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Cultura de Inovação e Adoção de Tecnologia

Entre as necessidades mais críticas enfrentadas atualmente pelas organizações provedoras de saúde estão encontrar mecanismos para viabilizar a saúde baseada em valor e personalizar cada vez mais a experiência e satisfação do paciente. Ambas abordagens incluem algumas quebras de paradigmas, e somente através de uma mudança de cultura setorial que habilitem a adoção de tecnologia e estabeleçam a inovação como parte estratégica, terão êxito –não no futuro distante- mas em um curto espaço de tempo.

Historicamente, o setor de saúde tem demorado em relação a outros mercados, a adotar novas tecnologias, especialmente aquelas digitais que transformam a operação. Por exemplo, foi somente nos últimos anos que hospitais e consultórios médicos começaram a abandonar o antigo armazenamento em papel para registros eletrônicos de saúde (EHRs).

Em geral, há um reconhecimento de que o fornecimento de uma experiência simplificada e consistente é necessário para oferecer valor. Médicos entendem o papel cada vez mais importante da tecnologia na assistência. No entanto, mais de 75% dos médicos, segundo pesquisa americana, dizem que os registros eletrônicos de saúde aumentam os custos de prática e reduzem sua produtividade. Junto com esses obstáculos, os desafios com a implementação e os fluxos de trabalho médico muitas vezes levam a uma adoção de tecnologia de cuidados de saúde abaixo do ideal.

Se, de um lado temos idolatrada a inovação por idealizadores com mentes nas nuvens, por outro temos aqueles que a enxergam como uma verdadeira corda bamba de riscos. Isso é especialmente verdadeiro neste setor, uma vez que testar novos modelos e “falhar rápido” precisa, ironicamente, ser realizado com muita cautela, dado que o core dos provedores é manter seus usuários seguros e saudáveis.

Para dar emoção, nessa corrida existem os “Early Adopters”. Os primeiros adeptos a qualquer tecnologia provavelmente enfrentarão muito mais obstáculos, mas sairão na frente. Os retardatários, em contrapartida, podem descobrir que, à medida que novos modelos de pagamento e entrega se consolidam, eles não podem mais competir no mesmo nível, pois ficaram muito tempo “vivendo no presente” e arriscam a extinção de seus negócios.

Um estudo da Harvard Business Review Analytic Services e Verizon mostrou que os early adopters têm colhido frutos: “Apenas 27% das organizações de saúde proativamente procuram obter a inovação como vantagem, em comparação com 36% que compram novas tecnologias depois que outros provaram seus benefícios e 35% que esperam até se tornar bem estabelecido”. Segundo a pesquisa, as organizações que adotam tecnologia mais cedo têm taxas de crescimentos significantemente maiores, ano a ano, do que os seus seguidores.

A nível de organização, os CIOs das instituições são responsáveis pela avaliação da eficiência operacional de tecnologias emergentes e pelo desenho de integração da mesma desde os colaboradores até o atendimento ao paciente. Mas fica a pergunta: será que precisamos mesmo de um Chief Innovation Officer, ou podemos mudar a cultura para um Chief Integration Officer? Há indícios de que Steve Jobs concordaria com isso.

A inovação em saúde não apenas economiza dinheiro no sistema – por exemplo, a cada dólar gasto em medicamentos inovadores, há uma redução de gastos totais com saúde em US$ 7,20, mas também tem o poder de salvar vidas ou aumentar a sua expectativa. Para citar, entre 1980 e 2010, os avanços tecnológicos na medicina ajudaram a adicionar 5 anos à expectativa de vida dos americanos. É por isso que várias instituições de saúde estão planejando construir centros de inovação para impulsionar mudanças, de fato, significativas.

Um alerta importante: deve-se tomar um enorme cuidado para não desenvolver a inovação tecnológica em silos. Grandes empresas, como a Sony, Xerox e Nokia, por exemplo, já sentiram na pele as consequências. Engajamento dos colaboradores seria a palavra chave. As novidades vêm a passos largos e é necessário, ainda que de difícil prática, o acompanhamento tecnológico e horizontalizado de todos na empresa. Não há razão para se atribuir a uma só pessoa o peso de carregar a inovação de uma empresa inteira. É claro que deve-se existir um certo nível de coordenação, mas a inovação é de responsabilidade e voz de todos.

