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Colaboração entre gerações pode levar a sucesso de startups

By 10 de março de 2015 Empreendedorismo

Todos os dias esbarramos em algum artigo ou reportagem contando a trajetória de êxito de startups criadas Brasil adentro e mundo afora.

Seus talentosos e jovens fundadores relatam tropeços pelo caminho mas, ao final, a impressão que fica é que a determinação frente aos percalços acaba virando o jogo.

Seria tudo simples assim se certas estatísticas não mostrassem que há uma distância, nada desprezível, entre o “mundo dos holofotes” e a realidade de milhares de empreendedores anônimos dando os primeiros passos com suas startups.

Inexperiência à flor da pele

Para inicio de conversa, 30% dos empreendedores digitais no Brasil já tiveram uma empresa que fracassou e teve de ser fechada. O que motivou o insucesso?

Previsões equivocadas e decisões tardias. Sim, erros típicos da inexperiência de quem estava à frente do negócio, que aliás pesaram mais que problemas com o fluxo de caixa.

No caminho dos que experimentaram o gosto amargo do fracasso ou dos que estão dando o sangue para ver sua primeira incursão no “planeta startup” dar certo, as mesmas “pedras” são apontadas como obstáculos pelos jovens empreendedores: a falta de traquejo comercial e o conhecimento escasso, feito fio d’água, em outras áreas vitais como contabilidade, estratégia, programação, jurídico e finanças.

Números que não mentem

Mais que observação empírica, esse quadro foi revelado pela recém divulgada pesquisa Perfil do Empreendedor Digital Brasileiro, realizada pela aceleradora 21212, Endeavor e a revista Pequenas Empresas Grandes Negócios.

Um outro levantamento feito pelo Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral já apontava, em 2013, que 25% das startups no país morriam ainda no primeiro ano de vida enquanto outras 50% sucumbiriam em quatro anos.

Vale a pena percorrermos um pouco mais esse terreno das áridas estatísticas para aqui, juntos, entender melhor porque uma nova geração de startups tem apostado em outra fórmula para driblar a inexperiência da maioria de seus criadores.

Sem contato anterior

No Brasil, a idade da maioria dos fundadores de startups gira em torno dos 20 e poucos anos e não ultrapassa os 35.

Em comum, eles têm a vontade de tocar um negócio próprio para fazer o que gostam, ou por ter identificado um nicho promissor de mercado ou por acreditar que tiveram seu “momento Eureca”, encontrando soluções inovadoras para problemas que impactam negativamente a sociedade.

Méritos à parte, 54% dos jovens brasileiros que hoje empreendem no mercado digital nunca antes tiveram contato com uma startup.

Note que 63% das startups do mercado digital no Brasil têm como público-alvo clientes corporativos. Seus negócios estão focados no B2B (negócios para negócios, em inglês) e no formato SaaS (software como serviço), especialmente nas áreas de pagamento, gestão e eventos.

Todos com a mesma queixa

Dissemos, acima, que não foi a ausência de investimento, mas falhas na execução que motivaram o fechamento de muitas startups – 27% dos respondentes da pesquisa realizada pela aceleradora 21212, Endeavor e revista PEGN apontaram essa causa contra 21% por falta de capital.

Não é diferente a situação de quem está com um negócio ainda ativo. A queixa apontada como obstáculo diário por jovens que estão à frente de suas startups também é a falta de experiência, sendo as áreas mais nevrálgicas a comercial, de estratégia de negócio, contabilidade, programação, jurídico  e finanças.

O fato é que mesmo projetos geniais não têm como sobreviver se essas lacunas persistirem.

Por que há tanta resistência?

No Brasil, mais de um terço dos empreendedores do mercado digital não tem intenção de vender o negócio – abririam mão apenas de uma pequena fatia para um investidor com o único objetivo de crescer mais rápido.

No outro extremo, só uma minoria demonstra total desprendimento frente à possibilidade de se desfazer da startup.

