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Sistema de saúde: uma questão coletiva ou individual?

By 28 de fevereiro de 2020 Destaques, Eventos, Hospitalar, Mercado

“A discussão do modelo de cuidado, da forma como se apresentam as relações econômicas, é uma realidade que finalmente o setor está assumindo como uma questão a ser resolvida” disse Fábio Gastal, coordenador científico do CISS – Congresso Internacional de Serviços de Saúde. O CISS é o encontro para discutir os grandes temas da saúde, uma oportunidade de democratizar as informações do setor, com troca de experiência entre gestores e líderes da área de vários países.

Gastal conta que existe um processo histórico, que nos últimos 30 anos tentou organizar o sistema de saúde do país: de um lado uma série de problemas, do outro, entregas muito relevantes para a população. Nessa perspectiva de aperfeiçoamento contínuo, o Brasil está finalmente chegando, na sua opinião, às discussões microeconômicas. Ao contrário das amplas discussões estratégicas, pauta das discussões dos sistemas de saúde até então.

“A medida que o Brasil começou a resolver suas questões econômicas, como o controle da inflação e queda dos juros, se criou um ambiente favorável à discussões consistentes das relações microeconômicas entre fontes pagadoras e prestadores”, explica. Hoje existem relações distorcidas de cuidado, em modelos que não visam a saúde do paciente, e uma das saídas para melhorar a qualidade assistencial, é entender a lógica de remuneração de médicos, hospitais e serviços de saúde.

Segundo ele, no Brasil, ainda mantemos no setor privado majoritariamente o sistema fee for service, absolutamente estruturado e tradicional, como era há 50 anos na Europa e Estados Unidos. “Beira à corrupção. No sentido de não estar sendo estimulado para fazer boa medicina, mas sim, medicina volumosa. Muito procedimento, muita consulta, muito atendimento. Porque se remunera pelo muito e não pela qualidade entregue.”

O cuidado centrado no paciente, com o usuário no lugar certo é um dilema postergado. No Brasil, a orientação das portas de entrada se torna particular especialmente pela dicotomia do coletivo versus soberania individual, apresentada pelo Sistema Único de Saúde e pelos Planos de Saúde. Nos países que se envolveram e se comprometeram com o processo de transformação do setor de saúde, uma das primeiras discussões foi: o que é coletivo e o que é individual. É um dilema estrutural, que se não resolvido, impossibilita a criação de políticas públicas e sociais”. Um exemplo citado é o das vacinas. Há uma tendência de queda da cobertura vacinal em função das fake news, é o paradigma individual acima do coletivo. O processo de imunização é importante para o bloqueio imunológico, não interessa se o indivíduo gosta ou não de agulha. A segurança coletiva está acima dos desejos de cada pessoa.

Gastal diz que é a mesma lógica para o sistema de saúde. A medicina privada ficou praticamente 10 anos parcialmente regulada, da sua criação até 1999. E surgiu com um posicionamento competitivo, em relação ao sistema público, de que cada um faz o que quer, desde que pague a sua mensalidade.

Então, a partir do momento que a promessa fundadora da medicina suplementar tem como o predomínio do paradigma individual, vira uma conta atuarial contratual – referente à expectativas e riscos. “Isso quer dizer que os preços precisam ficar livres. Quando se criou a ANS, o paradigma coletivo decidiu regular a saúde privada no Brasil. A grande discussão hoje é, se nós queremos um bom sistema privado de saúde para a população, não é possível oferecer na lógica do individual”

O conceito de financiamento de saúde é mutualista, no qual o coletivo paga pelas ações individuais. Por mais diversas que sejam as modelagens, não se pode vender para o usuário a perspectiva que ele pode fazer o que quiser. Para um bom sistema de saúde, é necessário que o percurso seja orientado. Que exista um médico de família, de atenção primária, que faça o projeto de cuidado desse usuário, oriente e proteja.

Por mais informado que o usuário seja como indivíduo, ele não tem conhecimento suficiente para fazer o percurso assistencial correto dentro do sistema de saúde de acordo com as suas reais necessidades. Gastal dá o exemplo das especialidades de prateleira, no qual o beneficiário acha que está precisando de um psiquiatra, vai lá e “pega”, sem ninguém para o orientar se esta é a melhor escolha. “Isso é ruim para a saúde dele, as evidências científicas mostram. O custo também fica insustentável, vide o modelo americano. As empresas dos Estados Unidos já entenderam que se elas deixarem essa lógica de supermercado se perpetuar, elas não vão conseguir se manter.”

O serviço de atenção primária, de certa forma, faz esse papel de coordenação de cuidado e percurso dentro do sistema de saúde. O coordenador científico cita que chegamos a um nível de capacidade, que da mesma forma que o sistema é capaz de coisas incríveis, se mal utilizado, existe um risco brutal. Existe uma ilusão equivocada que beira a alucinação.  As pessoas acham que tudo que fazemos em termos de saúde é inócuo, que não existe risco. O hospital é um ambiente de altíssimo risco. Então a medida que se entende a existência de um risco inerente, qualquer coisa que se faça em termos de intervenção médico assistencial, é importante existir uma orientação.

Em países da Europa Ocidental, o modelo médico é mais estruturado e a presença do Estado é maior na vida das pessoas. Se o usuário não se registra na Seguridade Social ou não se apresenta no posto do médico de família, não é possível pagar uma conta de luz, por exemplo. Os serviços estão associados e o paradigma coletivo está acima do individual.

Nos Estados Unidos e no Brasil, não há essa clareza social, então existe a necessidade de se inventar modelos para atrair a população a pensar mais racionalmente em seu cuidado. Formas mais inteligentes de utilizar os recursos disponíveis. Isso mostra que o problema da saúde hoje é muito mais político, comportamental e cultural, do que realmente tecnológico.

Para saber mais sobre o tema e os caminhos que estão sendo trilhados no mundo em relação à soluções mais virtuosas de relacionamento dentro do setor, participe do CISS 2020, na Feira Hospitalar. Saiba mais pelo site.

Fernanda Fortuna

About Fernanda Fortuna

Engenheira Biomédica pela Universidade Federal do ABC, Fernanda passou um ano na Escócia estudando Engenharia Mecânica. Após retornar ao Brasil, emprendeu na área de robótica e reabilitação. Apaixonada por tecnologia e saúde, hoje atua na curadoria de conteúdo para os eventos Saúde Business Fórum, Hospitalar e Healthcare Innovation Show.