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Desospitalização: "Estamos desbravando um novo território"

By 2 de outubro de 2018 Mercado

Na semana passada fomos conhecer a Humana Magna, empresa de desospitalização focada em reabilitação, longa permanência e finitude. Conversamos com Arthur Hutzler, CEO da instituição, e Liv Soban, Head de marketing e relacionamento.
“O Brasil envelheceu antes de enriquecer. Hoje temos cerca de 13% de idosos no país, e até 2050, um em cada três brasileiros será idoso. Com o aumento da longevidade, há uma mudança no perfil epidemiológico, mais semelhante com o de países amadurecidos, deixando para trás moléstias infecciosas tropicais. Hoje estamos evoluindo para uma população grande de doentes crônicos, que em algum momento entram em uma demanda médico-hospitalar. Ao mesmo tempo, ainda existem diversos eventos agudos nessa população que necessitam de transição” diz Arthur.
A ausência de um provedor que cuidasse do gap deixado entre os cuidados da fase aguda e a volta à rotina dos pacientes fez com que a Trigger, casa de investimentos de equity que trabalha exclusivamente com saúde, aportasse o investimento de R$ 100 milhões no segmento de desospitalização. A estratégia segue tendência mundial: a melhor integração no cuidado do paciente, visando a sua centricidade.
Desospitalizar significa transferir de um hospital geral o paciente com alguma demanda de cuidado para instituições em que se continue a atenção objetivando a sua melhoria, dentro da sua nova condição. A empresa aposta em um sistema low tech high touch, o que não significa em modo algum processos ultrapassados, e sim um sistema em que o fator humano prevalece. Inclusive, a empresa está no caminho para se tornar um hospital sem papel.
O modelo escolhido para a operação é do tipo all in, com toda a estrutura e serviço de atenção transdisciplinar inclusos na diária. A unidade conta com 78 leitos equipados, hotelaria, refeitório, solarium, sala de eventos e recreação, e disponibilidade para visitas 24/7, o que resgata o convívio social, cultural e familiar para os pacientes que utilizam o serviço. Além disso, há equipamentos de suporte à vida, rede de gases medicinais, centro de reabilitação, farmácia, exames laboratoriais e de imagem, e um quadro de cerca de 10 especialistas, majoritariamente focados em reabilitação e terapias ocupacionais, que transitam entre os usuários diariamente.
“Estamos em um business de eficiência, do melhor cuidado e redução de custos. Só usamos o que é necessário e adequado, não há motivadores para desperdícios. As tabelas de remuneração usuais de mercado não são aplicadas aqui” explica Arthur.
Já adequados na transição de pagamentos por serviço para pagamentos por valor, a Humana tem o bundle como remuneração frente às operadoras. Segundo Arthur, praticamente 100% dos pagamentos ocorrem por um pacote fechado por perfil, salvo pouquíssimas exceções. “Fazemos gestão de saúde, e não gestão de custos. Temos metas muito claras e indicadores de evolução. Caso as mesmas sejam cumpridas, há um bônus de performance, caso contrário, há um ônus na remuneração”
Segundo o CEO, os números da saúde mostram que 99% das ocorrências na saúde suplementar, como consultas, exames e insumos, por exemplo, representam pouco mais de 40% dos gastos. E o restante do custo é de responsabilidade de 1% das ocorrências como internações de longa permanência. “Se o paciente precisa de cuidados hospitalares, mas não em fase aguda, não faz sentido ficar em um hospital, com alta tecnologia e diárias altas. As contas não fecham.”
Com a diária entre um terço e um sexto do valor cobrado em hospitais gerais, a Humana visa desfecho clínico. Apesar de estarem com cerca de 40% da sua capacidade, ainda acima da capacidade prevista, Liv garante que não há interesse em reter pacientes que não necessitem mais da empresa. “Não somos regulados pela ANS, não é possível um paciente se internar. A operadora decide se o paciente vem para a Humana, então o hospital tem que liberar e a família aceitar. Ainda é um modelo que necessita de cultura, as pessoas ainda têm o mindset de que aqui existe uma estrutura pior do que a de um hospital, e na verdade é melhor para pacientes nos casos de reabilitação ou finitude”
O desafio é quebrar o paradigma com a operadora, de que neste modelo haverá custos continuados; com o hospital, de que deste modo ele poderá aproveitar o leito de forma mais rentável; e com a família, de que no modelo de desospitalização o paciente ainda estará assistido, só que de forma mais segura, contra por exemplo, infecções hospitalares.
Segundo Liv, a Humana está desbravando um novo território. No resto do mundo, as interações são mais curtas e as instituições de cuidados continuados são mais estruturadas. “A ideia é assistir mais, e manipular menos. O paciente muitas vezes fica doente no mesmo quarto, olhando para a mesma parede por semanas. A Humana tem a empatia de se colocar na realidade do outro e tentar entender podemos fazer independente da condição do paciente. Fazemos o que for possível para que ele tenha mais qualidade de vida, o cuidado é o básico.”
Arthur conta que, apesar da recente operação de 5 meses, a Humana já colhe os primeiros resultados dos contratos com as operadoras. Segundo ele, há benefícios em relação a redução na taxa de reinternação, e que o custo da desconfiança sobre o modelo está conseguindo ser superada pela boa performance da empresa.
Nos próximos quatro anos, há previsão da abertura de outros 1000 em todo o Brasil, assumindo a liderança do segmento no Brasil. “É um modelo novo no Brasil, que vai crescer muito devagar, apesar da aderência cada vez maior das operadoras”, finaliza Arthur.

Fernanda Fortuna

About Fernanda Fortuna

Engenheira Biomédica pela Universidade Federal do ABC, Fernanda passou um ano na Escócia estudando Engenharia Mecânica. Após retornar ao Brasil, emprendeu na área de robótica e reabilitação. Apaixonada por tecnologia e saúde, hoje atua na curadoria de conteúdo para os eventos Saúde Business Fórum, Hospitalar e Healthcare Innovation Show.

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