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Como se avalia onde é necessário construir um hospital de campanha para enfrentar o COVID-19

By 16 de abril de 2020 Colunas, Hospital

Utilizando o Exemplo que o Ministério e Secretarias de Saúde Adotam para Entender como se Planeja a Construção de Hospitais de Campanha

Fonte: Geografia Econômica da Saúde no Brasil

(*) todos os gráficos são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil – Edição 2020

Os gráficos ilustram a distribuição dos hospitais, da população e dos leitos de UTI no Brasil ao final de 2019. São os 3 parâmetros que vamos utilizar para comentar como o governo inicia o planejamento da construção de hospitais de campanha na Crise COVD-19.

Pouca gente sabe mas a construção de hospitais de campanha é algo muito comum na rotina da saúde pública, e também da área privada:

·         A maioria das pessoas associa hospital de campanha apenas aos que são montados pelos exércitos para dar suporte às batalhas em cenários de guerra;

·         Mas eles estão presentes na rotina da gestão da saúde mais em ambiente de paz do que em guerras.

Vou me aproveitar do início da minha carreira, antes de ingressar na área da saúde (engenharia elétrica), para exemplificar:

·         O Brasil está “esquadrinhado” por linhas de transmissão de energia elétrica;

·         Elas passam por cidades, zonas rurais, áreas de preservação e até selvas … construir uma linha de transmissão é algo caríssimo e requer uma logística de construção que poucas construtoras no mundo conhecem tão bem como as brasileiras;

·         É fácil imaginar que a obra “vai andando” … ela tem uma sede, mas o trabalho é ir construindo torres e esticando cabos … não é simples: torres não são meros postes … cada torre é muito maior do que a maioria dos edifícios que as pessoas conhecem, e sujeitas a condições inóspitas;

·         O projeto “Luz para Todos” do Brasil, por exemplo, tem por definição levar energia para todas as comunidades (comunidades no sentido estrito da palavra … não “comunidade” aplicada à “favela”);

·         Muitas destas comunidades estavam no meio da selva no interior do Pará, Amazonas … ou seja, as “obras” tiveram que “andar” no meio de regiões sem qualquer tipo de infraestrutura, e ali aconteciam “picadas de cobra”, “ataques de animais”, “febre amarela”, “malária”, e acidentes comuns de trabalho (por exemplo fraturas, cortes …) … e os funcionários, “isolados do mundo”, estão expostos ainda às doenças comuns de toda a população: desde depressão leve até ataque cardíaco – é necessário uma estrutura de saúde de retaguarda que não se limita a um médico, um ambulatório e uma farmácia.

Se existe a construção de uma barragem, uma penitenciária, uma mina mineradora … geralmente a localidade é distante de grandes centros e movimentam muita gente … são infindáveis os exemplos.

Nestes casos a construtora, veja que não tem nada a ver com o SUS, com a participação de uma equipe de planejamento em saúde, constrói um hospital de campanha enquanto durar a obra:

·         Se for uma barragem o hospital de campanha “fica paradinho” no lugar do início ao fim;

·         Mas se for uma linha de transmissão, o hospital de campanha “vai andando”, acompanhando a obra … monta-se em um local, a obra avança, desmonta-se e monta-se de novo “lá na frente” !

Quem conhece hoje o Hospital Ministro Costa Cavalcanti, referência na saúde pública e privada em Foz do Iguaçu (tive a honra de conduzir um programa de capacitação lá), que inclusive opera um plano de saúde, talvez não associe sua criação à construção da Hidroelétrica de Itaipu !

Depois que a obra acaba o hospital de campanha é “desmontado”:

·         Uma vez que as “comunidades do entorno da obra” vão crescer acompanhando o crescimento da atividade comercial que a região vai experimentar, o SUS estabelece ali os ajustes na sua rede em função da mudança de perfil populacional … neste caso, é muito comum que os equipamentos do hospital de campanha sejam doados pela construtora ao SUS. Em muitos casos já na licitação da obra existe a definição que a construtora deve construir um hospital para o SUS;

·         E a saúde suplementar, que também analisa a região, se equipa para fornecer serviços de saúde para a população que pode pagar um plano de saúde, ou financiar “do bolso” as despesas médicas … aproveita a oportunidade de negócios !

No caso da crise COVID-19 o conceito é o mesmo … é uma guerra, que tem batalhas … começo meio e fim … e o ministério e as secretarias de saúde estaduais e municipais estão utilizando os parâmetros “com maestria”:

·         Dependendo do perfil demográfico de cada região (existem regiões com população mais jovem, outras com mais idosos … uma com condições pré existentes totalmente diferente de outras: hábitos, costumes, alimentação, saneamento básico …), e do histórico de casos (o que vai acontecer aqui no Brasil vai sendo medido ao longo do tempo … não se pode assumir que o vírus aqui vai gerar exatamente o mesmo dano de outros países … e nem que será igual no norte e no sul de um país tão grande), estima-se uma quantidade de leitos de UTI necessária para tratar os casos mais críticos. A quantidade necessária varia em função da combinação destes fatores, principalmente;

·         Apesar do Brasil ter uma das maiores relações de leitos de UTI por habitante no mundo, se todos se infectarem simultaneamente a quantidade de leitos está longe de ser suficiente … nenhum país do mundo … nenhuma cidade no mundo … tinha leitos de UTI suficiente para tratar simultaneamente o potencial de infectados da doença. Por isso todos os governos do mundo estão se preocupando com o afastamento social para que as pessoas não adoeçam ao mesmo tempo … mesmo se todos adoecerem, se não for ao mesmo tempo o sistema de saúde “dá um jeito”;

·         Se um paciente portador do COVID-19 for internado em uma UTI junto com um paciente que já está lá, por exemplo se recuperando de uma cirurgia cardíaca, o outro paciente que está lá apenas para “estabilizar o pós cirúrgico”, pode contrair o vírus em uma situação de baixíssima resistência geral … e vir à óbito. O ideal seria que estes pacientes COVID-19 ficassem em UTI específicas;

·         Ao criar leitos suplementares de UTI o sistema vai ficar superdimensionado, com uma quantidade muito maior do que os sistemas de saúde necessitam na rotina. Manter leitos de UTI ociosos depois da crise é um desperdício enorme de recursos, que fazem falta para outras necessidades de saúde;

·         Existem 200 milhões de habitantes e 50 milhões de beneficiários de planos de saúde. À primeira vista dá a impressão que o SUS necessita então de 3 a cada 4 leitos, mas muitos beneficiários de planos são rotineiramente atendidos em serviços públicos, tanto que as operadoras são obrigadas a ressarcir o SUS por estes atendimentos. Estima-se que na verdade o SUS necessita de 5 a cada 6 leitos existentes para dar conta à sua demanda.