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2020 será eternamente conhecido como “o ano que nunca existiu”. Será que para todos?

By 29 de junho de 2020 Mercado

Se, há um ano, falássemos que as empresas aéreas e a indústria do turismo estariam à míngua e que álcool gel, máscaras cirúrgicas e respiradores estariam sendo vendidos mais do que água no deserto, você acreditaria? No primeiro trimestre de 2010, ou seja, há 10 anos, a Gol comemorava junto com a TAM o fato de ser a empresa do setor aéreo brasileiro que, no exercício anterior, mais havia valorizado seus papéis na Bovespa. Hoje, a companhia está junto com a Azul no ranking das 20 companhias aéreas que mais perderam valor de mercado no mundo em 2020. Segundo um levantamento feito, caiu de US$ 3,245 bilhões no final do ano passou para US$ 400 e poucos milhões no começo de 2020.

Por outro lado, empresas do setor da saúde têm comemorado a melhoria dos seus resultados de investimentos nas bolsas de valores ao redor do mundo. Assim como as farmacêuticas americanas, que têm envidado seus maiores esforços na descoberta de vacinas, têm experimentado variações muito positivas em seus papéis negociados nas bolsas de valores, os laboratórios brasileiros que investiram em testes de COVID-19 e as redes de farmácia, que são companhias abertas, também têm visto seus valores de mercado subirem no começo deste ano.

Este fenômeno, que por si só se explica por questões óbvias, esbarra em temas ainda pouco discutidos ao redor do mundo e que precisam da atenção das autoridades, especialmente do Brasil. Nosso saturado sistema de saúde agoniza diariamente. Os poucos e dedicados profissionais da área de saúde e tecnologia médica enfrentam um sistema absolutamente precário, que está abissalmente distante das grandes potências que hoje ditam os rumos da medicina e das tecnicidades da indústria de healthcare no mundo.

Como podemos nos aproximar dos grandes players desta indústria se oferecemos pouquíssimas condições de infraestrutura e um sistema de saúde fadado à falência? Somos um mercado de quase 210 milhões de consumidores que, principalmente após esta pandemia, tem aprendido a duras penas que o investimento em estádios de futebol, grande discussão durante 2014, deveria ter sido orientado por outra bússola. Percebemos quantas vidas foram, estão sendo, e ainda serão perdidas por ineficiência de um sistema e por falta de investimento e tecnologia na área da saúde. Incentivos fiscais e tributários poderiam atrair mais as grandes empresas de healthcare e hoje poderíamos estar sofrendo menos com isso tudo. Porém, olhar para trás não resolve nada agora.

O Brasil precisa atrair não só investimentos para pesquisas nestas áreas, não só empresas para atuarem fortemente neste setor, mas pessoas. O conhecimento é transmitido pelas pessoas, pelos talentos que podem transformar o país e pode nos colocar em uma posição de destaque entre os países que crescem no segmento. Os nossos legisladores precisam pensar em positivar normas que regulamentem o setor e, especialmente, que atraiam os talentos e as pessoas que farão a diferença em uma pandemia ou outras questões de saúde. Para isso, precisamos nos preparar agora.

No mundo da imigração, por exemplo, há países que elegem determinadas profissões que, pelo interesse nacional, possam ter algum favorecimento no processo de obtenção de autorizações de residência e de trabalho. Isso permite que os governantes de cada país determinem, de acordo com o momento que estão passando, como será a política imigratória e como ela poderá colaborar para a atração de talentos que sejam importantes para a nação. Não se defende aqui a desordem ou inexistência de regras ou o privilégio dos estrangeiros em relação aos brasileiros. Ao contrário, o que se entende é que um sistema imigratório, coerente e coordenado, poderá ser um instrumento adicional para passarmos por um momento de dificuldade como este e outros que poderão vir.

Enfim, a movimentação de profissionais de qualquer área entre países é uma das formas mais eficientes de transferência de conhecimento. Na área da saúde, esse fluxo acontece constantemente, seja por congressos ou cursos, seja pelo simples exercício da profissão, o que ficou bem explícito no socorro que países afetados pela pandemia estão recebendo de outras nações ou, ainda, pela comercialização de equipamentos, produtos e medicamentos. O Brasil precisa estar atento a esse movimento e garantir, dos pontos de vista econômico e jurídico, que possamos receber e transmitir conhecimento em relação ao que há de mais avançado no cuidado de vidas humanas.

Sobre o autor

Gustavo Kanashiro é diretor da Fragomen no Brasil

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