Um bom primeiro passo é engajar de forma holística os colaboradores. Um grupo técnico e clínico multidisciplinar ajuda a colocar na mesa diferentes perspectivas e prioridades no processo de brainstorming tecnológico ou mesmo adoção. Além disso, a proximidade fortalece o senso de evangelização no processo de implementação e cria um vínculo entre estratégia, objetivo e métrica.

No setor clínico, médicos, enfermeiros e outros membros da equipe de atendimento têm suas responsabilidades. Normalmente confortáveis com seus processos e rotinas, a figura do “Integrador” deve surgir como aquele que entenda a importância da qualidade e consistência no atendimento ao paciente, e ao mesmo tempo saiba como minimizar os impactos na produtividade, receita e custos, no início da curva de adoção. Se não houver essa preocupação, provedores podem enxergar a otimização com um fardo adicional (e não queremos colaboradores desmotivados, não é?)

Aliás, há uma diferença entre adoção e implementação. Muitas vezes os recursos alocados em um projeto são desproporcionais ao desafios a serem enfrentados. Se engana quem pensa que uma implementação bem sucedida é a solução. Além de não ser, ela não é isolada e nem o final do processo. A implementação é um marco centrado na tecnologia que tem pouco a ver com alcançar os resultados específicos centrados no paciente que inspiraram o projeto em primeiro lugar. Embora a implementação de novos processos, equipamentos ou cultura tecnológica, seja muito inspiradora e excitante para seus idealizadores, apenas os colaboradores podem inspirar uma verdadeira adoção na instituição. A implementação e a adoção representam dois pontos diferentes, sendo assim, eles também precisam de métricas independentes.

Se cabe aqui um conselho, cultive relacionamentos externos, que se estendam além da sua instituição e setor. É inestimável o valor para a construção do conhecimento. A exposição a novas formas de trabalho e pensamento desperta a curiosidade, o instinto de promover mudanças e translações que agreguem para a melhora setorial. É impressionante a quantidade de “zonas cinzas” que podemos ganhar com um pouco de criatividade.

O quadro geral é que podemos nos beneficiar de um sistema de saúde mais inteligente, ágil e tecnológico, um sistema que aprenda e melhore constantemente. Estamos dependentes da cultura: já temos pessoas que valorizam a mudança e, se ainda não temos a tecnologia, estamos no processo de desenvolvimento. Já dizia Peter Drucker, “a cultura come a estratégia no café”, se há o desejo de mudança, comece agora.

Saúde populacional como estratégia para mudança do setor

À medida que provedores e pagadores transitam para uma saúde baseada em valor, incluindo novas formas de se mensurar resultados e interpretar custos, a gestão da saúde populacional se tornou um mecanismo básico para realizar essa transformação de forma sustentável.

Este é um termo ouvido cada vez mais e presente tanto a nível governamental quanto institucional. Não é de hoje que se percebe que dinheiro puramente investido em saúde não é proporcional à qualidade, e nem resultados. É necessário um trabalho forte de gestão e políticas na alocação desse recurso. Para se ter uma ideia, nos EUA, 17,1% do PIB é gasto com saúde, o que se converte em uma expectativa de vida de 78.8 anos, com um acesso público de 34% da população. Enquanto isso, no Reino Unido, 100% da população têm acesso à saúde pública, com expectativa de 81.1 anos, realizados com um orçamento de 8.8% do PIB.

O gerenciamento da saúde é uma abordagem abrangente para descobrir lacunas no atendimento através de dados e programas de gestão que alinhem os cuidados aos indivíduos, que podem ainda não ser pacientes, de forma a otimizar resultados e receita. Desenvolver e implantar esses projetos pode ser uma proposta difícil, especialmente devido a limitações de orçamento e transição de cultura.

São muitas as evidências de que a gestão da saúde populacional pode reduzir o impacto das doenças crônicas, a utilização inadequada de serviços e promover a melhora na qualidade de vida dos pacientes. O gerenciamento efetivo da saúde da população beneficia pacientes, médicos, organizações de saúde, todo o sistema de saúde e o país como um todo.