Outros tantos empreendedores pesquisados disseram relutar em abrir mão, mesmo que de uma porção pequena da startup em troca de aporte financeiro.

Uma pista para entender esse comportamento resistente é que diferente do que acontece, por exemplo, nos EUA e Europa, os investidores brasileiros não “jorram” dinheiro nas startups.

Para ter uma ideia, só 5% delas recebem de R$ 500 mil a R$ 1 milhão de aportes. A maioria fica nessa faixa –  42% de R$ 100 mil a R$ 500 mil e 38% até R$ 100 mil.

Time qualificado, essencial desde o inicio

Independente de o empreendedor estar mais ou menos disposto a se desfazer de fatias de seu negócio, o gargalo na primeira etapa de vida de uma startup se relaciona muito mais á qualidade da formulação da estratégia e sua execução.

“Manter o crescimento acelerado é fundamental para uma startup. Mas sustentar o ganho de escala nos primeiros meses, quando o empreendedor não dispõe de muito capital ou de um time qualificado pode ser bem difícil”,  destaca Juliano Seabra, da Endeavor.

O time qualificado a que Seabra se refere é o de gente experiente em todas aquelas áreas vitais, como comercial, contabilidade e jurídico, reveladas pelos entrevistados como seus pontos fracos na pesquisa citada.

Manter colaboradores top, com carteira assinada ou como prestadores de serviços, é inviável para a maioria dos fundadores de startups – 78% usam recursos próprios que não ultrapassam R$ 100 mil para criar suas startups. Sme contar que muitos cumprem dupla jornada de trabalho, mantendo seus empregos enquanto sua empresa nascente não conquista certa maturidade.

Diversidade já na origem

Já estamos mais que no momento de pensar e fazer diferente, como apostar seriamente na alternativa de “aumentar” a diversidade etária e de expertises dos fundadores das startups. Explico.

A lógica do conhecimento intuitivo, que faz os jovens empreendedores anteverem necessidades e dar saltos disruptivos na forma de conceber produtos e serviços, é o que diferencia as startups de outros empreendimentos.

Esse capital intelectual é grandioso, mas a taxa de mortandade que hoje ronda as startups mostra que, sozinho, esse valor intangível pode facilmente ir à lona, como Davi fez com Golias…

Conselho perigoso para um jovem empreendedor

É muito comum ouvir dos que estão no comando de aceleradoras e fundos de investimento esse comentário:

“Os jovens empreendedores vão conseguir resolver os obstáculos do dia a dia com o tempo,  colocando a mão na massa.”

Venhamos e convenhamos, as dificuldades na área comercial – a queixa campeã entre os que fecharam as portas de suas startups e também os que estão “ralando” para fazer seu negócio vingar – vira uma mistura explosiva quando combinada a esse outro ingrediente, o tempo, que o jovem empreendedor levará “quebrando a cabeça” para  aprender” a arte de vender.

Primeiro, para dar conta do recado na área comercial, o jovem empreendedor terá de ter uma boa rede de contatos na manga.

Mais: pela natureza inovadora do que sua startup oferece, ele terá de fazer uma venda do tipo consultiva, ou seja, pesquisar a fundo e saber ouvir atentamente as necessidades dos potenciais clientes para compatibilizá-las com o novo produto ou serviço que pretende vender.

Aposte nesse novo modelo

Já participei de reuniões em que o ímpeto juvenil dos empreendedores os fazia descrever com enorme entusiasmo todos os aspectos “revolucionários” do que ofereciam, mas por não fazerem uma sólida conexão com as necessidades imediatas de seus interlocutores, não conseguiram sequer marcar uma segunda rodada de conversas, quanto mais fazer uma venda!

