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Conta Aberta em hospital é como restaurante de Comida por Quilo

By 20 de julho de 2016 Colunas, Hospital

Quando discutimos sobre formas de apresentação de contas hospitalares do Modelo GFACH, a melhor forma de fazer as pessoas entenderem porque pacotes sempre serão interessantes para operadoras e médicos, e nunca serão interessantes para hospitais, é comparar hospitais com restaurantes.

O Modelo descreve em detalhes diversos aspectos conflitantes na relação entre hospitais e operadoras. Vamos ficar com este conflito e esquecer o médico: se existe algo que podemos chamar de “suprassumo do conflito entre hospitais e operadoras” é a questão “conta aberta x pacote”.

Vamos exemplificar os tipos de restaurantes que conhecemos.

Existe o restaurante que vende comida por quilo. Dependendo da fome do cliente, vai pagar mais ou menos … tão simples quanto isso: come mais, paga mais – come menos, paga menos.

No restaurante “à la carte”, um cardápio indica previamente o preço da refeição – não pesamos o prato porque teoricamente foi feito o cálculo do valor total da “escolha do freguês”. Se comer menos (se sobrar) não tem desconto. Se quiser comer mais, vai ter que pagar outro prato.

Existe o restaurante tipo “rodízio” onde o glutão pode comer à vontade, também pagando preço fixo. Também não se pesa a comida – se quiser “encher o bucho”, ou se quiser comer pouquinho, vai pagar o mesmo preço. Existem 2 tipos de rodízio:

  • O que tem comida boa e o preço é “bem salgado”. Este restaurante tem pedigree – se vender sua comida por quilo, certamente o preço do quilo seria muito menor que o preço do rodízio, mas como a comida é boa ele “chama o cliente” com sua marca, e cobra mais caro sabendo que ele tem “um limite” natural chamado tamanho do estômago. Conheço alguns “ignorantes” que até parecem não ter este limite natural, mas têm !
  • O que tem comida ruim, e coloca no cardápio “um monte de coisa” barata, que pesa muito no estomago, e pouca coisa boa de alto valor. A carne, por exemplo, é de terceira com amaciante e já temperada com sal de fruta, para que o cliente volte de vez em quando.

É fácil associar a comida por quilo com a conta aberta hospitalar. E é a forma mais justa de remunerar os serviços hospitalares. Paga-se exatamente o que se utiliza – tão simples quanto isso.

Para o hospital o pacote só é viável quando comparamos a conta ao “à la carte”. Somente para procedimentos padronizados. Se o paciente necessitar consumir mais, deve comprar outro prato. Se comprou bife com arroz, ficou com fome e quer uma porção de fritas, deve pagar o adicional da porção.

Não existe hipótese do pacote ser rodízio para o hospital. A explicação está na comparação: o cliente do restaurante tem limite para consumir (o tamanho do estomago), o paciente não. O que vemos no mercado quando o pacote se enquadra em rodízio:

Alguns hospitais de pedigree dizem que vendem rodízio, mas quando você olha o termo que assina é o mais puro “à la carte”. Você paga pela marca por um prato feito pensando que vai comer tudo que quiser, até ver a conta;

A operadora impõe um pacote inviável, mas o hospital aceita em troca da oportunidade de “fisgar o cliente” para procedimentos de maior complexidade. Por exemplo: um pacote global em pronto socorro de urgência obstétrica, que acaba trazendo para a mãe para o futuro parto;

O hospital tem um serviço de baixíssima qualidade e/ou baixa ocupação e qualquer coisa que aparece serve para reduzir o custo fixo. O resultado do pacote no médio e longo prazo acaba piorando ainda mais sua agonia.

Nas aulas sempre escuto uma ou outra pessoa citando que o pacote é bom porque simplifica o processo de formação e auditoria das contas:

  • Se a pessoa trabalha em operadora eu entendo que foi ensinada a pensar desta forma – é natural;
  • Se a pessoa trabalha em hospital eu tenho pena. Geralmente está inserida em processos de faturamento e auditoria totalmente manuais, ou precariamente automatizados. Já passou a época em que era justificável dizer que compor e auditar contas hospitalares dá trabalho – hoje em dia isso é inadmissível. Pode também ser uma pessoa que trabalha em hospital “dominado” pelas operadoras: não tem um bom produto e as operadoras “deitam e rolam”.

Esta “brincadeira” que vivemos hoje, que equipou a saúde com uma estrutura gigantesca para faturar e auditar contas, encarece o sistema de saúde. No cenário que vivemos ainda é muito necessário alguém que fique olhando as bobagens que os hospitais fazem no faturamento, alguém que fique analisando as peripécias que as operadoras fazem na auditoria. Quem está no sistema e não se especializa para lidar com isso perde muito dinheiro.

O paradoxo que existe no interesse das operadoras e dos hospitais só tem uma chance de acabar: quando todos os hospitais forem de rede própria de operadoras, e prestarem serviço exclusivamente para sua mantenedora. Quando, inclusive, os médicos forem funcionários das operadoras. Embora acreditando ser a tendência natural da saúde suplementar, não creio que estarei vivo para ver.

Enquanto isso vamos continuar assistindo os hospitais vendendo comida por quilo, as operadoras querendo comprar rodízio, e o “à la carte” sendo o “fiel da balança” .

Enio Salu

About Enio Salu

Histórico Acadêmico·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo·  Pós Graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas·  Professor em Turmas de Pós Graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós Graduação em Administração Hospitalar da Fundação UnimedHistórico Profissional·  CEO da Escepti Consultoria e Treinamento·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas·  Associado NCMA – National Contract Management Association·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Própria·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado

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