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Perfil das unidades de internação na Saúde Suplementar e no SUS

By 18 de maio de 2020 Colunas, Hospital

Avaliando o perfil dos leitos é possível estimar em R$ 42 bilhões o custo mínimo para o Brasil tratar pacientes COVID-19

Fonte: Geografia Econômica da Saúde no Brasil

O perfil dos leitos e das unidades com leitos no Brasil varia significativamente quando comparamos a Saúde Suplementar e o SUS:

·         A forma como os sistemas de financiamento remunera os serviços afeta muito o perfil que existiria se a lógica assistencial fosse preponderante;

·         Alguns dos indicadores demonstram extrema preponderância do sistema de financiamento em relação ao que seriam as melhores práticas assistenciais relacionadas ao dimensionamento das unidades e do volume de leitos.

 

(*) Todos os gráficos são partes integrantes do estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil – Edição 2020

A análise dos gráficos permite identificar a relação entre o número de unidades com leitos e a quantidade de leitos delas:

·         O % de unidades para internação cirúrgica é maior que o % de leitos para internação cirúrgica, sinalizando que são unidades com poucos leitos – o giro é alto;

·         Esta relação é ainda maior nas unidades de internação para obstetrícia;

·         Já nas unidades para internação clínica e UTI a relação é inversa sinalizando uma proporção maior de leitos por unidade. Poderia ser de estranhar as unidades do tipo UTI, mas existem mais pacientes de média permanência em UTI do que geralmente se imagina.

Isolando somente leitos do SUS é possível introduzir a tese de que o sistema de financiamento influi significativamente na assistência:

·         Os % de unidades com leitos de UTI, e de leitos UTI no SUS são menores que os da Saúde Suplementar. Embora o valor da diária de UTI na tabela SIGTAP seja um dos itens mais significativos da tabela SIGTAP, é muito pequeno em relação ao faturamento que um leito de UTI gera na Saúde Suplementar. Por isso os % do SUS são menores que os gerais;

·         Os % no SUS são maiores que a média em leitos para internação clínica, e menores para internação cirúrgica. Sinalizam a mesma lógica: na saúde suplementar, de modo geral, os procedimentos cirúrgicos são mais rentáveis que os clínicos.

Os gráficos que isolam leitos da saúde suplementar:

·         Comprovam a inversão dos indicadores da saúde suplementar;

·         Nota-se que o % de psiquiatria e transtornos mentais, por exemplo, que é uma das especialidades menos lucrativas na saúde suplementar é a metade do % do SUS.

Aproveitando este perfil é possível fazer uma estimativa de quanto custará, no mínimo, ao Brasil o tratamento dos pacientes com COVID-19:

·         É importante iniciar este tópico realçando que é apenas um cálculo estimativo, baseado na quantidade de leitos;

·         Certamente teremos alguns milhares de estudos sendo produzidos com base em diversas fontes … certamente todos apresentando resultados diferentes … elogiados, contestados, odiados … e certamente nunca saberemos precisamente o custo real e preciso do enfrentamento do COVID-19 em nenhum país do mundo.

Este cálculo tem apenas a pretensão de discutir o valor mínimo, indiscutível … o resultado real é “daí pra cima” !!

Não vamos considerar:

·         O que se gasta adicionalmente em EPI’s, porque este assunto rende muita discussão em relação ao uso inadequado que se fazia antes da crise (não se utilizava de maneira adequada), e ao excesso que começou a existir após o início da crise;

·         Custo de montagem de leitos em hospitais de campanha – boa parte doação de entidades provadas – apenas o custo da aquisição dos respiradores;

·         O que se gasta com medicamentos e insumos para assepsia, que apesar do alto empenho (volume) é um valor baixo comparado aos demais, e requer uma análise muito mais profunda para estimar.

Vamos considerar apenas:

·         Antes da crise havia no Brasil 27.055 leitos de UTI na Saúde Suplementar e 22.906 leitos de UTI no SUS;

·         Somente o ministério da saúde adquiriu 15.000 respiradores para expandir a capacidade de leitos UTI no SUS. Estados e Municípios adquiriam mais 5.000, o que sinaliza um acréscimo emergencial de 20.000 leitos de UTI no SUS em hospitais existentes e em hospitais de campanha – a maioria absoluta destes leitos será desativada após a crise;

·         Considerando o custo de aquisição de respirador de US$ 13.000: R$ 65.000 cada;

·         A Prefeitura da Cidade de São Paulo definiu R$ 2.100 por diária de UTI a ser paga para hospitais privados engajados em apoiar no tratamento de pacientes. Este valor é menor que o custo diário de um leito de UTI – tive a oportunidade de medir isso em vários projetos de consultoria – mas vamos utilizar como referência mínima de valor para tratamento no SUS;

·         Também em consultorias na saúde suplementar fui testemunha de hospitais que recusaram até R$ 12.000 por um “diarião de UTI” (pacote de diária de UTI), porque o custo depende de uma infinidade de fatores do serviço, do procedimento e do tipo de tratamento. Este valor é muito superior ao custo de um leito de UTI. Sem entrar no mérito do cálculo, vamos utilizar aqui uma “média da média baixa”, para produzir um cálculo bem conservador (mínimo) na saúde suplementar que considera tudo que envolve o custo (todos os insumos): R$ 3.200;

·         E também fazendo uso de dados coletados em consultorias, em média o custo de um leito em UTI é no mínimo 5 vezes o custo de um leito convencional – vale reforçar que é “no mínimo” e a relação depende de muitos fatores. Então, para o cálculo, vamos utilizar o custo de R$ 420 para o SUS, e 640 para a Saúde Suplementar;

·         E utilizar o dado do informe da AMIB: para cada 100 % de pacientes internados para tratamento da COVID-19, 15 % necessitam de UTI e 85 % são tratados em outros tipos de unidades, sem a necessidade, por exemplo, de uso de respirador. OU seja, para cada 1 paciente tratado em UTI, temos 5,6 pacientes tratados fora da UTI.

