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Em busca do sistema de saúde perfeito

By 14 de novembro de 2018 Hospital

Mark Britnell, Presidente de Saúde Global da KPMG e líder do Centro de Excelência, nos recebeu no lançamento da tradução para português do seu livro “Em busca do sistema de saúde perfeito” para uma conversa sobre tecnologia e modelos de saúde ao redor do mundo. Em sua carreira, ele conta com passagens como CEO de Hospitais do Reino Unido, além da Direção Geral do NHS.
Com mais de vinte anos de trabalho na iniciativa pública, e dez na privada, ele inicia a entrevista avaliando as diferenças, do ponto de vista gerencial do controle em cada setor. “Eu diria que, no setor público, os executivos são motivados por valor no cuidado com o paciente. Não que isso não seja verdade no setor privado, mas eles também têm responsabilidades com os stakeholders em relação ao crescimento de receita. Além disso, eles têm bem claro a relação entre tempo e dinheiro, enquanto no público apesar de existir essa consciência, o ritmo de mudança em escala não é tão rápido quanto no setor privado, por tamanho de organização e questões burocráticas.”, diz Mark
Para ele, o desafio nos dois setores é a coordenação e integração de cuidados. Ou seja, o gerenciamento de pacientes a longo prazo, especialmente com condições crônicas, tendência influenciada em grande parte pelo envelhecimento populacional. Entre um estado intervencionista/assistencialista, que paga e opera, e um sistema com diversos stakeholders, ele acredita que esta coordenação seja mais fácil para um estado que controla os cuidados primários, secundários e de comunidade. Mas ressalta que o controle governamental não é garantia de aumento de integração.
Em sua experiência, os incentivos têm papel fundamental nas questões de qualidade e custo. Modelos verticalizados, no qual a instituição paga e provê, têm melhores razões para cuidar de pacientes de forma mais holística. “O Brasil possui um sistema largamente financiado através de pagamentos por serviço, então é muito difícil oferecer o cuidado certo no momento certo, de forma integrada. Provedores são incentivados a fazer mais, e não necessariamente o necessário”, e continua, “A minha primeira visita ao Brasil foi em 1992, e desde então, após mais de dez visitas, vejo que o sistema de pagamento por serviço está muito enraizado, tanto no setor público quanto no privado. É claro para mim: se o país continuar nessa base, não será capaz de arcar com a saúde. É preciso encontrar um novo modo de olhar para a qualidade e custo, definir novos padrões e, em seguida, trabalhar o valor dessa saúde de maneira sustentável”. Sob o seu ponto de vista, os padrões de atendimento ao paciente, assistencial e gerencial, devem ser definidos pelo maior player. No caso do Brasil, onde a proporção se mantem em quase 50/50, ele sugere que o setor público lidere o processo com o complemento do setor privado.
O Sistema Único de Saúde, provedor gratuito de assistência médica para os brasileiros, é um grande projeto de saúde populacional segurado por constituição e representa, ao mesmo tempo, um enorme desafio. Mark diz que somos conservadores e, de modo geral, estamos atrasados no que diz respeito à adoção de tecnologias digitais para transformação de saúde em relação ao que se vê no mundo. Por exemplo, em Israel, há um sistema muito sofisticado de inteligência de informação, no qual pacientes são segmentados e estratificados de acordo com as suas condições. O sistema é baseado em nuvem, alimentado 24/7 e atrelado a plataforma médica correspondente. Deste modo é possível identificar gatilhos e realizar um trabalho preventivo e próximo, antes que o paciente adoeça ou se agrave. “O Brasil possui um sistema reativo. Há muito o que se fazer sobre tecnologia e melhoria de processos, principalmente observar o que os outros países do mundo estão fazendo em relação à inovação digital a serviço da melhoria da qualidade do paciente e redução de custos”
Em seu livro, ele aborda as doze características dos melhores sistemas de saúde do mundo que servem como modelo. Ele diz que nenhum país tem o sistema de saúde ideal, mas que se conseguíssemos combiná-las, o resultado seria próximo do perfeito. “Eu sei que o Brasil não é a Alemanha, e que a Austrália não é a Inglaterra, mas o livro é sobre as melhores práticas e inovações em saúde ao redor do globo. Todos os países têm algo a ensinar, e algo a aprender. O objetivo é mostrar que é possível, trazer a situação para uma ótica otimista e inspirar a mudança. Se eu conseguir isso, terei tido sucesso!”
Mark já trabalhou em mais de setenta e sete diferentes países, assessorando governos e iniciativa privada em operações, políticas e estratégias. Com essa bagagem ele explica que há uma tendência maior dos países aprenderem entre si do que se diferenciarem ao passar do tempo. O fato é que sistemas são diferentes e particulares porque são embasados em históricos sócio-político culturais, mas no final, todos os humanos sofrem e morrem das mesmas coisas. Ao seu ver, essa é uma das razões pela qual o livro fez tanto sucesso em países tão distintos: “Existem muito mais similaridades do que diferenças nos sistemas de saúde. As pessoas enxergam semelhanças nos problemas e conseguem agregar para seu local soluções de gestão ou tecnologia, que já funcionam em outros lugares”
No geral, há o pensamento de que as low hanging fruits, ou seja, por onde começar, seja muito diferente de um país para o outro, mas para ele as três principais ações são base: focar no paciente, elaborar uma politica de saúde clara e que se comunique bem com o setor público e privado, e assegurar um plano de financiamento que seja sustentável e prime pelos incentivos certos.
Para finalizar, ele comenta sobre o seu próximo livro, “Human: Solving the global workforce crisis in healthcare”, que projeta um gap de dezoito milhões de profissionais de saúde até 2030. Se por um lado temos um grande fuzz sobre a inteligência e automação tomarem empregos no setor, outros dizem que com a filosofia “high tech high touch” (alta tecnologia, alto contato) todos terão espaço. Mark acredita que o mundo necessita de tecnologias disruptivas, em especial a saúde, mas que isso de forma alguma tirará os empregos humanos. “A inteligência artificial criará bem mais empregos do que destruirá. Ela será extremamente útil na personalização do cuidado, na medicina de precisão e no combate ao câncer, para citar. Eu penso como se fosse uma enorme e encorajadora força propulsora, para o bem da saúde no/do futuro. Historicamente, a indústria da saúde teve uma adoção lenta e não percebeu o leque de possibilidades relacionada a essa tecnologia. A onda está vindo, e bem rápido, mas os humanos não têm nada a temer. Temos que ter certeza de que nós somos os mestres, e as máquinas, os servos.”

Fernanda Fortuna

About Fernanda Fortuna

Engenheira Biomédica pela Universidade Federal do ABC, Fernanda passou um ano na Escócia estudando Engenharia Mecânica. Após retornar ao Brasil, emprendeu na área de robótica e reabilitação. Apaixonada por tecnologia e saúde, hoje atua na curadoria de conteúdo para os eventos Saúde Business Fórum, Hospitalar e Healthcare Innovation Show.

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