afirma ela.

Os programas conjuntos de MD/MBA, que combinam treinamento médico com o estudo de negócios e gerenciamento no setor de saúde, têm se multiplicado nos Estados Unidos nos últimos anos. Em 1993 havia cinco programas; hoje eles são 65, segundo números da Association of MD/MBA Programs (AMMP).

Entre as principais escolas que oferecem a graduação dupla estão Columbia, a Universidade da Pensilvânia, Harvard, Datmouth e Cornell. Recentemente, o Karolinska Institutet da Suécia se tornou a primeira faculdade da Europa a oferecer a graduação conjunta de medicina e negócios.

“O sistema de saúde não funciona num vácuo”, diz Don Melville, diretor da MBA e programas de mestrado da Desautels Faculty of Management da Universidade McGill. “Um médico que conhece sua especialidade, mas também o lado administrativo, é capaz de melhorar a eficiência e o valor do sistema.”

Maria Chandler, presidente da AMMP, diz que a tendência em direção a esses programas está sendo conduzida pelos estudantes. “Os alunos estão reconhecendo a complexidade do sistema de saúde”, diz ela. As escolas veem esses programas como “um bom mecanismo de recrutamento”, segundo acrescenta Chandler, uma pediatra com MBA e que também é professora clínica associada das faculdades de medicina e negócios da Universidade da Califórnia em Irvine. “Se você não tiver um programa de graduação dupla, isso vai limitar os tipos de estudantes interessados em sua escola.”

A maioria dos programas de MD/MBA tem duração de cinco anos e são estruturados de maneira parecida. Os alunos passam três anos completando o currículo médico exigido, seguidos de um ano na escola de negócios fazendo cursos de administração, como finanças, estratégia e marketing.

Geralmente, o último ano é passado em cursos facultativos nas duas escolas. A maioria encoraja os alunos a completar a residência médica ou outro treinamento clínico após a formatura. O objetivo é criar médicos que entendam os principais conceitos do mundo dos negócios e que sejam adeptos do trabalho em equipe, segundo diz Stefanos Zenios, professor de gerenciamento de saúde da Stanford Graduate School of Business.

“Não estamos apenas ensinando os negócios inerentes à medicina; estamos ensinando negócios em geral”, diz o professor Zenios. “Trata-se das competências profissionais da administração, como orçamento e contabilidade, mas também habilidades interpessoais, que definem como você trabalha em uma organização complexa com culturas e formações diferentes, como você promove mudanças e influencia os outros.”

Muitos estudantes afirmam que a escola de negócios proporciona um alívio positivo à faculdade de medicina, que exige muita leitura, memorização e trabalho acadêmico solitário. Isso porque elas tendem a envolver mais atividades em grupo. “Eles usam uma parte diferente do cérebro e adoram o aspecto social, experimental e colaborativo do currículo de MD/MBA. A maior parte acha matérias como finanças bastante desafiadoras”, diz o professor Zenios.

Os programas são relativamente novos, de modo que ainda não existe uma carreira bem estabelecida. Diretores de escolas afirmam que a maioria dos graduados em MD/MBA busca atuar em áreas nas quais pratiquem a medicina. Outros trabalham como administradores de grandes grupos hospitalares, no mundo acadêmico ou em organizações sem fins lucrativos; alguns se tornam empresários que desenvolvem novos diagnósticos, equipamentos e tratamentos médicos. Raramente alguém ingressa nas áreas de banco de investimentos, private equity ou consultoria.

“Os diplomados estão passando por uma economia turbulenta”, diz Kevin Schulman, professor de medicina e administração de empresas em Fuqua. “Eles entendem que algo fundamental está mudando no setor de saúde. Existe um interesse genuíno em aprender sobre os problemas e a maioria está comprometida com a carreira na medicina.” (Tradução de Mario Zamarian)

Fonte: Rebecca Knight, Valor Econômico, 16/05/2012

Fernando Cembranelli

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