Com estes parâmetros estimar o gasto mínimo de 2 maneiras: com base na quantidade de leitos, ou com base na quantidade de pacientes.

No caso de optar pelo cálculo pelo volume de pacientes:

·         Um paciente tratado em 16 dias de UTI custa, no mínimo, (16 * 2.100) R$ 33.600 no SUS, e, no mínimo, (16 * 3.200) R$ 51.200 na saúde suplementar;

·         Um paciente tratado em 16 dias sem o uso de UTI custa, no mínimo (16 * 420) R$ 6.720 no SUS, e custa, no mínimo, (16 * 640) R$ 10.240 na saúde suplementar;

·         Neste cálculo a dificuldade é estimar quantos pacientes realmente foram tratados em função do COVD-19 no Brasil;

·         O desafio de estimar a quantidade de pacientes neste cálculo é enorme … prefiro não arriscar este cálculo … sabemos que a subnotificação mesmo dos casos tratados em hospitais no Brasil jamais poderá ser minimamente avaliada … basta cruzar o número de óbitos registrados em cartórios com o número de óbitos registrados nas estatísticas do governo.

Optando pelo cálculo com base na quantidade de leitos, e estimando média de ocupação em leitos de UTI para COVID-19 em 50 % entre março e setembro de 2020, chegamos a um indicador muito mais seguro. Então vamos considerar 214 dias de calendário do período para o cálculo.

Pacientes-Dia COVID-19 entre março e setembro no SUS:

·         Acrescendo 20.000 leitos emergenciais aos 22.906 leitos existentes antes da crise = ~43 mil leitos;

·         Pacientes-dia UTI SUS COVID-19 entre março e setembro = (43.000 * 214) 9.202.000 * 50 % = 4.601.000;

·         Pacientes-dia COVID-19 fora da UTI entre março e setembro = 4.601.000 * 5,6 = 25.765.600.

Pacientes-Dia COVID-19 entre março e setembro na Saúde Suplementar:

·         Considerando apenas os 27.055 leitos de UTI existentes na saúde suplementar antes da crise;

·         Pacientes-dia UTI SS COVID-19 entre março e setembro = (27.000 * 214) 5.778.000 * 50 % = 2.889.000;

·         Pacientes-dia COVID-19 fora da UTI entre março e setembro = 2.889.000 * 5,6 = 16.178.400.

Custo do tratamento dos pacientes:

·         SUS = (4.601.000 * 2.100) + (25.765.600 * 420) = ~ R$ 20.5 bilhões;

·         SS = (2.889.000 * 3.200) + (16.178.400 * 640) = ~ R$ 19,5 bilhões;

Expansão da rede, considerando apenas o custo de aquisição de respiradores para UTIs no SUS:

·         20.000 novos respiradores, * R$ 65.000 = ~ R$ 1,3 bilhões.

Antes que os desavisados utilizem este total de ~ R$ 41,4 bilhões de forma indevida, é importantíssimo ressaltar:

·         A maior parcela (maioria absoluta do valor) não representa acréscimo do que se gastaria em saúde no Brasil – representa apenas o valor correspondente ao tratamento do COVID-19;

·         É o valor que não será gasto em outros tratamentos de doenças: é só lembrar que enquanto as UTIs estão tomadas por pacientes COVID-19 todas as cirurgias eletivas que necessitam de UTI para estabilizar o paciente foram canceladas, que quase 100 % das consultas e terapias ambulatoriais eletivas no SUS e na saúde suplementar foram canceladas, que por medo do convívio com pacientes infectados em serviços de saúde os próprios pacientes passaram e evitar tratamentos que nem poderiam ser interrompidos …

·         Quanto deste valor é “dinheiro novo na saúde” é muito pouco, e acredito que jamais será aferido com parcimônia, bastando observar toda a lamentável movimentação política a que infelizmente foi submetida a população mais carente e menos esclarecida da população brasileira, provocando milhares de mortes desnecessárias !

Mas para que se tenha dimensão do que isso significa para os sistemas de saúde brasileiros, esta estimativa mínima de R$ 41,3 bilhões de custo para enfrentamento do COVID-19:

·         Significa ~ 25,6 % de toda a despesa assistencial de todas as operadoras juntas em 1 ano, para tratar todas as doenças de 50 milhões de beneficiários de planos de saúde no Brasil;

·         Significa ~ 112,2 % de todo o repasse (*) do SUS para todos os atendimentos ambulatoriais e de internação em 1 ano para tratar todas as doenças de toda a população brasileira.

(*) somente repasses de produção SIA e SIH.

No ano que vem, quando estivermos tabulando as informações para a Edição 2021 do estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil os gráficos que exibimos no início desta análise terão sofrido alterações significativas:

·         Como vimos nos gráficos, os sistemas de financiamento definiram o perfil das unidades de internação em função da melhor ou pior remuneração que o SUS, a Saúde Suplementar Regulada e a Saúde Suplementar Não Regulada impuseram aos serviços de saúde ao longo dos anos;

·         Mas a crise COVID-19 veio para, pelo menos por um período, modificar significativamente este perfil, porque a desmobilização dos leitos criados em função da crise certamente será gradual.

Enio Salu

About Enio Salu

Histórico Acadêmico·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo·  Pós Graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas·  Professor em Turmas de Pós Graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós Graduação em Administração Hospitalar da Fundação UnimedHistórico Profissional·  CEO da Escepti Consultoria e Treinamento·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas·  Associado NCMA – National Contract Management Association·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Própria·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado