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Inflação real na área da saúde

By 30 de junho de 2020 Colunas, Mercado

Descompasso entre Inflação Oficial e Inflação Real na Área da Saúde deverá ser bem maior no pós pandemia

Fonte: Geografia Econômica da Saúde no Brasil

(*) todos os gráficos são partes integrantes do estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil – Edição 2020

O gráfico ilustra a proporção da inflação da saúde medida na saúde suplementar em 2019.

Existem vários métodos para medir inflação:

·         O mais famoso é o que tabula os preços dos itens mais comuns consumidos pela população … este método tem muitos vieses;

·         O maior é o fato de medir o preço que o vendedor declara e/ou expõe, que é diferente do preço que o comprador paga;

·         O fato do produto estar com o preço fixado em 10 não significa que a venda será feita por 10. Pode haver desconto, e (maior dos vieses) o produto pode nem ser vendido – o vendedor quer vender por aquele preço, mas ninguém paga por aquele produto com aquele preço.

Quando se faz uma média de preço declarado de venda:

·         Entra na conta o preço mais baixo do produto que foi muito vendido e o mais alto do produto que encalhou;

·         Ele não considera a quantidade de produtos vendidos em cada preço;

·         Em função disso a margem de erro em relação ao que realmente ocorre é grande.

No caso da saúde a indução ao erro é ainda maior porque o governo tabela preços de medicamentos, um insumo importante que na maioria absoluta das vezes não é comprado pelo preço tabelado, seja do fornecedor para o serviço de saúde, seja do serviço de saúde para a fonte pagadora.

No mercado geral as instituições não têm como tabular o preço realmente pago pelo comprador, mas na saúde temos, tanto na área pública como na privada … e na privada é muito mais simples, diga-se de passagem:

·         Temos as despesas assistenciais das operadoras de planos de saúde que representam o que elas realmente gastaram na assistência aos seus beneficiários;

·         E temos o número de beneficiários das operadoras;

·         Então podemos calcular o ticket médio por beneficiário, e avaliar a variação de um ano para outro.

O gráfico ilustra esta relação:

·         Inflação Real é tudo que as operadoras gastaram para tratar seus beneficiários, dividido pelo número de beneficiários;

·         Inflação AM é isolando apenas despesas e beneficiários da assistência médica;

·         E Inflação AO é isolando apenas despesas e beneficiários da assistência odontológica.

Avaliando a evolução anual observamos:

·         Que a inflação estava mantendo tendência de redução antes do COVID-19;

·         O índice de inflação geral da saúde geralmente é maior que a inflação oficial, dos índices divulgados pelos governos, instituições especializadas e entidades de classe;

·         E em anos em que existe queda de beneficiários a inflação sobe porque existe a tendência de abrir mão do plano de saúde por parte de quem necessita menos dele, ou seja, sobra uma parcela proporcionalmente maior de quem consume os serviços.

É um indicador forte (fantástico) porque independente das tabelas de preços envolvidas e os milhares de indexadores de cada contrato entre fonte pagadora e serviço de saúde, que definem preços totalmente diferentes caso a caso, é o que o comprador realmente pagou ao vendedor !!!

O indicador fica melhor se o cálculo:

·         For feito por região … as variações são significativas dependendo das diferenças regionais, que são enormes no Brasil;

·         For feito por modalidade de operadora – o ticket médio por modalidade varia porque as fontes pagadoras não estão no mercado com o mesmo objetivo social, o que faz com que operadoras de alguns tipos se proponham a pagar mais pelos serviços que outras.

Mesmo no cálculo geral, sem estratificação, os vieses são muito pequenos quando comparados aos vieses do IGPM, IPC, IPCA & Cia. Ltda.

Os gráficos demonstram que o viés ao mesclar todas as modalidades em assistência médica é muito pequeno:

·         O ticket médio assistencial das filantropias é muito menor, mas a quantidade de beneficiários é insignificante, e não afeta a análise;

·         O ticket médio das seguradoras é maior que o das cooperativas e medicinas de grupo, mas a quantidade de beneficiários é menor – ponderando ficam muito próximos.

Analisando a evolução:

·         A tendência é bem próxima da inflação geral da saúde;

·         Mas os indicadores são maiores;

·         Em 2019, por exemplo, enquanto a inflação geral girou em torno de 6,2 %, especificamente em relação à assistência médica ficou em torno de 8,4 % !

No caso da assistência odontológica:

·         A diferença entre o ticket médio das cooperativas odontológicas e das odontologias de grupos também se compensam em relação ao volume de beneficiários;

·         A compensação não é tão equilibrada como no caso da assistência médica, mas o viés também pode ser considerado pequeno na análise.

E o que é mais interessante:

·         É nítido que a inflação no segmento da odontologia é muito menor;

·         A explicação é sentida por todos: a expansão da adesão da população aos planos de saúde odontológicos … um segmento que esteve em plena expansão nos últimos anos e “ainda têm jogo”, uma vez que o paradigma ainda está sendo quebrado em relação ao custo x benefício da adesão;

·         As fontes pagadoras pagam muito menos pelos serviços odontológicos do que pagam os particulares, e o reflexo na inflação do segmento é impressionante;

·         Algumas regiões do Brasil, já há alguns anos, experimentam deflação;

·         E se observarmos os índices oficiais destas regiões, apontam inflação: fazendo coleta de preços verifica-se aumento, mas na prática a quantidade de pessoas que estão pagando menos pelo serviço é muito maior, ou seja, a inflação real é muito diferente da oficial.

Bem diferente dos índices oficiais de inflação, o da saúde representa:

·         A variação dos preços dos produtos que sempre existiram;

·         A incorporação de novos produtos;

·         A variação de consumo por mudanças de protocolos e/ou perfil epidemiológico;

·         E a expansão ou retração da adesão da população aos planos de saúde.

Estas particularidades é que encantam os que estudam a economia da saúde … um capítulo à parte da economia geral … não existe outro segmento tão dinâmico:

·         Não é raro ver economistas que se perdem ao comentar a economia da saúde;

·         Passamos a ver isso diariamente desde o início da pandemia no Brasil;

·         Nos seus métodos tradicionais não conseguirão medir nada próximo da inflação real no pós pandemia … o desabastecimento está fazendo serviços pagarem muito mais caro do que o preço tabelado / declarado;

·         Máscaras, anestésicos, insumos para equipamentos … tudo sendo vendido muito mais caro do que era … longe do preço tabelado;

·         E isso é repassado para o comprador … a tabulação de preços, principalmente a dos preços tabelados, e uma catástrofe estatística … a evolução do ticket médio vai demonstrar isso.

Ao encerrar na última semana os cursos da jornada da gestão em saúde que tinham como foco custos, rentabilidade e precificação, tivemos a oportunidade discutir uma metodologia simples para cálculo do ticket médio de faturamento, do ticket médio de custos e do ticket médio de rentabilidade de empresas, unidades de negócios e produtos … não perdi de agradecer às dezenas de participantes e oportunidade de auxiliar os gestores de alguma forma a darem atenção a estes indicadores fundamentais para a sustentabilidade das empresas … discutir o tema com gestores do segmento é muito gratificante: eles conhecem o segmento da saúde !!!

Enio Salu

About Enio Salu

Histórico Acadêmico·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo·  Pós Graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas·  Professor em Turmas de Pós Graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós Graduação em Administração Hospitalar da Fundação UnimedHistórico Profissional·  CEO da Escepti Consultoria e Treinamento·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas·  Associado NCMA – National Contract Management Association·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Própria·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado