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O lado B: investidor no Vale do Silicio

Por 30 de janeiro de 2019 Mercado

Após o encontro com a Omada Health, conversamos com o seu primeiro investidor-anjo, Shahram Seyedin-Noor, para entender como funciona o processo de investimento no Vale do Silício, as características que tornam uma startup atrativa, suas perspectivas e formação de portfólio.

Em sua primeira rodada, no ano de 2011, a Omada levantou US$ 20k com o investimento-anjo de Shahram. Em seguida, a empresa participou de rodadas de US$ 800k, US$ 4M, e US$ 23M até 2014. US$ 48M em 2015, e finalmente US$ 50M em sua rodada mais recente, há 2 anos, liderada pela Cigna, uma das maiores operadoras americanas, em movimento estratégico no qual se tornou sócia da Omada. “É muito provável que a Omada participe de uma rodada de US$ 100M nos próximos 12 meses, visto a sua crescente tração de mercado”, diz Shahram.

Neste período, a empresa recebeu 6 rodadas de investimento, totalizando US$ 126M, de 21 investidores diferentes. Hoje o valuation da Omada é mantido em sigilo, mas Shahram conta que, quando investiu, no início da empresa, seu valor estava abaixo dos 5M, e agora está na casa das centenas de milhões. Diferentemente de outros modelos de investimento, no Vale do Silício, não há compartilhamento de lucros ou divisão de dividendos entre os investidores até que a empresa se torne pública, na Nasdaq, por exemplo, possibilitando a venda das ações. Outra forma do investidor recuperar o dinheiro investido é quando a startup é comprada por uma empresa maior. O intuito dos investidores é o crescimento das empresas e alcance de uma maior fatia de mercado, normalmente não é um retorno rápido.

Sharam é proprietário do fundo Civilization Ventures, iniciado em 2016. Formado em direito por Harvard, o iraniano iniciou a carreira, na área de investimento de risco, no Wilson Sonsini, escritório que representa empresas como a Apple, Google e a Omada. Essa experiência lhe rendeu um vasto conhecimento sobre o ecossistema das startups e de inovação. Após quatro anos, ele migrou para o Goldman Sachs, reconhecido banco de investimentos. E, agora, em sua jornada de empreendedor/investidor, ele tem o objetivo de unir o mundo por meio da tecnologia. Especificamente através de investimentos em saúde, como biologia sintética, engenharia celular, impressão 3D de biológicos e sequenciamento genético. O foco são healthtechs com tecnologias disruptivas.

Em sua primeira empresa, NextBio, Shahram ainda trabalhou para levantar o montante de US$ 16M antes de ser adquirida pela Illumina. A NextBio é uma empresa de software que promove uma plataforma para estudo e compartilhamento de conhecimento na área de análise genômica.

“Eu entrei nessa empresa com três pessoas, e conseguimos quase 20 milhões de dólares, com uma receita anual de 10 milhões. Eu contratei mais de 50 pessoas, aprendi a negociar, a construir uma empresa de fato. Quando saí, havia cerca de 70 pessoas no time. Vendemos para a Illumina, maior empresa de testes genéticos do mundo. Quase todos os testes vistos por aí são rodados na plataforma deles. A Illumina é o equivalente à Intel ou Nvidia, eles criam chips que fazem o processamento genético.” ele conta.

O fundo da Civilization Ventures apoia startups que visam a transformação do setor de saúde, de um modelo reativo e genérico, para um modelo preventivo e de medicina personalizada. “Vocês já ouviram falar da empresa 23andMe? É uma empresa de serviços de testes genéticos, que permite que você conheça os seus ancestrais ou riscos de doenças. Eles já fizeram testes em mais de 10M de americanos”, questiona o investidor logo antes de revelar os seus planos: Shahram pretende fazer algo semelhante no Brasil e na Índia. “Testes genéticos de baixo custo e com um painel proprietário. Só no Brasil são 200 milhões de pessoas para o mercado!”

Ainda em testes genéticos, participam do portfólio startups como a Billion To One, que cria soluções para grávidas checarem o teste genético dos fetos entre 90% e 99% de confiança, já que 10% do DNA do bebê já circula em seu sangue. “É uma revolução que está acontecendo no mundo todo. Os testes genéticos tiveram um avanço muito mais rápido do que os semicondutores. A lei de Moore diz que a cada 18 meses a capacidade de um chip dobra e seu preço cai pela metade. Estamos vendo isso de forma mais acelerada com os testes genéticos: o primeiro genoma humano foi sequenciado em 2000, e custou entre 1 e 3 milhões de dólares aproximadamente. Atualmente eu posso fazer o sequenciamento de qualquer um por mil dólares, é uma redução de 1 milhão de vezes em 20 anos. É por isso que investimos no setor”

Depois da NextBio, ele iniciou outra empresa, baseada na Rockefeller, uma das principais universidades de Nova Iorque. A Rgenix atua no desenvolvimento, em estágios clínicos, de medicamentos para evitar a progressão do câncer, através de uma plataforma de descoberta que pode ser aplicada praticamente para qualquer tipo de tumor. “Nós levantamos mais de US$ 80M para essa empresa, e atualmente temos dois medicamentos que estão em estudos clínicos em humanos nos Estados Unidos.”

Shahram conta que geralmente faz investimentos em estágios iniciais, e que salvo casos isolados como o progressivo investimento na Omada, atuando majoritariamente em investimento semente. “Quando eu faço investimento em uma empresa no estágio inicial eu me concentro em três pontos: na tecnologia, na equipe e no mercado. Eu quero ter certeza de que o mercado seja bem grande ou que esteja crescendo muito rápido. Além disso, também quero ter certeza de que os fundadores tenham um histórico de tecnologia, com background em biologia, medicina ou inteligência artificial.”, e completa, “O produto também tem que ter uma elevada barreira de entrada para evitar a competição e ser disruptiva o suficiente para se defender. Buscamos empresas que tenham uma vantagem ‘injusta’ para investir, na combinação destes três pontos que citei”, diz ele.

Os investimentos nessa fase giram em torno de 500 mil dólares por 10% da empresa, que tipicamente é avaliada em cinco milhões de dólares. “A questão é que temos que participar das outras rodadas de investimento dessa empresa para mantermos a posse de 10% e não sermos diluídos”, revela. No ano passado, o fundo investiu em cerca de 21 empresas. “Tivemos sorte de que uma das nossas empresas, Rocket Pharma, fez a sua oferta pública cerca de 10 meses após a entrada em nosso portfólio. A empresa passou de US$ 1B em valor, e a Civilization vendeu todas as suas ações, retornando o lucro aos investidores do fundo.

Para fechar a conversa, Shahram diz que não gosta de ser simplesmente um investidor, e que por seu passado empreendedor, trabalha forte no relacionamento entre as startups e as pessoas do mercado, como um intermediador. E prevê: “Acreditamos que ao longo dos próximos 20 anos, as maiores empresas que existem hoje, Apple, Facebook, Google, Microsoft, serão da área da saúde. Empresas baseadas em biologia. Assim como o século passado foi do Silício, esse será o da biologia”

Fernanda Fortuna

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