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Os invisíveis digitais do Século XXI

By 10 de julho de 2020 Destaques, Mercado

A pandemia pode resgatar os esquecidos

A Covid-19 fez emergir uma turba de terráqueos, vivos, em geral desassistidos, que convivem no mesmo ecossistema planetário que nós, mas que não existem em qualquer radar demográfico, digital ou existencial. Já sabíamos que eles estavam ‘por aí’, mas não tínhamos a menor noção que ainda representam quase 2 bilhões da população mundial (mais de 20%). A organização Humanitarian OpenStreetMap (conhecida como a “Wikipedia da Cartografia”) declarou a BBC em julho último que “existem cerca de dois bilhões de pessoas no mundo que não aparecem nos mapas”. No catálogo demográfico mais completo e preciso do mundo, existem franjas fora e dentro das cidades onde habitam milhões sem que qualquer entidade ou Estado tenha qualquer cadastramento. São os invisíveis do mundo. Boa parte habita na África rural, mas nas grandes cidades eles continuam presentes, ‘invisíveis’ e descadastrados. O Banco Mundial explica que 80% do crescimento nas áreas urbanas não é planejado, e 70% de seus novos residentes habitam em favelas, sendo notórios candidatos a passarem despercebidos pelos censos, controles sanitários e não serem ‘atingidos” por qualquer base de dados minimamente atualizada. O geógrafo escocês Paul Georgie, fundador da empresa de mapeamento GeoGeo, explica que na sociedade digital de hoje não estar no mapa é ser invisível. “Mesmo tendo uma casa, se o Estado não pode localizá-lo e ajudar no seu planejamento, ele não existe”, explica ele. Esse ‘nano-indivíduo’, que possivelmente não é um consumidor ou cidadão-oficializado, fica totalmente abandonado nas crises epidêmicas. Cidades como Londres e Nova York, por exemplo, reúnem voluntários para analisar mapas e bancos de dados tentando preencher os espaços-online-vazios, objetivando identificar quem são os invisíveis dessas metrópoles.

O Brasil, uma das doze maiores economias do mundo, descobriu com a Covid-19 que mais de 46 milhões de indivíduos não aparecem em qualquer ‘lista sociodigital’ do Governo. Não são os desaparecidos, mas os invisíveis que coabitam fora do bioma digital. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios de 2019, nas classes D e E o percentual de desconectados alcança 59%. São os ‘impercebíveis’ do Cadastro Único, os desempregados, autônomos e obreiros informais que buscam renda ‘todos os malditos dias para chegar ao dia seguinte’. Estão imersos na excludência digital: não tem endereço, nem celular, são desbancarizados, não tem CPF, muitos são analfabetos e a maioria fica isolada nos guetos urbanos ou esquecidos no habitat rural. A pandemia está levando muitos deles aos postos de emergência, mas, quase sempre, não aparecem nas estatísticas epidemiológicas, não são contribuintes, não elegem ninguém e não são eleitos pela burocracia assistencial do Estado. Vivem como sobreviventes, talvez com apoio de alguma ONG, ou nos albergues das secretarias municipais, que se interessam pelo seu cadastro para benefícios federais.

A pandemia forçou o Estado (não só o brasileiro, mas de vários outros países) a se armar de uma lupa para cadastrar os invisíveis no Programa de Renda Básica Emergencial (lei 13982/2020). “É preciso agir: a crise chegou após cinco anos de aumento da pobreza. No fim de 2019, a desigualdade de renda do trabalho parou de subir, mas deve voltar a crescer”, explica Marcelo Neri, diretor da FGV Social. “O auxílio é bem desenhado, mas o desafio é chegar a todos”, completa Pedro Herculano de Souza, do Ipea, que estuda a desigualdade de renda. Centenas ou milhares vão para as filas da Caixa Econômica à espera dos R$ 600, mas boa parte deles não possuem qualquer documento, ficando fora do radar federal. Possivelmente não contarão sequer com uma certidão de óbito, sendo que muitos passam a vida inteira a margem dos registros oficiais. “São pessoas que já nascem sem serem vistas pelo Estado e seguem a sua vida dessa forma”, adiciona Neri (segundo o IBGE, cerca de 3 milhões de brasileiros não têm registro de nascimento). Mesmo dentro do consagrado Agronegócio nacional os invisíveis estão presentes. Segundo o Incra, um contingente expressivo da população rural é classificado em dois grupos: os assentados e os colonos. No primeiro caso, 273 mil famílias não têm qualquer titulação definitiva de terra. No segundo, os colonos, das 300 mil propriedades aptas a serem regularizadas até 2018, menos de 25 mil receberam seus títulos. O próprio Incra explica que não há dados precisos, podendo os números ser tragicamente maiores.