Os pacientes recebem melhor atenção coordenada – e desfrutam de melhor saúde – porque são acompanhados e recebem atenção primária. Os médicos são mais bem informados e seus pacientes são mais engajados, e consequentemente, vemos melhores resultados nos cuidados. As organizações de saúde são mais lucrativas – qualquer que seja seu modelo de pagamento – porque as lacunas no atendimento são preenchidas, o volume de pacientes aumenta e o custo de prestação de cuidados pode ser quantificado com mais precisão.

sistema de saúde se beneficia do aumento do atendimento preventivo, o que ajuda a evitar procedimentos mais caros e leva a uma atenção de qualidade, mais eficiente e coordenada entre as organizações de saúde. O país se beneficia de custos reduzidos com saúde, melhor gerenciamento de doenças e uma população geralmente mais saudável.

Começar pequeno e com o básico é a chave para qualquer primeiro contato com uma nova iniciativa, neste caso, para o desenvolvimento de um programa bem sucedido de gestão de saúde da população. Os agentes devem se perguntar qual iniciativa economizará mais dinheiro e produzirá as melhorias clínicas mais mensuráveis com o mínimo de esforço. Um case-piloto, como desenvolver estratégias para aumentar as taxas de vacinação contra gripe ou pneumonia, por exemplo, pode servir como prova de conceito para os executivos enquanto ajuda uma organização a desenvolver uma base de melhores práticas para casos de uso futuros. Novamente, não existem respostas prontas que caibam em todos os contextos, mas um consenso é que a abordagem voltada aos dados para o gerenciamento pró-ativo e preventivo da população provavelmente produzirá resultados mais positivos a longo prazo para os pacientes.

Um programa de gerenciamento da saúde da população (PHM) bem sucedido é aquele que fornece insights tanto para o corpo clínico quanto para administradores, permite que os mesmos identifiquem os pontos de melhoria e tomem ações visando a dupla resultado-custo. O PHM procura melhorar os resultados de saúde de um grupo, monitorando e identificando pacientes individuais dentro deste grupo. Isso requer que dados clínicos, financeiros e operacionais estejam disponíveis para elaborar uma infraestrutura de gerenciamento de atendimento, incluindo a estratificação de risco, entrega do cuidado e monitoramento continuado do desfecho, individual e seu impacto no grupo. As métricas de qualidade são fundamentais para avaliar um programa PHM, mas muitas organizações têm dificuldade em entender quais métricas devem ser usadas, quais dados são necessários e como podem traduzir números de desempenho em melhorias acionáveis.

Dados importantes para a estratificação de risco podem incluir o número e tipo de doenças crônicas, histórico de utilização hospitalar, dados pessoais, diagnóstico de saúde mental ou outros fatores como ambientais, sociais e econômicos. Pacientes com notas de risco mais altas podem receber atenção extra, incluindo acompanhamento mais frequente, apoio social e comunitário, serviços de coordenação de cuidados aprimorados, orientação para adesão à medicação ou um convite para se inscrever em um programa educacional de apoio ao paciente. Pacientes com notas de menor risco ainda podem se beneficiar de serviços como lembretes de exames preventivos, opções para se comunicar com provedores, e incentivos para manter hábitos de vida saudáveis.

Apesar das doenças crônicas estarem entre as doenças mais caras, prevalentes e evitáveis que afetam a saúde da população, nem sempre os participantes deste grupo retornarão aos melhores resultados. Isso porque, em algumas vezes, não há muito o que se fazer além de acompanhamentos para, de fato, alterar uma situação médica. Já indivíduos em baixo risco podem potencialmente se beneficiar de forma muito mais interessante desses programas, se engajando antecipadamente com a sua saúde e evitando custosos problemas futuros, naquilo que os compete.

Essas estratégias e serviços preventivos destinam-se a ajudar a manter o estado de saúde mais alto possível em cada indivíduo, evitando os eventos de crise, reduzindo as hospitalizações desnecessárias e melhorando a qualidade de vida geral. Como resultado, os provedores podem reduzir serviços caros, evitar duplicação de esforços, aumentar a satisfação do paciente e promover melhor saúde geral para seus pacientes.

prevenção é um dos pilares de um conceito bem mais amplo e que volta a ter a sua importância reconhecida depois de anos de negligência. A atenção primária, em sua essência é o tratamento das pessoas, e não necessariamente de doenças ou condições específicas. Geralmente, é o primeiro ponto de contato entre o indivíduo e o sistema de saúde, isso significa que é nesse contato que podem ser vistos os primeiros sintomas de depressão, sinais precoces de câncer ou doenças crônicas e outros problemas de saúde. O objetivo é proporcionar a promoção da saúde, através da prevenção de doenças, manutenção da saúde, aconselhamento, educação do paciente, diagnóstico e tratamento de doenças. É um atendimento abrangente, acessível e baseado na comunidade, que atende às necessidades de saúde dos indivíduos ao longo da vida.

