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Pesquisa brasileira sobre sepse ganha destaque mundial

By 22 de novembro de 2019 Mercado

Com aumento de 500% no índice de sobrevida em camundongos, comparado com o tratamento antimicrobiano tradicional, a descoberta quebra paradigma na medicina e sugere uma nova abordagem terapêutica para infecção generalizada.

Um estudo científico brasileiro conduzido pelo Dr. Alexandre E. Nowill foi publicado em um dos principais periódicos de imunologia da American Association of Immunologists e apontou uma grande eficácia no combate à sepse, uma das doenças mais letais em hospitais de todo o mundo. Dr. Alexandre E. Nowill é mestre em Imunologia pela Universidade de Paris XI e conduziu sua pesquisa na Unicamp.

O novo tratamento biotecnológico denominado IRSh*, que possui patente internacional aprovada, combina nove antígenos amplamente conhecidos na literatura médica e, ao ser associado à ação de antibióticos, revelou resultados extremamente promissores em camundongos com sepse induzida, determinando um aumento de 500% sobrevida desses animais. 

Divididos em quatro grupos, dezenas de camundongos com sepse polimicrobiana receberam quatro diferentes tratamentos: placebo (não tratados), tratamento com antibiótico em monoterapia, o novo produto IRSh* sozinho, e IRSh* associado a antibiótico.

Os resultados confirmaram a eficácia da imunizaçãoIRSh* e antibióticos combinados aumentaram a sobrevida em um modelo experimental de sepse polimicrobiana em cinco vezes, quando comparado com o uso tradicional isolado de antibióticos: de 9,7% com uso de antibióticos para 51,7% com a associação IRSh* + antibióticos.

Segundo Dr. Nowill, os antimicrobianos, agem bloqueando e inibindo a viabilidade, proliferação e ação dos germes, favorecendo sua eliminação pelo sistema imunológico e, desta forma, deslocam o equilíbrio da relação de “briga” do patógeno versus hospedeiro de forma positiva a favor do organismo. Este deslocamento positivo ocorre quando a resposta do sistema imunológico é correta e eficiente para combater e eliminar o invasor.

Assim, qualquer cura de uma infecção, quando se usa um antibiótico, é sempre devida a uma ação conjunta com o sistema imunológico, pois ambas apresentam a mesma função de combater o microrganismo invasor e ocorrem simultaneamente no organismo.

É importante ressaltar que não é toda infecção que causa a sepse. Na verdade, a maioria das invasões de micro-organismos no organismo é repelida com relativa facilidade pelo sistema imunológico. A infecção e a inflamação generalizadas só costumam acontecer quando há algo errado com a rede de defesa do corpo.

Por isso, normalmente, a sepse acomete quem já está hospitalizado, sobretudo nas Unidades de Terapia Intensiva. Nesses pacientes com infecção grave generalizada, o sistema imunológico reage com uma resposta inadequada e hiperinflamatória, que pode agravar ainda mais a própria infecção. Diante deste quadro hiperinflamatório, o uso isolado do antimicrobiano age somente como um deslocador do equilíbrio biológico, sem alterar a resposta imunológica inadequada, tendo poucas chances de sucesso.

O Dr. Nowill explica que, como a resposta inadequada e exagerada do sistema imunológico é o ponto chave, o vilão desse processo, fica claro que uma possível solução para esta doença é trocar ou substituir ou modular, de forma mais sutil, a resposta imunológica inadequada e patológica, por uma eficiente e curadora, conjuntamente com o uso combinado de antimicrobianos eficientes.

Assim, para poder entender o que acontece com o mecanismo de defesa do  organismo e o que permitiu visualizar essa possibilidade de trocar, ou substituir ou modular, é necessário explicar como funciona essa resposta imunológica. 

A resposta imunológica

Inicialmente, o organismo reage com uma resposta imune primária, que se desenvolve quando o indivíduo entra em contato com o agente agressor pela primeira vez, localizando-o com uma resposta hiperinflamatória local, que induz à produção de anticorpos e desenvolvendo células denominadas “memória” e, posteriormente, à resposta secundária, que ocorre quando o indivíduo entra em contato pela segunda vez. Neste contato, a produção de anticorpos será muito mais rápida e eficiente, sem hiperinflamação, pois as células de “memória” vão reconhecer o agente agressor e produzir anticorpos que vão combater esses agentes, como ocorre com o uso de vacinas.

