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Emergência na saúde: Pronto Atendimento em alta e Pronto Socorro em baixa

By 27 de abril de 2020 Colunas, Mercado

Entendendo por que o Governo pediu para a população procurar UPAs antes de hospitais na maior parte do país durante a Crise COVID-19

Fonte: Geografia Econômica da Saúde no Brasil

Convém iniciar comentando sobre a terminologia que envolve este tema, sob o ponto de vista da gestão em saúde, que as vezes conflita com o ponto de vista assistencial … reforçando, sob o ponto de vista da gestão da saúde.

Emergência em gestão segue o significado da palavra, ou seja, algo que emerge … surge … não tem a ver com a criticidade do evento … o evento pode ser crítico ou não.

Urgência também segue o significado da palavra, ou seja, algo que urge … não tolera atrasos … é uma situação em que existe um dano real, ou um dano em potencial, e se nada for feito pode agravar ou materializar o dano.

Por isso as unidades de saúde que tratam pacientes que necessitam de tratamento não eletivo, ou seja, não programado … que emergem na estrutura da saúde … fazem parte de um grupo chamado Emergência e não Urgência, porque o fato do paciente “emergir” no sistema de saúde sem agendamento não significa necessariamente que seu caso seja urgente … que o seu dano ou potencial de dano tenha que ser tratado imediatamente.

Aliás, pela cultura brasileira, infelizmente a maioria absoluta dos casos em que uma pessoa procura uma unidade de emergência, não havia necessidade disso:

·         Ou ele poderia agendar uma consulta, mas teve receio do sintoma, ou achou mais cômodo fazer isso em um horário mais conveniente;

·         Ou, mais infelizmente ainda, ele procura um serviço de emergência para “pegar um atestado” para justificar ausência no seu trabalho !

Isso posto, e com esta terminologia, os números demonstram que os sistemas de saúde público e privados vão tentando ajustar a rede da forma mais eficiente, para minimizar as consequências desta cultura da população brasileira.

(*) Todos os gráficos são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil – Edição 2020

É importante enfatizar que os números aqui demonstrados se referem às unidades independentes de emergência … não contabilizam serviços de emergência integrados em hospitais e outros tipos de unidades de saúde.

O Gráfico ilustra a evolução das unidades de emergência no Brasil entre 2017 e 2019:

·         Em 2019 foram contabilizadas 1.947 unidades de saúde deste grupo;

·         Um crescimento de 9,6 % em apenas 2 anos, já demonstra um esforço dos sistemas de saúde público e privado em tentar atender o paciente em unidades de menor complexidade e custo, impedindo sua chegada desnecessária em unidades de maior complexidade e custo, especialmente os hospitais.

Estas quase 2 mil unidades estão distribuídas percentualmente conforme ilustra o gráfico:

·         No Brasil, já há algum tempo, as unidades não têm preservado a relação adequada entre o seu nome e o serviço que prestam para a população;

·         Tem Pronto Socorro que na verdade é Pronto Atendimento, e vice-versa;

·         Não existe um estudo que possa dar base para afirmar a incidência desta “anomalia nominal”;

·         Na minha experiência como consultor em mais de 200 unidades de saúde públicas e privadas, afirmo que “a maioria não absoluta” dos que tive a oportunidade de conhecer preserva a relação nome x serviço prestado.

Pronto-socorro, na definição do MS:

·         Unidade que presta assistência à pacientes com ou sem risco de vida, cujos agravos à saúde necessitam de atendimento imediato;

·         Funciona  24 horas por dia;

·         Está associado, segundo a terminologia, aos casos urgentes;

·         Presta o atendimento necessário para, por exemplo, acidentes de trânsito, agressões por arma de fogo / branca, hemorragias, fraturas, picadas de animais, dificuldades respiratórias agudas …

·         São atendimentos que requerem estruturas similares às hospitalares.

Pronto-atendimento:

·         São unidades não necessariamente integradas a hospitais;

·         Na definição funcionam em horários pré-determinados, não necessariamente 24 horas por dia e todos os dias por semana;

·         Está associado, pela terminologia, aos casos emergentes, não necessariamente urgentes;

·         Ou seja, presta atendimento em casos agudos de menor gravidade.

Observando as definições, todos nós lembramos que conhecemos várias destas unidades que têm um nome … que não tem relação adequada ao serviço que presta.