Neste modelo, os profissionais de atenção primária garantem que os pacientes recebam os cuidados certos, no ambiente certo, pelo provedor mais adequado, considerando a eficiência e o valor para o paciente. Cerca de 80% a 90% das necessidades de saúde de um indivíduo ao longo de sua vida podem ser atendidas na medicina básica. Um estudo americano mostrou que os adultos do país que têm um provedor de cuidados primários têm 19% menos chances de morte prematura do que aqueles que só vêem especialistas para seus cuidados. Além disso, as pessoas que têm acesso à cuidados primários poupam 33% de recursos financeiros em saúde sobre os seus pares que apenas consultam especialistas.

acesso aos cuidados primários ajuda a manter as pessoas fora das salas de emergência, onde os cuidados custam pelo menos quatro vezes mais que os atendimentos ambulatoriais. Fato embasado por uma pesquisa da Carolina do Norte, que descobriu que quase 60% dos problemas dos pacientes poderiam ter sido abordados no modelo de atenção primária, o que teria gerado uma economia de três a sete vezes no custo total.

Quando implementada corretamente, a atenção primária é muito benéfica para a saúde dos pacientes e também reduz os encargos financeiros tanto do sistema de saúde quanto das próprias empresas. Um dado da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que companhias que possuem gestão de saúde, incluindo atenção primária, reduzem em até 30% as despesas de tratamento médico e absenteísmo de seus funcionários.

Apesar das incertezas, é importante reconhecer que a gestão da saúde da população será a base para a maioria das futuras iniciativas de reforma da saúde. Sem um embasamento firme na estratificação de riscos, cuidados preventivos e análises de big data, as instituições provavelmente não conseguirão lidar com seus indivíduos de forma sustentável e baseadas em valor.

Entenda mais sobre Saúde Baseada em Valor

Tratamentos excessivos gerados por incentivos indevidos, custos e orçamentos descontrolados, dados desorganizados, falta de acompanhamento longitudinal do paciente. Esses são alguns dos tópicos que sempre vêm à tona nos sistemas de saúde quando falamos no modelo baseado em serviço.

No tradicional modelo de pagamento por serviço, os provedores são pagos pela quantidade de procedimentos que realizam. Com isso, prestadores são estimulados a pedir mais exames e procedimentos, além de serem recompensados diretamente com o volume de atendimento, já que a experiência do paciente não é levada em consideração. Os cuidados baseados em valor surgiram como uma alternativa para substituir o modelo baseado em serviços, já que leva em conta a qualidade, e não a quantidade.

O cuidado baseado em valor é impulsionado por dados, pois os provedores precisam reportar aos pagadores métricas específicas e demonstrar melhorias, tanto em termos clínicos, quanto em experiência do usuário. Nesse modelo, os prestadores são pagos de acordo com os resultados que proporcionam para os pacientes, há medicina baseada em evidências, envolvimento no tratamento, e principalmente correspondência de incentivos entre todos da cadeia.

A transição do modelo de serviço para o modelo de valor entra em um dos maiores desafios financeiros nos sistemas de saúde: como ajustar o pagamento. Há, porém, um grande movimento entre os principais players do setor no desenvolvimento de projetos baseados em valor. Até o final deste ano, segundo a United Healthcare, mais de US$ 65 bilhões serão vinculados, no mercado americano, a contratos baseados em valor. Além disso, à medida que o movimento ganha impulso, projeta-se que a adoção de cuidados baseados em valor responda por cerca de 59% dos pagamentos de cuidados de saúde até 2020, de acordo com o Relatório de Tendências de Cuidados de Saúde 2018 da Aetna.

O conceito não é novo: existe desde 2006, quando Michael Porter publicou o livro Repensando a Saúde: Estratégias para Melhorar a Qualidade e Reduzir os Custos. Desde então, há uma movimentação do setor, especialmente por onde começar a mudança e como fazê-la de forma transparente e justa com todos os elos. O valor é definido como o resultado para o paciente, envolvendo a qualidade do serviço e sua experiência, dividido pelo custo envolvido no tratamento. Os cuidados baseados em valor focam na maximização da equação.