Não tenho dúvida de que esses empreendedores estavam “colocando a mão na massa” e empenhando suas melhores capacidades para superar certas limitações. Mas desconfio da validade daquela “estratégia” fartamente alardeado junto a startups que estão dando literalmente seus primeiros passos. Tempo é o que essa essa “galera’ não pode se dar ao luxo de desperdiçar, assim como a experiência de que precisam não vem por osmose.

Ainda é como um fio d’água, mas acredito que tem tudo para virar um rio caudaloso a corrente dos que defendem, como eu,  a composição intergeracional das startups.

É essa a ideia, a startup ter como fundadores pessoas de diferentes gerações com expertises vitais e complementares para o negócio andar bem e rápído desde o inicio,

Perceba que esse “DNA intergeracional” é algo bem diferente de uma pessoa mais experiente que, de fora da startup, dá tutoria na fase de incubação ou o investidor que dá mentoria na aceleração do negócio.

Conhecimento intuitivo + inteligência de mercado

As deficiências que as pesquisas revelam como causa mortis ou sério obstáculo ao bom desenvolvimento das startups tem a ver com a escassez de certos aprendizados humanos que só o tempo consegue moldar nas pessoas. Quer exemplos?

Ter uma sólida rede de contatos e traquejo para perceber sutilezas em uma reunião comercial – e saber driblar do jeito certo as resistências não expressas – dependem de um certo tempo para ser construídas em uma pessoa.

Nesse contexto, parece-me que a tal recomendação de “meter a mão na massa para aprender com o tempo” só faz sentido quando há complementação e troca de legados entre os fundadores de uma startup, o que por sua vez cria um ambiente de riscos controlados, algo fundamental para quem resolve empreender.

Circulo virtuoso para empreendedores e investidores

O conhecimento intuitivo dos jovens somado à inteligência de mercado de quem já tem anos de estrada me parece a equação virtuosa para que uma startup seja rapidamente acelerada e tenha vida longa, tendo em vista que, no Brasil, a maioria dos empreendedores deseja se manter à frente do negócio.

Mais: essa associação intergeracional pode tirar as startups mais rapidamente daquela zona inicial de fragilidades.

Uma empresa nascente de “DNA intergeracional” também alcançará autonomia e maturidade mais velozmente, o que se traduzirá em um valor de mercado maior. Essa realidade pode incentivar aqueles fundadores mais resistentes a vender porções mais generosas de seu negócio.

Para os investidores, será possível alçar voos maiores na fase de aceleração, tendo em vista que a startup terá alcançado um estágio mais maduro para receber aportes financeiros também mais robustos.

Aqui e agora

Não tenho ilusões. Sei que não é tarefa fácil engrenar as mentes e corações de Baby Bommers e os representantes das gerações  X, Y e Z para que criem e desenvolvam a quatro mãos esse novo modelo de startup.

Mas todos nós que nos interessamos por inovação colaborativa e negócios de impacto social não podemos calar diante dessa fantástica possibilidade: as startups são ecossistemas disruptivos, com força para romper todas as barreiras, inclusive esta que é óbvia.

Por aumentar sua capacidade de sobrevivência, é natural juntar talentos de diferentes gerações para impulsionar esses negócios que têm mudado a lógica do mundo neste século 21.

Frederico Lacerca, sócio-fundador da 21212  acredita que a tendência é que em cinco ou dez anos tenhamos, no Brasil, empreendedores mais bem preparados. “Ou porque erraram e aprenderam com o fracasso, ou porque acertaram e venderam a empresa”, destaca.

O fato é que dá para anteciparmos esse futuro.

Errando menos e acertando mais, as startups de DNA intergeracional podem começar a fazer a diferença desde já.

Afinal, neste Terceiro Milênio a vida será longa para todos. Homens e mulheres centenários engrossarão cada vez mais as estatísticas demográficas. Muitos não se deram conta, mas já colocamos o pé na era da “Idade Eterna”, como analisa John Elkington.

Então, por que além de viver e conviver por longas décadas, não podemos também empreender todos juntos e misturados, aqui e agora?

Simone Jardim

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