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Remédio contra malária não tem eficácia comprovada contra Covid-19

By 23 de março de 2020 Indústria, Mercado

Ante a corrida às farmácias e o quase esgotamento da hidroxicloroquina, que está dificultando o acesso ao medicamento dos que realmente precisam dele, como portadores de artrite reumatoide e lúpus, o Instituto Questão de Ciência (IQC) esclarece: não há comprovoção de que este remédio seja eficaz contra o novo coronavírus.

“É um tanto prematuro afirmar que a hidroxicloroquina possa curar ou prevenir a doença que está paralisando o mundo”, pondera a presidente do IQC, Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, enfatizando: “E, até o momento, embora a droga seja promissora, não existe comprovação científica de que seja útil no combate ao novo coronavírus. Porém, criou o desabastecimento do produto, fazendo com que a ANVISA o transformasse em medicamento controlado nesta sexta-feira (20), por colocar em sério risco a saúde das pessoas que realmente precisam dele, como os portadores de doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide”.

Por isso, a cientistas considera irresponsável a divulgação ampla de um estudo preliminar sobre o assunto, que levou as pessoas a comprarem compulsivamente o remédio, já esgotado em diversas farmácias. “O trabalho, divulgado por pesquisador francês no YouTube, é inconclusivo e está repleto de imperfeições que amplificam dramaticamente o risco de resultados falsos positivos”, alerta a cientista.

O estudo francês é permeado de falhas e abrangeu número muito pequeno de participantes, apenas 26 no grupo tratamento, dos quais um morreu e cinco abandonaram o experimento. Além disso, faltam controles, randomização e “cegamento” do estudo (quando nem pacientes nem investigadores sabem qual grupo está recebendo o remédio e qual é o controle). “Do ponto de vista da lógica científica, não temos dados suficientes para tirar conclusões”, ressalta Natalia, acrescentando que uma rede social não é o veículo adequado para comunicar resultados de testes clínicos, menos ainda em meio a uma pandemia.

Trabalho sério

A presidente do IQC cita outro artigo científico, bem mais sério, divulgado em 9 de março, que comparou a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no combate à replicação do SARS-CoV-2 (o novo coronavírus) em células cultivadas em laboratório. A hidroxicloroquina e a cloroquina são medicamentos já aprovados para o uso, para tratar a malária e algumas doenças autoimunes. A diferença é que a primeira é mais segura, com menos efeitos colaterais para pessoas que sofrem de condições autoimunes, como o lúpus. O estudo, em células cultivadas, mostrou efeitos promissores para combater o coronavírus.

“Utilizar drogas já aprovadas por agências de controle, como o FDA, dos Estados Unidos, e a ANVISA, para tratar outras doenças é uma estratégia útil, uma vez que o medicamento já passou por testes demorados e rigorosos para demonstrar que seu uso em seres humanos é seguro. No entanto, no caso atual, o fato de um medicamento ser capaz de matar o coronavírus no laboratório não garante que funcionará contra o vírus já instalado no corpo humano”, explica Natalia.

“Sabonete e álcool gel destroem o vírus na superfície da pele, por exemplo, mas beber sabão líquido ou tomar cachaça não vai curar ninguém da COVID-19. Para avaliar se o medicamento funciona no interior do organismo humano, outros testes — em voluntários humanos — são necessários e demandam tempo, critério científico e seriedade, e devem ser feitos com o rigor científico necessário, que nos permita tirar conclusões e não gerar mais dúvidas”, conclui a pesquisadora.

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