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O negacionismo científico e a gestão de saúde

By 17 de junho de 2020 Destaques, Gestão, Profissionais

Cientistas debatem regularmente hipóteses e interpretações. É como a ciência funciona e evolui. Mas na esfera pública, um tipo diferente de discordância se espalha através dos meios de comunicação, especialmente online, de forma rápida e sem precedentes – um que desafia conceitos básicos tidos como verdades inegáveis pela maioria dos pesquisadores. O negacionismo da ciência é a rejeição de consenso científico, com frequência a favor de um ponto de vista radical e controverso.

Ele não é um fenômeno novo. Os exemplos incluem desde o terraplanismo a afirmar que certos conservantes de vacinas causam autismo, suportando a ideia de que vacinas são um risco para a saúde pública (apesar dos inúmeros estudos rigorosos demonstrando sua segurança e eficácia).

O negacionismo acontece quando um segmento da sociedade, muitas vezes lutando contra o trauma de uma mudança, se afasta da realidade em favor de uma mentira mais confortável. É comum o emprego de argumentos retóricos que dão a aparência de um debate legítimo quando na verdade não há um. O denominador comum das diversas formas de negacionismo é a rejeição de evidências maciças e a geração de controvérsias que tentem negar o consenso.

A saúde pública, em especial, deve estar ciente das características do negacionismo, a fim de reconhecê-lo e enfrentá-lo. Cinco características podem ser observadas isoladamente ou em conjunto: 1. Identificação de conspirações; 2. Uso de falsos especialistas; 3. Seletividade; 4. Criação de expectativas impossíveis do que a pesquisa pode oferecer e 5. Uso de deturpações e falácias lógicas.

Não é surpresa que uma pandemia que desafia a forma como o mundo funciona traga consigo seus negacionistas. As motivações podem ser diferentes, de acordo com a posição que a pessoa ou grupo ocupa na sociedade, como crenças religiosas, proveito próprio ou como um mecanismo de defesa contra pensamentos científicos ou filosóficos que ameacem o seu poder, seja este comercial, ideológico ou político.

A resposta acadêmica normal a um argumento oposto é se envolver com ele, testando os pontos fortes e fracos das diferentes visões, na expectativa de que a verdade surja através de um processo de debate e experimentação. No entanto, isso exige que ambas as partes obedeçam a certas regras básicas, como a disposição de olhar para as evidências como um todo, de rejeitar distorções deliberadas e de aceitar princípios de lógica. Um discurso significativo é impossível quando uma parte rejeita essas regras.

A medicina, como parte da ciência, segue estas regras. Ou pelo menos deveria seguir. A medicina baseada em evidências é a arte de aplicar o conhecimento científico na prática clínica. Ela integra a experiência clínica com a capacidade de analisar criticamente informações científicas para que se entregue a melhor qualidade assistencial possível. Veja que a experiência médica não é descartada, mas isoladamente é mais fraca que o conjunto de dados que sustentam determinada conduta.

O Wellcome Global Monitor de 2018, maior estudo global de como as pessoas ao redor do mundo pensam e sentem sobre a ciência e os principais desafios da saúde, concluiu que mais diálogo, melhores estratégias de educação e iniciativas de divulgação científica abertas à autocrítica aproximariam a sociedade da academia, reforçando que não basta defender a ciência a partir de posições de autoridade, calcadas na superioridade ou na neutralidade do saber científico.

O departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp publicou em seu Boletim Covid-19 em 8 de junho de 2020 o quanto a difusão de desinformações sobre o uso da cloroquina em março levou a uma corrida às farmácias, ao desabastecimento do medicamento, promoveu a automedicação, elevou o custo dos insumos usados na fabricação e causou acidentes graves. Os pacientes que fazem uso contínuo desse medicamento não conseguiram encontrá-lo nas farmácias e ele foi, e continua sendo, promovido como alternativa para medidas de proteção como o isolamento físico.

A matéria “o negacionismo no poder” da revista Piauí mostra a crise de confiança que atinge, ao mesmo tempo, a ciência e a política. O fenômeno da pós-verdade – esse momento que atravessamos no qual fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que crenças pessoais – é um sintoma extremo dessa crise.

O fato é que o negacionismo ameaça a vida. Aos profissionais de saúde, tanto da área assistencial como de cargos de liderança e administração, cabe seguir o princípio fundamental e mais básico que norteia a medicina e a bioética: Primum non nocere – o princípio da não-maleficência, que reforça o juramento que todos fizeram de evitar riscos, custos e danos desnecessários à vida humana.

Pamela Paschoa

About Pamela Paschoa

Farmacêutica pela Unicamp, atuou por 8 anos como farmacêutica clínica em instituições públicas e privadas. Foi tutora e preceptora de programas de residência multidisciplinar. Hoje atua na produção de conteúdo para portal Saúde Business e na curadoria dos eventos Hospitalar, Healthcare Innovation Show e Saúde Business Fórum.