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O frágil ágil da Saúde

By 22 de janeiro de 2020 Colunas, Destaques, Mercado

A história sempre se repete, mas às vezes ela traz algumas novidades.

Quem não se lembra?

Nos anos 90, aqui no Brasil, os Bancos levaram um susto daqueles capazes de colocar toda uma indústria do avesso.

E fizeram algo que agora parece mover as iniciativas de uma grande parcela das empresas de Saúde.

É que com o fim da receita advinda dos depósitos a vista (leia-se overnight), os Bancos precisaram reinventar seu modelo de negócio e criar um novo ponto de equilíbrio para fazer a conta parar de pé.

Assim duas coisas começaram a acontecer – não de forma lenta e gradual, mas com a agilidade de um leopardo que corre para não se tornar a presa do dia.

Em primeiro lugar, era urgente que se aprendesse a ganhar dinheiro de outra forma, no caso cobrando tarifas, e que para tanto se criasse valor real para o cliente. Em segundo lugar, era necessário que se repensasse a estrutura de custos numa era marcada pela reengenharia de processos, automação e downsizing.

A verdade é que até aquele momento os Bancos não cobravam tarifas capazes de sustentar sua operação. Eles não estavam tão preocupados assim em inovar ou satisfazer seus usuários. Apenas entregar produtos regulamentados e desenhados pelo Governo, como a velha e boa caderneta de poupança (qualquer semelhança com as ofertas das empresas de saúde não é mera coincidência).

Na medida em que a água subiu para a linha de cintura foi necessário que se cobrasse pelos serviços e que – para tanto – eles tivessem valor. E que esse valor, obviamente, fosse percebido pelo cliente.

A partir daí começou a evaporar uma época em que quase tudo em Banco era commodity: sem cara, sem alma, sem personalidade…E nascia uma fase de expansão dos departamentos de produtos e marketing.

Quem viveu tudo aquilo de forma intensa e a partir de dentro (como eu) agora percebe claras semelhanças com nosso setor.

Uma grande diferença talvez seja o fato de que nesse momento precisamos pensar em formas de transformar tudo de forma mais ágil, fluida, digital etc enquanto discutimos como viabilizar o sistema de saúde.

A transformação digital nas empresas de saúde não visa apenas salvá-las de uma disrupção, que as aguarda em alguma curva do século XXI. Ela também deve salvá-las de um modelo assistencial falido que já vinha dando errado desde o século XX.

E esse certamente é um fator novo que torna esse déjà vu em algo verdadeiramente estimulante.

Hoje temos uma força extra que não existia naquela época que é um ecossistema de inovação formado, essencialmente, por startups; coisa que no final dos anos 90 / começo dos anos 2000 simplesmente não existia no Brasil.

Dentre outras coisas isso significa que o dever de casa não será feito apenas com base em conhecimentos e ferramentas de grandes fornecedores acostumados a lidar com grandes sistemas legados.

Naquele momento o desafio era voltado especialmente para o back office das instituições, onde jaziam dados aprisionados em sistemas voltados unicamente para cumprir uma missão de controle.

Não havia ainda a orientação para o cliente e foi necessário que se contratassem grandes consultorias e fornecedores gigantes para projetos não menos gigantescos, como a formação de cadastros únicos de clientes e CRM.

Mas com a emergência da criação de novos produtos, novas formas de cobrança, novas formas de remuneração etc é essencial que tudo isso se encaixe num novo tipo de jornada do cliente, que é totalmente nova e de certa forma imprevisível.

E é essa uma oportunidade e tanto para as grandes empresas de saúde, quanto para as startups e scale-ups, em especial as healthtechs.

Trata-se de uma coincidência histórica e temos todos a obrigação profissional de tirar o máximo proveito disso. E é fundamental que toda cadeia tenha consciência da importância do seu papel nesse momento ao mesmo tempo tão frágil e – felizmente – ágil do setor.

No futuro, esse será reconhecido como o ponto de virada para a criação de uma indústria de sucesso, assim como aconteceu com os Bancos brasileiros.

E é por isso que a transformação digital na saúde é algo muito mais grave, impactante e gratificante do que eventualmente tudo que vem acontecendo em outras indústrias.

Istvan Camargo

About Istvan Camargo

Istvan Camargo vem inovando na Saúde há mais de 10 anos. Atualmente é Head de Inovação do Grupo Sabin, mentor de startups no Supera Parque Tecnológico e membro de comitês de investimento de fundos de venture capital. Antes disso foi Chief Innovation Officer do GNDI, membro do comitê científico da Health 2.0 Latam e fundador de uma healthcare social network com a qual realizou projetos inovadores para laboratórios farmacêuticos, centros de pesquisa e programas de apoio a pacientes. Istvan é articulista pioneiro de transformação digital na saúde, escrevendo desde 2011 para os principais blogues e portais do país e já realizou +30 palestras sobre o tema em conferências como Social Media Week, Campus Party e Health 2.0 LATAM.