This site is operated by a business or businesses owned by Informa PLC and all copyright resides with them. Informa PLC's registered office is 5 Howick Place, London SW1P 1WG. Registered in England and Wales. Number 8860726.

IA e a Destruição Criativa da Saúde

“Às vezes eu fico impressionado com o fato de ter uma conversa com alguém sobre inteligência artificial (IA) e perceber ao final que estávamos falando sobre coisas diferentes”, disse Tom Lawry Diretor Nacional de IA para Saúde da Microsoft em sua participação no Omnia Health Live, maior evento digital de saúde do mundo, que ocorreu entre 22 e 26 de junho.

No mundo real, a IA muitas vezes assume a forma de algoritmos que permitem a previsão de situações, sejam elas financeiras, clínicas ou operacionais, e os contextos que levam a isso. Porém a inteligência artificial se manifesta em muitas outras áreas, como o crescimento quase exponencial em aplicações de reconhecimento de linguagem e visuais. A combinação desses atributos cria oportunidades nunca antes vistas na saúde. Quando se analisa usos típicos de dados, basicamente se está olhando para o retrovisor, sobre o que aconteceu ou porque isso aconteceu, com análises descritivas e diagnósticas. Quando se entra em áreas avançadas, pode-se prever o que acontecerá e alterar variáveis baseada em dados e conduzir o cenário para a situação desejada em um caminho otimizado.

Nos anos 50, um médico recém formado teria uma carreira inteira antes de acumular o dobro de conhecimento da sua graduação. Hoje, estamos vendo o conhecimento médico dobrar a cada 73 dias, em média. Isso significa que nem o melhor profissional seria capaz de lidar com tanto conhecimento. É um caso de oportunidade e desafios escolher como melhor utilizar essa capacidade, e onde está exatamente a proposta de valor dos dois lados, o humano e a máquina.

“As discussões sobre IA geram grande interesse e muitas vezes seguem a linha aspiracional. A minha premissa é que isso não é sobre o futuro, é sobre o que estamos fazendo hoje para alavancar a próxima grande mudança”. Segundo ele, um dos exemplos é a Covid-19. Houve muita atividade dos cientistas e pesquisadores no uso de IA em decorrência da pandemia, e soluções como bots que processavam massivas quantidades de informações, ajudaram organizações como o centro de Controle de Doenças americano (CDC) e diversos hospitais no mundo na triagem, por exemplo.

Ao mesmo tempo, sabemos que os consumidores já estão operando em outro momento, e as expectativas de demanda já não são as mesmas. Oitenta e cinco por cento das pessoas conectadas na internet passam, em média, 6h30min online por dia em seus celulares. Para citar, os millennials são a segunda maior base de segurados dos EUA, e ainda assim, só 6% deles possuem um médico de família. Muitas questões decorrem deste dado, já que para uma consulta com um especialista, é necessário passar por um médico primário anteriormente. Essa geração é pouco influenciada pelo modo com que o sistema de saúde tradicionalmente funciona, e é duas vezes mais suscetível a tomar decisões baseadas em conselhos expostos em mídias sociais do que a média.

O termo ‘destruição criativa’ foi usado por Eric Topol em 2013 no seu livro “The Creative Destruction of Medicine” que fala sobre como a revolução digital cria uma melhor forma de cuidado em saúde, projetado para atender às necessidades exclusivas de cada indivíduo. Mas a teoria foi criada nos anos 40 pelo economista austríaco Joseph Schumpeter que descreve um ciclo econômico contínuo em que a introdução da inovação radical nos sistemas tradicionais se torna a força de sustentação para o crescimento a longo prazo. E que o crescimento vem apenas pela destruição do valor estabelecido no sistema.

Tom diz que é importante deixar claro que isso não diz respeito a mudar a missão de uma organização ou diminuir o papel humano no conhecimento, mas sim em mudar drasticamente a forma com que o trabalho é realizado, tornando-o inteligente. Os sistemas de saúde já estão no caminho para se utilizar das vantagens estratégicas que os dados podem gerar através da mudança em como o paciente é exergado e se empenhando em proporcionar a melhor experiência em todos os pontos de contato do usuário.

“Ocasionalmente, quando estou trabalhando com líderes, ouço eles falarem sobre dados como a nova moeda para a saúde. Isso é um ótimo conceito, mas eu pergunto: a sua organização está gerenciando os dados da mesma maneira que gerencia as finanças?”, e continua, “O objetivo de ter propriedade dos dados é facilitar e tornar mais rápidos os ganhos com as análises, estimular a inovação, capacitar funcionários, envolver os usuários, otimizar operações e transformar serviços repetitivos em escala”. A diferença entre fazer alguns pilotos e ter comprometimento de fato é a dimensão e o cuidado no gerenciamento que se tem com os dados.

Tom dá o exemplo de uma demanda hospitalar com objetivo de utilizar IA para reduzir eventos adversos fora da UTI. Geralmente é uma situação de alta, após um procedimento e, de repente, algo acontece. E se pudéssemos utilizar IA em tempo real para prever quais pacientes estariam em perigo, monitorá-los e identificar quais são os riscos para mitigá-los? Ele conta que foi feita uma prova de conceito e foi obtido um resultado de 60% em redução de eventos adversos fora da UTI. “É uma vitória assistencial e financeira, mas é importante notar que 60% é uma média estatística”, disse. É importante garantir que não apenas a correlação esteja correta como também esteja produzindo resultados sem vieses, seguindo os princípios éticos da inteligência artificial.

O sucesso envolve muito mais do que escolher as ferramentas certas, ter uma infraestrutura adequada ou a contratação de cientistas de dados. A transformação demanda que os líderes pensem e ajam de forma diferente. “O que me lembra da frase: eu sou totalmente a favor da mudança, desde que você faça primeiro”. O objetivo é ter diversas iniciativas interdependentes e que se cruzem ao longo do caminho para reinventar o modelo de entrega de serviços baseado em dados como recursos estratégicos. Para ele, a maior dificuldade é o trabalho no plano ambidestro, no qual se busca a transformação ao mesmo tempo que decisões prudentes sobre qualidade e sustentabilidade são tomadas.

“Quando se trata do uso de IA na saúde, eu não consigo pensar em um melhor momento do que este para ela mostrar as suas capacidades. Ainda mais se tratando de uma área com desafios implacáveis como essa”

Fernanda Fortuna

About Fernanda Fortuna

Engenheira Biomédica pela Universidade Federal do ABC, Fernanda passou um ano na Escócia estudando Engenharia Mecânica. Após retornar ao Brasil, emprendeu na área de robótica e reabilitação. Apaixonada por tecnologia e saúde, hoje atua na curadoria de conteúdo para os eventos Saúde Business Fórum, Hospitalar e Healthcare Innovation Show.