Segundo Porter, a saúde baseada em valor é uma iniciativa de reestruturação dos sistemas de saúde em todo o mundo, cujo objetivo global é ampliar o valor para os pacientes, conter a escala de custos e oferecer mais conveniência e serviços aos clientes. Ele descreve a transformação do cuidado com base em seis elementos inter-relacionados: organizar suas unidades em práticas integradas, medir resultados e custos para cada paciente, mover os pagamentos para ciclos de cuidado, integrar os cuidados entre os serviços de saúde, expandir o acesso a serviços de excelência, e por fim, ter acesso a uma plataforma de TI que atue como facilitadora no processo.

Como as atividades de cuidado são interdependentes, o valor para os pacientes geralmente é revelado apenas com o tempo e se manifesta em resultados à longo prazo. A única maneira de medir com precisão o valor, então, é acompanhar os resultados e custos do paciente de forma longitudinal. O valor move a cadeia a realizar decisões responsáveis e realizar de fato um gerenciamento clínico, com iniciativas que promovam a saúde do indivíduo. Quanto mais coordenado, apropriado e eficaz o tratamento, melhores são as recompensas, e maior é a sustentabilidade econômica do setor.

A questão está longe de ser fácil e envolve assuntos políticos e éticos em seu debate. Enquanto emocionalmente se deseja que médicos realizem todos os procedimentos possíveis para seus pacientes, independente dos custos, racionalmente deve-se pensar que um esforço isolado pode prejudicar centenas de outras vidas, gerar desperdícios ou até situações financeiras irreversíveis para a família do indivíduo.

Como o valor é definido como resultados sobre custos, ele engloba a eficiência. No caso, o modelo baseado em valor está blindado do caminho fácil de se reduzir custos ou realizar subtratamentos. A falsa economia a curto prazo é destrutiva, limita a qualidade e fere o princípio básico de atenção primordial ao paciente.

No livro Entendendo a Saúde Baseada em Valor, os autores destacam os perigos da falta de análise crítica dos procedimentos operacionais padrão, e citam o exemplo do uso disseminado da angiotomografia para diagnosticar embolia pulmonar. Cerca de um terço dos 1,5 milhão dos exames realizados a cada ano nos EUA são feitos para descartar embolia pulmonar. No entanto, o diagnóstico de embolias pulmonares por este método revelou um impacto muito pequeno nas taxas de mortalidade. E expõem as pessoas à radiação e ao agente de contraste intravenoso, o que acarreta algum risco de reações alérgicas e insuficiência renal. Há, sem dúvidas, o desafio de se produzir o melhor atendimento a um custo menor, e ainda, como conectar a qualidade e à ética do cuidado consciente dos custos.

transição para um modelo de valor levará anos, e isso será especialmente provocador para provedores a custo prazo. Cumprir metas baseadas em valor requer que os hospitais diminuam a utilização entre suas populações, reduzindo assim o volume e a receita de seus procedimentos. Com a baixa da receita, os hospitais precisam melhorar as margens o máximo possível, otimizando seus processos e exigindo um bom gerenciamento. Em um ambiente baseado em valor, qualquer investimento para simplificar operações e eliminar o desperdício do sistema vai diretamente para o hospital, não para o pagador.

Não existe um modelo único de saúde baseada em valor que se adapte a todas as situações e instituições. A escolha depende do posicionamento da organização e metas estratégicas definidas. Para citar, as Accountable Care Organizations (ACOs) são unidades de trabalho que focam em equipes de rede para oferecer cuidados coordenados com o menor custo possível. Cada membro compartilha os riscos e incentivos decorrentes do resultado da saúde do paciente, promove melhor qualidade e maior acesso no atendimento.

O gerenciamento de uma organização de saúde precisa ser capaz de tomar decisões sobre o que fazer ou não fazer, sobre como realizar a política de reembolso, sobre qual é o conceito de valor que eles entregarão, além da já conhecida análise de custos e riscos. Para isso, como já dito anteriormente, a saúde baseada em valor tem uma abordagem orientada a dados. E organizados de forma estruturada, não um pool de informações desconectadas e fragmentadas advindas de vários departamentos.

