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Na pandemia, a terceira onda de mortalidade será por doenças crônicas

By 18 de junho de 2020 Destaques, Gestão

Sabemos que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são líderes de mortalidade no mundo. Somente no Brasil, as cardiopatias matam mais de mil pessoas por dia. Ignorar esse cenário enquanto luta-se contra a disseminação do novo coronavírus é perigoso e pode nos levar a uma nova pandemia, dessa vez de mortos por doenças do coração.

O novo coronavírus, não sem razão, gerou um grande medo na população, afastando essas pessoas dos hospitais e dos centros de saúde. E qual o efeito colateral dessa atitude? Uma drástica redução de atendimento cardiovascular nas emergências. No Incor (Instituto do Coração), serviço de referência no Brasil nessa especialidade, a angioplastia primária, que é o principal tratamento para o infarto, vem assistindo a uma queda muito significativa.

Dados da instituição dizem que o número de atendimentos em março deste ano caiu 50% no comparativo com o mesmo período de 2019. Em abril, repetição deste cenário: nos primeiros 13 dias do mês o Incor realizou apenas nove angioplastias primárias, sendo que a média mensal é de 40 procedimentos. Qual o impacto dessa queda na mortalidade por doenças cardiovasculares? Em breve teremos essa resposta, e a perspectiva não é nada positiva.

No hospital em que atuo, hoje atendíamos cerca de 16 mil pacientes por mês na emergência, atualmente estamos atendendo 3 mil a cada 30 dias. O que percebemos é que estamos seguindo o mesmo caminho tortuoso que já foi trilhado em território norte-americano. Nos Estados Unidos, os paramédicos das ambulâncias declararam um aumento muito expressivo no número de casos de morte súbita em casa. O mesmo aconteceu na Espanha e na Itália. Precisamos aprender com a experiência alheia para evitar a repetição desta triste realidade.

Estamos vivendo, nesse momento, a primeira grande onda da pandemia, que é a de infecções pelo novo coronavírus. A segunda onda, que em breve se instalará, será baseada nas complicações criadas pela Covid-19. E, se não nos cuidarmos agora, a terceira onda será a de doenças crônicas negligenciadas ou diagnosticadas tardiamente.

Por isso, precisamos reforçar para que a população fique em casa se puder, mas se tiver dor no peito, suor frio, palpitação irradiada para o braço esquerdo, por exemplo, que vá para o hospital. Que procure atendimento. O infarto do miocárdio pode matar, mas se diagnosticado a tempo tem altas chances de tratamento.

Sabemos que apontar as falhas e identificar os problemas é fácil e que o difícil é trazer a solução. Mas com um esforço coletivo podemos sugerir uma nova abordagem que reverta a situação e nos permita cuidar dos pacientes cardiopatas ao mesmo tempo em que os sistemas de saúde se dedicam a conter a Covid-19.

Sobre o autor

Marcelo Queiroga é presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia

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