Enquanto a sociedade digital do Século XXI espera pelo 5G, a maioria dos excluídos digitais se movem pela vida como zumbis, como párias sem rumo, vagando em busca do ‘reconhecimento cadastral’. Sem dúvida os avanços tecno-demográficos das últimas três décadas fizeram emergir bilhões de conectados, transformando os invisíveis em grupos minoritários. Quando a pandemia chegou, veio o paradoxo: os invisíveis passaram a ter alguma chance de ‘virar estatística’, de serem lembrados e de alguma se registrarem emergencialmente para receber o auxílio. Quantos emergiram desse submundo digital devido ao coronavirus? É cedo para saber e mais cedo ainda para confiar nos números oficiais.

Não é diferente com outra chaga da civilização contemporânea: os migrantes e refugiados globais. Neste século, eles passaram a ser a expressão loquaz da desigualdade. Na Grécia, por exemplo, só em 2020 milhares de imigrantes foram mantidos em quarentena nos campos superlotados erigidos pelo Estado. São obrigados a lá permanecerem enquanto, por outro lado, o governo grego reabre as portas aos turistas. Na Turquia, centenas de milhares de refugiados perambulam pelas ruas de Istambul sem qualquer registro formal ou oficial. São os invisíveis internacionais. Algumas nações estão preocupadas em sair da pandemia com um novo cenário de ‘visibilidade inventarial’, onde a tecnologia digital tem um papel supremo. Até maio de 2020, a Índia era a única nação democrática do mundo a tornar obrigatório o uso de seu Aplicativo de Rastreamento da Covid-19. Mais de 100 milhões de usuários foram ‘instados’ pelo Governo a fazer download do App. A maior democracia do planeta impôs uma regra simples: se você não o instalar, poderá perder o emprego, ser multado ou até preso. Embora gerando críticas ferozes o objetivo é nobre: classificar os invisíveis e trazê-los para a zona de assistência do Estado. O aplicativo indiano é bem mais ambicioso do que as dezenas de soluções de georreferenciamento sanitário espalhadas pelo mundo: ele rastreia os eventos, localiza os contaminados, alerta o entorno, oferece acesso a telemedicina e abre uma janela para a farmácia eletrônica e os serviços de diagnóstico. Além disso, cada usuário recebe um color-coded badge que o insere na base de dados do governo (um acordo com as operadoras indianas de telecom abriu o acesso sem custos). O país pode não primar pela transparência (não possui ainda uma ‘LGPD’), mas está solidamente imbuído em olhar para seus 1,3 bilhões de habitantes e descobrir quem são os invisíveis.

Os excluídos digitais não estão só nos países emergentes ou nas nações africanas esquecidas pela civilização. Estão, por exemplo, no Reino Unido, onde segundo a Good Things Foundation existem 1,7 milhões de famílias sem qualquer acesso à Internet, não podendo pagar por ele. São britânicos vulneráveis ao coronavirus que ficam trancados em suas casas, sem meios de conexão digital com o mundo, sem informações precisas de Saúde e sem acesso aos serviços governamentais de sustentação econômica. O mesmo ocorre nos EUA e em boa parte da Europa. Estamos todos chorosos, irritados com a quarentena, cansados de esperar, reclamando das limitações pandêmicas e apavorados com o patógeno invisível. Mas nunca é tarde para lembrar dos outros milhões de ‘invisíveis’: aqueles que foram excluídos do cadastramento, da conectividade e das vistas do Estado, batalhando todos os dias para escapar da fome e da Covid-19. A inclusão digital não cura uma doença, mas, de maneira misericordiosa, pode reduzir a invisibilidade no mundo.

Sobre o autor

Guilherme S. Hummel é Coordenador Científico – HIMSS@Hospitalar Forum

EMI – Head Mentor

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