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Mais longe do paciente, maior o lucro – a culpa não é do médico nem do hospital

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No início eram as trevas: o nada – Deus criou o paciente e o médico, e assim foi o primeiro dia. No segundo dia os hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, consultórios, e nos dias seguintes foram sendo criados os fabricantes de medicamentos, materiais, equipamentos, as escolas que além de médicos formam outros profissionais de saúde … no sétimo dia os planos de saúde e os capitalistas investidores na área da saúde, e então os governos para regular o sistema.

Este ponto de vista guia qualquer consultoria especializada em negócios no segmento da saúde, e obrigatoriamente deve ser primeiro slide de qualquer aula na saúde: no centro de qualquer sistema de saúde está o médico cuidando do paciente, em um serviço de saúde, evidentemente sendo remunerados pelo serviço, mas cuidando do paciente. Ao redor estão instituições que exploram (no bom sentido – que fique bem claro) esta atividade para obter lucro. Qualquer iniciativa de negócios que não privilegia a relação do médico e dos demais profissionais assistenciais com o paciente fracassa … é só uma questão de tempo.

Quem está cuidando realmente do paciente é o médico, em um serviço de saúde, assessorado diretamente por outros profissionais multidisciplinares (enfermagem, nutrição fisio, etc…). Todos os outros contribuem para que isso aconteça, mas fundamentalmente estão em busca de lucro. Todos que não são médicos (ou outros profissionais assistenciais) cuidando de pacientes (inclusive eu escrevendo neste blog, e você lendo isso) estão no segmento explorando a atividade deles !!!

Falamos exaustivamente que “não há pecado” em estar no segmento em busca de lucro, porque não há atividade humana que possa se sustentar sem lucro – não existe uma única atividade humana que se sustente sem lucro … pode procurar a partir da página 3 da bíblia e verá que mesmo o velho testamento está baseado na ideia de que o justo vai “prosperar” e ter mais bens que os outros: será “recompensado por Deus” com uma vida farta.

Mas veja que interessante: olhando qualquer pesquisa, ou fazendo a que você quiser, se listar as 100 maiores empresas do mundo não vai encontrar um hospital – se listar os 100 homens mais ricos do mundo não vai encontrar nenhum médico: na verdade até vai encontrar um médico, mas não porque pratica a medicina, e sim porque é o dono de uma das maiores redes de fast food do mundo, ou seja, cuidando de paciente não estaria na lista, mas vendendo sanduiche sim !!!

Na lista das maiores empresas do mundo você vai encontrar fabricantes de insumos em saúde (vários), e pode até encontrar uma grande operadora de planos de saúde disfarçada (dependendo da lista), mas hospitais não.

Se pegar a lista das maiores empresas do mundo, ou do Brasil, verá que quanto mais a empresa está próxima do atendimento direto do paciente, mais longe está do topo do ranking !!

Porque quanto mais longe do paciente, maior a rentabilidade da empresa … esta é a regra que os números demonstram para quem quiser ver.

Sem falsa modéstia, o grupo de amigos e professores próximos do qual faço parte, previu que a saúde suplementar fosse chegar neste momento de crise há alguns anos, e esperávamos algo novo para mudar o rumo, mas o que aconteceu, o que está acontecendo, e o que vai acontecer continua sendo a mesma coisa: operadoras de planos de saúde culpam o médico e o hospital pelo encarecimento do sistema, e utilizando sua influência política e econômica conseguiram aprovar planos com carência, planos populares, agora planos com franquia e prepare-se, vem coisa muito pior para o beneficiário. São remédios para dor de cabeça – o câncer, que provoca a dor de cabeça, continua sem tratamento e o paciente vai morrer … sem dor, mas vai morrer do mesmo jeito !

A lógica da solução da questão da sustentabilidade está sendo conduzida por empresas que descobriram há muito tempo que colocar a culpa no médico e no hospital pela inviabilidade de um sistema de financiamento baseado no lucro é fácil, porque eles não têm poder econômico e influência para reagir à afirmação. Isso sempre foi o erro, continua sendo o erro, e nada de novo “no front” indica que vai mudar.