Para a tomada das decisões, os dados ainda devem ser fornecidos de forma contínua. Medir, analisar, relatar e comparar os resultados rigorosamente talvez sejam os passos mais importantes para melhorar rapidamente e fazer boas escolhas sobre a redução de gastos. Medir os custos totais durante todo o ciclo de cuidados de um paciente e compará-los permitirá uma redução de custo verdadeiramente estrutural, através de etapas como realocação de gastos entre tipos de serviços, eliminação de serviços que não agregam valor, melhor uso da capacidade, encurtamento de tempo de ciclo, fornecimento de serviços nas configurações apropriadas e assim por diante.

Em qualquer área, melhorar o desempenho de um setor como um todo só é possível através do alinhamento de interesse entre os players e da premissa da responsabilidade compartilhada. É preciso deixar de lado a lucratividade egoísta, contenção de custos que põe em risco a segurança do paciente e a conveniência política, se o objetivo for verdadeiramente gerar valor para o usuário final e ter um sistema de saúde e sustentável. É claro, para isso é necessário muita transparência sobre as metas e abordagens no desenvolvimento desses modelos.

De forma geral, apesar dos provedores focarem mais em medicina básica de prevenção, eles eventualmente gastarão menos tempo com doenças crônicas. A sociedade se torna mais saudável, reduzindo os gastos globais com a saúde. A mudança de modelos baseados em serviço para valor é um passo importante em direção à assistência médica de melhor qualidade e a gastos mais judiciosos com a saúde.

Pele eletrônica que sente e se cura sozinha

Cientistas da Universidade do Colorado desenvolveram uma pele eletrônica maleável, auto-curável e totalmente reciclável. A e-skin, como é chamada, é feita de um material fino e translúcido que pode imitar a função e as propriedades mecânicas da pele humana através de sensores que detectam temperatura, pressão, umidade e fluxo de ar. Este novo material foi desenvolvido visando aplicações desde áreas médicas a eletrônicos do dia a dia.

Os responsáveis foram professores dos departamentos de Engenharia Mecânica, Química, Bioquímica e Materiais da universidade. A tecnologia tem várias propriedades únicas, como a poliimina, um novo polímero que é atado com nanopartículas de prata para aumentar a sua resistência mecânica, estabilidade química e condutividade elétrica.

Segundo os pesquisadores, se a e-skin for rompida, existe um mecanismo de regeneração por meio de ligações químicas dos componentes presentes nos dois lados da fenda. Desta forma, a matriz é restaurada e a película volta a ser como era antes. Em casos mais graves, a pele pode ser mergulhada uma solução de reciclagem e o material se dissolverá em componentes menores, assim estes podem ser reutilizados para criar novas e-skin.

“O que é único aqui é que a ligação química da poliimina que usamos permite que a e-pele seja autocura e totalmente reciclável a temperatura ambiente”, disse Jianliang Xiao, professor adjunto da Universidade do Colorado. ”Dado os milhões de toneladas de resíduos eletrônicos gerados em todo o mundo a cada ano, a reciclabilidade da nossa e-skin tem um bom sentido econômico e ambiental.”

Um dia, essa pele eletrônica poderá ser usada em próteses, robôs ou equipamentos com superfícies inteligentes, já que é facilmente adaptável a superfícies curvas sem apresentar tensões excessivas. Isso poderia tornar qualquer dispositivo mais realista e funcional.

Por exemplo, se o e-skin estiver envolvido em torno de uma mão protética, seria possível sentir pressão ao segurar uma xícara de vidro. Saber a quantidade de pressão que a mão mecânica está aplicando pode impedir que o usuário esmague acidentalmente a xícara, explicou Xiao.

Voltando às inúmeras possibilidades, a e-skin pode, eventualmente, substituir a cobertura de dispositivos e equipamentos eletrônicos, proporcionando superfícies que são mais agradáveis ao toque e que permitam a interação com o usuário. Imagine o seu smartphone dizendo: “Ei, isso faz cócegas”. As possibilidades são fascinantes e, em alguns casos, um pouco assustadoras.

De qualquer forma, as aplicações são promissoras e a possibilidade de reciclagem é um bônus para a animação dos criadores. Como toda nova descoberta, ainda é preciso muito estudo para a comercialização, mas já é um passo em direção a essa tecnologia.