Os sistemas de saúde estão incrementando os Pronto-atendimentos:

·         Em 2019 contabilizaram 1.381 unidades, 70,9 % do total das unidades de emergência;

·         E em 2 anos elas cresceram 16,1 % … algo impressionante para qualquer segmento da economia mundial !

A lógica dos sistemas público e privado de saúde é que quanto mais unidades PA existirem, menor a chance do paciente utilizar desnecessariamente estruturas hospitalares:

·         Além de resultar em custo maior, ainda ocupa a vaga de um paciente que realmente necessita dela;

·         O que conspira contra esta métrica é o fato de que parte dos hospitais privados que atuam na saúde suplementar não consegue demanda de internação por referência, ou seja, os pacientes não vêm a eles espontaneamente ou por indicação de outro serviço. Então necessitam captar os pacientes em prontos-socorros e prontos-atendimentos, que se tornam uma porta de entrada importante para sua sustentabilidade financeira. Poderiam fazer isso através de unidade isoladas, mas por razões mercadológicas e “outras razões” acabam preferindo inserir a unidade de emergência na sua estrutura hospitalar principal.

Já Prontos-socorros Gerais:

·         Estão praticamente estagnados … sem crescimento em volume nos últimos anos;

·         Contabilizam algo em torno de 450 unidades em todo o Brasil;

·         Sob o ponto de vista de gestão, considerando a cultura brasileira de procurar unidades de emergência sem necessidade, é algo desejado: houve uma “onda” de abertura de PS no passado, quando a diferenciação em relação ao PA não existia, que criou uma rede maior que a demanda necessária … a prática da gestão está observando que a estrutura existente não necessita expansão.

Os Prontos-socorros especializados também estão em queda:

·         Houve uma grande “onda” no passado para criação de PS especializado em ortopedia, pediatria, obstetrícia … e muitos foram criados;

·         Mas na prática existe um fato ingovernável pelos sistemas de saúde públicos e privados: em caso de urgência o paciente tende a procurar o PS mais próximo … pressionado e com medo, e é fácil entender, ele não vai ao serviço mais adequado ao seu caso … quer a interação com o serviço o mais rapidamente possível;

·         Isso faz com que a unidade que poderia funcionar com muito mais eficiência, acabe tendo que dar atenção a muitos casos que não está preparado para atender adequadamente … por isso a gestão atualmente tende a evitar a criação de novos e, se possível, desativar os existentes.

Este gráfico ilustra a distribuição das unidades deste grupo pelo Brasil:

·         Apesar de tudo que foi citado acima, ainda há muito o que fazer;

·         Observe que existe UF com apenas 1 unidade deste tipo. Isso significa que os pacientes nesta UF acabam sendo atendidos em unidades de emergência integradas nos hospitais existentes com maior frequência … por tudo que foi exposto: algo indesejável sob o ponto de vista da gestão da saúde.

Este gráfico ilustra a quantidade de unidades Per Capita:

·         Ele ameniza um pouco a desproporção do gráfico anterior;

·         Quando analisada a oferta proporcionalmente á população existente, observamos UFs que no gráfico anterior “são bem claras”, aqui estarem “bem coloridas”, ou seja, apesar da baixa quantidade, está proporcionalmente mais adequada à demanda da população.

Como conclusão, o Brasil está se adequando aos volumes necessários de unidades de emergência segundo as melhores práticas de gestão. Apesar de muita coisa ainda necessitar ser feita, temos uma rede de emergência com uma das mais adequadas capilaridades do mundo.

E não por caso, durante a crise COVID-19:

·         O governo pode instruir a população para, no caso de sentir sintomas, procurar primeiro uma UPA e não ir diretamente a um hospital … nas cidades em que existem UPAs;

·         Pelo fato das UPAs serem unidades independentes, foram fundamentais tanto para o controle da disseminação do vírus de fora para dentro e de dentro para fora das unidades hospitalares, como para manter o foco das unidades de alta complexidade nos casos realmente graves !

Enio Salu

About Enio Salu

Histórico Acadêmico·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo·  Pós Graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas·  Professor em Turmas de Pós Graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós Graduação em Administração Hospitalar da Fundação UnimedHistórico Profissional·  CEO da Escepti Consultoria e Treinamento·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas·  Associado NCMA – National Contract Management Association·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Própria·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado