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Desinformação: o maior desafio da indústria da cannabis medicinal

A principal consequência do tabu em torno de alguns assuntos é o aumento da desinformação. E o caso da cannabis não foge à regra. A planta mais conhecida mundo afora pelo seu uso recreativo, nunca esteve tão em alta. Evidências científicas crescentes apontam inúmeros benefícios para a melhoria de sintomas em diferentes doenças. Entre elas, estão esclerose múltipla, distúrbios do sono, quadros de dor crônica e alguns tipos de epilepsia, além do enjoo e náusea provocados pela quimioterapia. Em alguns casos, os medicamentos derivados da cannabis são os únicos capazes de beneficiar pacientes que não encontraram alívio com outros tratamentos.

Porém, existem inúmeros obstáculos que impedem o avanço significativo do País neste campo. Um deles é relacionado à própria comunidade médica, que ainda resiste às constatações de pesquisas e estudos desenvolvidos em alguns dos países mais avançados internacionalmente. Só para dar um parâmetro, o Brasil tem 450 mil médicos e apenas 1,1 mil prescrevem medicamentos à base de cannabis. Um número insignificante se comparado aos quatro milhões de brasileiros que podem ser beneficiados por esse tratamento. Além disso, o debate político deixa clara a falta de entendimento quanto à ciência envolvida nessa indústria.

No entanto, as comprovações terapêuticas da cannabis, aos poucos, ajudam a diminuir o estigma em torno da planta. Nesse processo, mães e pais ao redor do mundo tiveram e têm papel preponderante. Uma das principais forças para a aprovação dos medicamentos à base de canabinoides nos Estados Unidos, veio de famílias de crianças epilépticas. Ao descobrir os poderes da planta no controle de convulsões, até então incontroláveis, pressionaram o governo. No Brasil, muitas das organizações autorizadas a importar canabinoides, surgiram da mesma forma.

Ou seja, o cenário está mudando, mas ainda há muito a ser percorrido. O debate ganhou força no País, nos últimos meses, com a entrada em vigor da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 327/2019 da Anvisa, que libera a comercialização de produtos à base de cannabis nas farmácias brasileiras.

A autorização sanitária para produtos à base de cannabis no País foi criada de modo a disponibilizar, de forma mais rápida, produtos seguros e de qualidade contendo derivados de cannabis. A medida, porém, não contemplou o plantio da cannabis para uso medicinal no Brasil. Em outras palavras, significa que todo o produto desenvolvido ou comercializado aqui depende de extratos importados de outro país, onde a plantação da cannabis é legalizada.

Esse aspecto traz vários problemas. O maior deles reside na falta de democratização do acesso aos medicamentos, pois os valores continuarão sendo uma barreira intransponível para a grande maioria da sociedade. Adicionalmente, temos um grande prejuízo para a ciência e a medicina, considerando que qualquer iniciativa em termos de pesquisa também sofrerá com a dificuldade de acesso à planta. A análise sob outro ponto de vista também aponta que essa restrição faz o País perder grande oportunidade de gerar mais empregos, tanto na produção da cannabis quanto no desenvolvimento de todo o potencial de mercado, a partir da construção de um ecossistema completo em torno do uso medicinal da cannabis.

Apesar dessas dificuldades, a regulamentação é positiva e esperada pelo mercado. Agora teremos que passar por uma série de adaptações para entrar no novo percurso. Para o Brasil ter sucesso nessa evolução tão necessária é imprescindível avançar em pontos determinantes como capacitação de médicos, investimento em projetos científicos e conscientização da sociedade sobre os benefícios terapêuticos da cannabis.

O uso medicinal da cannabis é impacta diretamente a saúde pública. Nesse sentido, devem prevalecer análises sob a ótica da ciência e da medicina, com o olhar humanizado que a área da saúde demanda. A partir desse movimento, surgirão dados e informações que chegar a toda a sociedade. Consequentemente, não há espaço para preconceitos e mitos. A hora de quebrar os tabus é agora.

Sobre o autor

Marcelo Sarro é CEO do Centro de Excelência Canabinoide (CEC)

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