As medicinas de grupo partiram verticalização total da rede – algumas dizem que não, porque “pega mal” dizer que sim. Seguradoras começam a realizar programas de prevenção da saúde. O que estão fazendo: driblando na direção da própria meta: não estão indo na direção do gol adversário: estamos vendo estas empresas comemorando ao fazer um gol contra, por incrível que pareça …

… que fique bem claro: a medicina de grupo concentrar 100 % do seu atendimento em rede própria é uma questão de sobrevivência – se não fizer isso neste sistema de financiamento vai morrer – mas isso nada tem a ver com a melhoria da assistência do paciente, muito pelo contrário !

A seguradora promover planos de assistência para reduzir a utilização da rede é uma questão de sobrevivência – se não fizer isso vai morrer – vai deixar de fazer seguro saúde e concentrar sua energia em seguro de carro, de vida, etc … mas isso nada tem a ver com a melhoria da assistência do paciente.

Escutei um dirigente de uma operadora de planos de saúde dizendo que têm um programa interno que impede que o beneficiário procure um especialista antes de passar por um clínico geral. O que ele diz faz todo o sentido em determinadas situações, mas não para todas. A matemática é simples: se você torceu o pé e for na consulta com o ortopedista, o custo é 1 – se tiver que passar por um clínico primeiro para passar pelo ortopedista depois, o custo é 2. Mesmo para um leigo como eu, estando no segmento há décadas, é fácil perceber que estão tentando aplicar na saúde suplementar a lógica da saúde pública, que são sistemas de financiamento completamente antagônicos, e que estão caminhando para uma situação de radicalização que só tende a piorar o que eles mesmos estão criticando: a ausência de especialização dos serviços é uma das principais causas do encarecimento do sistema.

Por que este tipo de coisa pode até dar algum resultado imediato, mas não resolve (só agrava) o problema:

Exceto na auto-gestão, o beneficiário fica em média entre 5 a 8 anos no plano e troca, ou deixa de ter quando perde a condição econômica para continuar pagando – saúde suplementar não é saúde pública: o beneficiário é “um passageiro em um trecho da viagem”, apenas isso;

Estes planos assistenciais de restrição aumentam o custo no curto prazo e reduzem o custo no longo prazo. Como no longo prazo ao trocar de plano o beneficiário  começa do zero no outro plano – é a “luta do rochedo contra o mar”;

É obvio que isso só daria certo se 100 % do atendimento ao paciente ocorresse na rede própria, se a rede própria tiver 100 % das especializações e recursos necessários, se os serviços da rede própria fossem 100 % especializados, e se o beneficiário ficasse no plano para sempre – seria o ideal: mas o mundo real não é assim: não é assim no Brasil, nos EUA, na Europa, na China ….

Ficam aqui 2 previsões sobre o futuro, que estão muito claras para o grupo de amigos ao qual faço parte:

  • Se quiser ganhar dinheiro, não se meta a cuidar de paciente: enquanto a lógica da solução do problema dos custos da saúde estiver mirando para quem cuida dele injustamente, é melhor investir em empresas que estão mais longe do cuidado assistencial, e “engordar o coro” de quem diz que a culpa é do médico e do hospital;
  • O sistema de financiamento da saúde suplementar, que já começa a inviabilizar a existência de hospitais privados de excelência, está chegando agora nos hospitais escola com porta 2, que passarão em breve a ser a única referência de excelência para procedimentos que exigem alta especialização médica, que é bancada pela universidade, e não pela tabela de preços CBHPM. Em um primeiro momento estes hospitais públicos de porta 2 “serão a salvação da lavoura”, mas em pouco tempo perderão a motivação econômica para sustentar a saúde suplementar, e o desenvolvimento da medicina correrá um grande risco.

Infelizmente estamos presenciando um cenário que não gostaríamos de estar participando: quanto menor a empresa, e aí entram hospitais e planos de saúde, maior a contribuição para a assistência do paciente, e menor a lucratividade – quanto maior a empresa, menor a contribuição real para a assistência do paciente, e maior o lucro !!!

Médicos e hospitais não se enganem – não é necessário procurar apoio psicológico: a culpa não é sua – a culpa de um sistema de financiamento baseada no lucro só pode ser de quem atua no mercado exclusivamente em função dele – não é o caso de vocês, que além do lucro, cuidam dos pacientes.

       
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