Quando essas respostas ocorrem simultaneamente, a resposta secundária é a dominante, pois a célula memória reprograma o sistema imunológico para ser pouco inflamatório e mais eficiente, inibindo a resposta primária.

De forma resumida, a memória imunológica é a capacidade do sistema imunitário de reconhecer, de forma rápida e específica, um agente agressor ou antígeno que o corpo encontrou previamente e iniciar a correspondente resposta imunológica de defesa. Esse sistema desempenha o papel de armazenar, durante vários anos ou pelo resto da vida, a capacidade de identificar partículas infecciosas, com os quais o organismo já esteve em contato.

A questão levantada pelo Dr. Alexandre E. Nowill foi: como resolver este enigma aparentemente insolúvel de trocar ou substituir ou modular imediatamente uma resposta primária por uma secundária em tempo real de doença?

Nesse sentido, a hipótese de trabalho do investigador foi de desenvolver um novo medicamento biotecnológico denominado IRSh*, com inúmeras e múltiplas partículas de vários antígenos de outros microrganismos já conhecidos, criando e modulando uma nova imagem molecular do microrganismo invasor e sobrepondo-se a ele, durante a doença. 

“Agora com uma nova identidade ou roupagem, o invasor induz imediatamente no sistema imunológico uma resposta correta secundária (memória), que é capaz de eliminar o invasor, sem alterar as principais funções orgânicas, retirando, do patógeno agressor, o papel de comandante da resposta do corpo, explica o especialista. Em vez do corpo se adaptar ao invasor, o agente biotecnológico adapta o agressor ao que o corpo já conhece e já tem imunidade para a nova imagem formada.  

Nesse cenário, em vez de apenas um ou alguns germes, a proposta faz com que o organismo reconheça múltiplo e diversos agressores para os quais ele já tem memória. Esta ativação da memória poderia controlar e modular a atividade do sistema imunológico, tornando-o mais eficiente, sem provocar danos orgânicos e fornecer um novo contexto antiinflamatório em direção à cura dessa infecção generalizada, agindo em conjunto com os antibióticos tradicionais.

A comissão editorial do The Journal of Immunology sugeriu fortemente que esse novo modelo de tratamento associado pode mudar a maneira como se combate a doença. 

Os próximos passos contemplam o estudo em porcos e, posteriormente, a aprovação dos órgãos regulatórios para utilização em estudos clínicos humanos. 

A sepse no Brasil e no mundo

De acordo com o Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS), a prevalência da doença em UTIs brasileiras é de 30%, ou seja, um em cada três pacientes nessas unidades é acometido por sepse. Estima-se que a sepse atinge de 30 milhões de pessoas por ano no mundo, sendo aproximadamente 600 mil casos só no Brasil. 

Além da alta mortalidade de 50 a 60% dos casos, outro ponto que chama a atenção é o alto custo hospitalar, que exige equipamentos sofisticados, medicamentos caros e muito trabalho da equipe médica, estimando gastos de cerca de R$ 17,34 bilhões no tratamento. 

Ela é causada quando uma infecção por micro-organismos, como bactérias, vírus, fungos e outros agentes, não é adequadamente controlada e desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica no organismo. Isso leva ao desenvolvimento de lesões nos tecidos do corpo e pode resultar na morte do paciente por falência múltipla dos órgãos, ou seja, o dano é tão grande que eles simplesmente deixam de funcionar. 

Apesar de toda essa gravidade, o conhecimento do público leigo a respeito da sepse é baixo. Um estudo realizado pelo ILAS revelou que apenas 14% dos brasileiros conhecem a doença.  

Para o Dr. Luciano Azevedo, presidente do ILAS, a nova possibilidade terapêutica deve ser encarada com otimismo. “Nas últimas décadas, tivemos inúmeras terapias promissoras para sepse, que infelizmente não confirmaram esse benefício em estudos clínicos de grande porte. Nesse sentido, a nova proposta terapêutica do Dr. Alexandre Nowill já deu o primeiro passo e sugere amplas possibilidades futuras.”

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