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Brasileiros lançam health tech com farmacogenética para prescrições de canabinóides

By 6 de outubro de 2020 Mercado

Chamada de Proprium, o objetivo é tornar prescrições e tratamentos mais eficazes e evitar efeitos adversos em pacientes também com relação a medicamentos e suplementos

Mais de 50% de todos os medicamentos são incorretamente prescritos, dispensados e vendidos, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). Além disso, mais da metade das pessoas que os utilizam o fazem de forma também incorreta, prejudicando o resultado do tratamento.

Mirando em aumentar a assertividade das prescrições, dois brasileiros – Fernando Gabas e Fabrício Pamplona – criaram a Proprium, uma health tech que trata em sua primeira fase no Brasil do desenvolvimento de uma série de testes farmacogenéticos que possibilitarão tratamentos mais eficazes, por isso mais seguros, de medicamentos, suplementos e canabinóides em uma plataforma que vai integrar pacientes e profissionais de saúde.

A iniciativa, que já nasce com sedes físicas no Brasil, Portugal e EUA, vai impactar principalmente tratamentos de especialidades como oncologia, psiquiatria, pediatria, neurologia e geriatria.

Os testes utilizam painéis genéticos que identificam variantes genéticas naturais (polimorfismos) associadas à metabolização de substâncias dentro do organismo, e sua predisposição aos efeitos adversos decorrentes da exposição.

Os resultados irão fornecer orientações desde composições de medicamentos e de produtos adequadas ou não adequadas ao perfil do indivíduo, informações sobre dosagem, até a melhor estratégia de administração. Outros painéis foram desenhados para abastecer especialistas sobre as características individuais de pacientes na absorção de vitaminas e nutrientes, além de limitações da biologia.

“As prescrições precisam ser realizadas com fundamentação, e não na tentativa e erro, como era comum quando não dispúnhamos das ferramentas de farmacogenética. Acreditamos que no futuro a coleta de informações genéticas será considerada uma prática corriqueira na prescrição de tratamentos, se tornando inclusive obrigatória pelos conselhos de saúde”, destaca o farmacologista e diretor científico da startup, Fabrício Pamplona.

Além dos testes, a plataforma vai funcionar como uma big data de sequenciamento genético, que poderá ser consultada pelos profissionais da saúde mediante autorização do paciente. O objetivo é estimular outros profissionais, que venham atender esse paciente, a consultar os resultados dos testes para prescrições cada vez mais integradas das especialidades. Pela tecnologia ainda será possível que especialistas e pacientes descrevam a evolução do tratamento e eventuais efeitos colaterais. A plataforma vai permitir também a telemedicina, com pagamentos das consultas pelo mesmo canal. A utilização (da plataforma) será gratuita.

Avanço na medicina canabinóide

Pamplona, conhecido por suas pesquisas sobre o sistema endocanabinoide e, recentemente, pela participação no processo de regulamentação da Cannabis medicinal no Brasil, explica que o projeto da Proprium é audacioso, sobretudo quanto ao uso da cannabis para fins medicinais e a assertividade desses tratamentos para doenças neurológicas e psiquiátricas.

A iniciativa é crucial visto o avanço dos debates acerca do tema. No Brasil, em agosto, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) determinou que a União inclua medicamentos à base de canabidiol e tetraidrocanabinol, já registrados pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), na lista de fármacos ofertados pelo SUS. A mesma Anvisa, já tinha autorizado em março desse ano, a comercialização de produtos com os princípios ativos da planta em farmácias e drogarias do país. Já o Congresso discute um projeto de lei que legaliza o cultivo da Cannabis no Brasil para uso medicinal.

Chamada de MyCannabis Code, a testagem vai permitir a prescrição segura de canabinóides, considerando as informações genéticas individuais de cada paciente. Pelo teste, são identificadas as taxas de metabolismo dos princípios ativos da planta — CBD e THC — permitindo que o médico realize o ajuste da dosagem.

Pacientes que necessitam de produtos à base de cannabis para doenças como Esclerose Múltipla e Epilepsia Refratária (cerca de 600 mil crianças brasileiras sofrem de epilepsia que é refratária a terapias tradicionais) podem se beneficiar do teste. A genotipagem também vai ajudar os pacientes que precisam de THC em casos de dores crônicas, que é uma parcela significativa da população (37%), além de milhares de brasileiros que utilizam cannabis medicinal diariamente.

O farmacologista destaca que um algoritmo proprietário desenvolvido pela startup permitirá uma leitura ainda mais aprofundada de como as substâncias atuam não apenas no sistema hepático, mas também no excretor, englobando desde a absorção e a manutenção no sistema nervoso central até a eliminação pelo organismo. O teste apontará ainda a suscetibilidade dos pacientes aos potenciais efeitos adversos mais comuns associados à cannabis, que são o prejuízo cognitivo, a ansiedade, a psicose e prejuízos funcionais à vida cotidiana decorrente do uso crônico.

