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O impacto do digital na rede de segurança de populações vulneráveis

By 16 de novembro de 2020 Destaques, Gestão

A pandemia evidenciou globalmente as inequalidades dos sistemas de saúde, especificamente em comunidades carentes. A falta de acesso à instituições que permitam atendimento de qualidade no tempo certo, além do sentimento de descaso e isolamento, podem agravar as desigualdades existentes. 

A Covid-19 forçou o reconhecimento da necessidade de sistemas de saúde mais integrados e que cuidem das populações clínica e socialmente vulneráveis. Agora pode ser o momento que estávamos esperando para colocar em prática modelos de atendimento e pagamento sob a perspectiva da inovação e da centralidade no usuário.

Contudo, com a aceleração das soluções digitais na saúde, na evolução de um modelo presencial para um híbrido, que considera a tecnologia, devemos prestar atenção em quem pode ser deixado para trás. A inclusão das experiências digitais demandam recursos e habilidades que podem aumentar a disparidade já existente em populações desamparadas.

Neste cenário, o qual o digital é considerado, é nítido que os os determinantes sociais da saúde (DSS) precisam ser encarados como componentes fundamentais dos modelos, visto seu impacto nos resultados dos usuários, na qualidade dos cuidados e nos custos médicos. A raça, etnia, nível de renda ou localização geográfica de um indivíduo tem mais influência sobre sua saúde física e mental do que fatores clínicos. 80% de todos os resultados de saúde são devidos a fatores sociais, comportamentais e ambientais. Fatores como violência, insegurança sanitária ou alimentar são englobadas nos cinco domínios dos DSS: estabilidade econômica, acesso e qualidade da educação, acesso e qualidade dos cuidados de saúde, ambiente, e contexto social e comunitário.

Melhorar os resultados de saúde de populações vulneráveis requer uma abordagem coordenada, proativa e comunitária. A coleta dos dados desses usuários continua sendo um desafio para muitas organizações, e assegurar que as informações sejam representativas daquele público ainda é uma barreira. Além disso, muitos provedores, seja pelo sistema público ou privado, não dispõem de tempo e recursos para tirar conclusões significativas e acionáveis a partir de dados de determinantes sociais.

Isso já é nítido desde o ensino formal de medicina, no qual o treinamento é focado em como tratar doenças, e não como prover saúde através dos DSS. As perguntas habituais da anamnese são imprescindíveis, mas outras questões relacionadas aos determinantes permitem uma imagem holística do paciente e ajudam a melhor mapear as suas necessidades.

A lógica por trás da ideia é simples, mas a execução é complexa, dependente de várias partes interessadas, tecnologia, estratégia, e retorno indiretos sobre os investimentos. O compartilhamento de dados através de uma sólida infra estrutura permitiria direcionar os esforços e pensar, de fato, em um cuidado coordenado médico e social. Em um mundo ideal, quebrar o ciclo de privação.

Os usuários fora de uma rede de segurança estão expostos a situações evitáveis que comprometem sua saúde, recebem cuidados inconsistentes, se locomovem de forma errônea no sistema, e majoritariamente adotam um comportamento reativo com a sua saúde. A conta da invisibilidade dessas pessoas, especialmente no Brasil, é paga com a vida ou com dinheiro público mal alocados.

A saúde não é apenas a soma das intervenções administradas durante um único episódio de atendimento, mas inclui a experiência geral do atendimento e os fatores que os pacientes vêem fora das quatro paredes do hospital. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos da Carolina do Norte, por exemplo, implantou uma plataforma de admissão de pacientes, que envia alertas em tempo real aos provedores e coordenadores de atendimento sobre as necessidades sociais individuais dos pacientes. Como parte do projeto, a Carolina do Norte também implantou a primeira rede coordenada (ACO) em todo o estado com uma tecnologia compartilhada conectando prestadores de serviços sociais e de saúde, facilitando a conexão de pacientes com recursos para atender suas necessidades sociais.

Um estudo de 2017 do Massachusetts General Hospital mostrou um exemplo de como a tecnologia poderia contribuir neste contexto. A instituição utilizou técnicas de processamento de linguagem natural (PLN) para ajudar a extrair dados socioeconômicos significativos do prontuário eletrônico e gerir o risco extraclínico daquele paciente. Como as informações DSS são geralmente coletadas dentro do prontuário em um formato não estruturado, em textos livres ou códigos não padronizados, ferramentas como a PNL poderiam ajudar os provedores a obter as informações necessárias para encaminhar os pacientes a serviços sociais críticos, além de guiar o seu fluxo no sistema caso os dados fossem interoperáveis.

Até o encaminhamento poderia se beneficiar de uma rede integrada e focada na comunidade. Por exemplo, uma sinalização positiva para a insegurança alimentar pode receber uma prescrição digital para um banco de alimentos local, que estará aguardando a visita do paciente já com as informações necessárias. Recursos como este, pensados como uma estratégia macro e centrada no paciente já possuem tecnologia para serem implantados.

Um ponto que deve ser considerado sobre o tema é o papel dos médicos, especialmente os médicos de família, responsáveis pela atenção primária. Uma pesquisa da Academia Americana de Médicos de Família de 2018 mostrou que 80% deles sentem que não têm tempo para discutir os determinantes sociais durante as consultas de rotina. Sessenta e quatro por cento disseram que não acreditam ter recursos para fazer algo sobre fatores de risco social, mesmo que possam identificá-los.

A pandemia está despertando um avanço na transformação do cuidado e no olhar holístico no paciente que outrora caminhava a base de pequenos pilotos. É uma oportunidade de ampla mudança em todo o ecossistema de saúde – um sistema melhor, que conecta os cuidados, que instrui as pessoas sobre o momento certo de utilizar cada recurso e que utiliza tecnologias para proporcionar uma experiência de qualidade ao paciente. É um modelo que considera valor, e mais do que isso, um modelo que não existe um “dono” que calcula meticulosamente o retorno para cada dinheiro investido. É um projeto coletivo. Um ecossistema que, sem dúvidas reduz os custos globais, mas principalmente salva vidas.

 

Fernanda Fortuna

About Fernanda Fortuna

Engenheira Biomédica pela Universidade Federal do ABC, Fernanda passou um ano na Escócia estudando Engenharia Mecânica. Após retornar ao Brasil, emprendeu na área de robótica e reabilitação. Apaixonada por tecnologia e saúde, hoje atua na curadoria de conteúdo para os eventos Saúde Business Fórum, Hospitalar e Healthcare Innovation Show.