Pedro Pierro, neurocirurgião que já conseguiu reduzir em 50% o número de procedimentos cirúrgicos em crianças, adultos e idosos após a prescrição de canabinoides, descreve as mudanças realizadas na terapia de um paciente de 70 anos, portador do Mal de Parkinson, após a realização do teste farmacológico. “O resultado apontou uma metabolização alta do THC, que ocasionava agitação e dificuldade para dormir nesse paciente, razão pela qual havíamos interrompido o tratamento. Com base no teste, aumentamos os níveis de THC, crucial para o tratamento dele e, em escala maior, de CBD para inibir aqueles efeitos adversos. Ia demorar anos para chegar a essa formulação ideal. Isso dará mais segurança aos pacientes na decisão de iniciar o tratamento com cannabis, inclusive para os mais receosos. É um avanço para a medicina canabinóide”, relata.

Identificando reações a fármacos

A equipe brasileira também disponibilizará na plataforma o chamado MyMed Code, que visa identificar reações a 104 fármacos, presentes nos principais medicamentos comercializados em todo o mundo. O resultado do perfil genético é associado a uma predisposição maior ou menor dos compostos a falha terapêutica e/ou risco de efeitos adversos. Dessa forma, eles são categorizados por nível de confiança, correspondentes às áreas terapêuticas avaliadas: psiquiatria, gestão de dor, oncologia, diabetes e cardiovascular.

Outro teste, MyNutri Code, é baseado em nutrigenética, que pesquisa a associação entre genes e a resposta de cada indivíduo à ingestão de nutrientes, e poderá fornecer informações valiosas, principalmente aos profissionais de saúde não especializados em genética, sobre estruturas corporais, dieta e horas de sono necessárias de acordo com perfil genético. Um outro teste, MyFitness Code, única testagem genética do segmento fitness, de acordo com Pamplona, estuda variantes associadas a oito áreas do potencial atlético, como aptidão física, predisposição a lesões e capacidade de recuperação.

O rigor no desenvolvimento dos testes mereceu um investimento de mais de 200 mil euros para estudos por uma equipe de profissionais PhD – entre médicos, geneticistas, farmacologistas e biólogos computacionais – dedicados integralmente à startup brasileira. O grupo se divide entre os escritórios de Lisboa, Miami e São Paulo.

Os preços dos testes variam entre R$ 1.600 a R$ 2.600, podendo ser parcelado para maior acessibilidade. Vale dizer que cada teste vale para toda a vida, uma vez que os dados genéticos permanecerão os mesmos. Os testes podem ser adquiridos na plataforma. Os mesmos chegarão em um kit para a realização do procedimento de coleta de células epiteliais, feito com uma raspagem leve na parte interna da bochecha com o swab (cotonete longo). O procedimento pode acontecer em casa ou no consultório. O resultado chega em duas semanas com um relatório detalhado do paciente disponibilizado na plataforma. É recomendada uma análise em conjunto com o médico de confiança.

De acordo com Fernando Gabas, que assume a presidência do projeto, sobretudo na gestão das negociações para o lançamento da startup também na Alemanha, Romênia, Israel, Inglaterra e em países da América Latina, a meta é que cerca de cinco mil testes sejam utilizados por brasileiros até o final desse ano, com um fluxo aproximado de dois mil médicos e pacientes na plataforma.

Gabas também costura parcerias com entidades de saúde para oferecer tecnologia para o avanço de terapias com base nos avanços genéticos. “A farmacogenética é uma realidade. Queremos ampliar o debate de sua eficácia para que iniciativas como essa sejam cada vez mais acessíveis a uma parcela maior da população”, destaca.

Mais informações no site da Proprium.

Bio criadores

Fernando Gabas (presidente) – paulistano, começou a carreira de empresário aos 23 anos de idade, quando conquistou a licença da divisão de fitness da marca Reebok e a presidiu de 2001 a 2009. Após vender a empresa, mudou-se para os EUA e foi sócio e CEO da divisão internacional da Wise Up até 2013. Atualmente, lidera no Brasil, Europa e EUA projetos relacionados a educação e saúde.

Fabricio Pamplona (diretor científico) – farmacologista, doutor em Psicofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pós-doutorado em Neurociência. Atuou como pesquisador do Instituto Max Planck de Psiquiatria na Alemanha, e é conhecido pela comunidade científica internacional devido ao desenvolvimento de pesquisas sobre o sistema endocanabinoide e, recentemente, pela participação no processo de regulamentação da Cannabis medicinal no Brasil.

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