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O risco das sanções comerciais internacionais por conta do preconceito sanitário

By 12 de junho de 2020 Colunas, Mercado

Novo Normal Pós Pandemia Misturado com Recessão Econômica Mundial Poderá Prejudicar o Brasil

Fonte: Geografia Econômica da Saúde no Brasil

Utilizando a figura para fazer analogia entre o risco pós pandemia e a febre aftosa em rebanhos:

·         Organizações internacionais classificam as regiões em todo o mundo de acordo com critérios que sinalizam a segurança que o comprador de carne bovina necessita em relação à contaminação;

·         O mapa já ilustra que o critério regional é muito discutível, porque as fazendas não são tão “federalizadas” como é a organização geopolítica – nas regiões de fronteiras não é o fato de atravessar um córrego que determina a sua competência sanitária.

Um critério técnico, misturado com interesses comerciais, gera implicações:

·         Um país pode comprar carne de um estado brasileiro e não comprar de outro;

·         A articulação do agronegócio para que um evento pontual não destrua o selo de qualidade de um estado inteiro exige enorme esforço dos produtores, governo …;

·         Imagine se o país maior importador verificar que o maior estado produtor de gado estiver fora do critério de segurança … o prejuízo para o agronegócio é imensurável !

O mais interessante:

·         O fato de não haver certificação de vacinação não implica em que o gado esteja contaminado;

·         O critério não impede a ação do comprador … se ele quiser, fica por sua conta e risco;

·         Ou seja, como em várias situações, algo definido tecnicamente pela ciência pode ser tratado de forma diferente, dependendo do interesse econômico.

Começando a introduzir a discussão em relação ao COVID-19, estamos anos-luz de distância do que deveríamos estar fazendo para mitigar um risco que, caso se materialize, trará consequências desastrosas para a recuperação econômica do Brasil:

·         Nem é necessário lembrar que entre o que o governo federal pensa e está fazendo, e o que os estados pensam e estão fazendo existe uma enorme diferença;

·         Mas é necessário lembrar que mesmo dentro de um único estado as prefeituras estão fazendo uma grande lambança: uma fecha o comercio, outra não … em uma é obrigatório usar máscara, em outra não … em uma o transporte coletivo tem regras rígidas, em outra não … tem até prefeitura definindo protocolo de uso de medicamento não recomendado por organizações internacionais, e pela secretaria de estado da saúde;

·         Em regiões metropolitanas temos uma cidade praticamente dentro da outra (São Caetano do Sul e São Paulo, por exemplo) com regras diferentes de enfrentamento da pandemia !!!

Todos já estão se acostumando a ver gráficos assim:

·         Definem regiões onde o isolamento social é maior ou menor … amarelinho, bom … vermelhinho, ruim;

·         E todos já devem ter concluído que os critérios de coloração são absolutamente políticos, por pressão de grupos econômicos;

·         Estão tão longe de serem técnicos que vemos a mídia gastando mais tempo em distorções do que em previsão do tempo;

·         Sistematicamente denunciando que em locais onde o pico da doença está começando agora, o governo local, com base em uma “fórmula tabajara que nem o Einstein conseguiria entender”, está resolvendo flexibilizar as medidas de isolamento !

Já estamos presenciando stress entre países europeus:

·         Alguns estão começando a abrir fronteiras, mas com restrição a determinados países do bloco que “não se comportaram bem”;

·         O gráfico ilustra (apenas uma mera simulação sem respaldo técnico) o que vamos começar a ver na Europa;

·         Países que não adotaram isolamento social (ex: Suécia), ou adotaram o isolamento tardiamente (RU), países que nem tabulam dados sobre a doença e o mandatário se apresenta como se nada estivesse acontecendo (Ucrânia) … estes países sofrerão discriminações “de imagem sanitária” por parte dos demais;

·         Países que adotaram atitudes exemplares de enfrentamento (Alemanha, Portugal, Suíça …) não terão este problema no “novo normal”.

Em breve seremos bombardeados com mapas deste tipo classificando países de todo o mundo em relação ao risco sanitário … até que uma vacina exista … e que ela seja eficaz para as eventuais mutações do vírus que ainda não sabemos se existem.

Mapas que vão orientar:

·         Um estrangeiro a se aventurar no país para fazer negócios, ou para visitar (turismo);

·         Um governo, ou empresa, adquirir produtos com risco de estarem infectados;

·         Definição de rotas internacionais (portos, aeroportos, estradas intercontinentais …);

·         Investir em negócios em um país no qual a doença ainda tem uma sobrevida maior … o risco de investir em qualificação de uma mão de obra que irá a óbito.

Sob esta visão, infelizmente, o Brasil está com uma das piores “imagens sanitárias” entre todos os países do mundo – basta ver os sites dos jornais de todo o mundo para ver como o Brasil está sendo “esculachado”:

·         Mesmo aqui na América do Sul, um dos continentes mais atrasados do mundo, estamos “mal na fita”;

·         Nossos vizinhos, com muito menos recursos que nós, estão cuidando da sua imagem muito melhor que nós;

·         Diferente da febre aftosa, é pouco provável que os mapas de riscos para o resto do mundo considerem estados da federação … somos vistos “como um só corpo” … pouco importa se estão prendendo gente sem máscara no Sul e deixando pessoas fazerem festa no Centro Oeste … pouco importa a relação per capita … a imagem internacional é do Brasil e não dos pedacinhos dele.

O problema maior é que como estamos iniciando uma forte recessão mundial, vamos ter que lidar com algo que não poderemos reverter:

·         Grupos de interesses comerciais de todos os países do mundo vão se utilizar de todos os recursos possíveis para proteger seus negócios;

·         Em meio a uma repressão … fome … miséria … vai valer tudo.

Então, por exemplo:

·         Poderá a “indústria do turismo” Europeia induzir os europeus a refletirem se devem conhecer o litoral de Portugal, país exemplo de enfrentamento COVID-19, ou se devem “vir pegar uma praia no Brasil” onde as pessoas estão morrendo sem diagnóstico confirmado, o isolamento social não é campanha do governo central e as pessoas nem usam máscaras porque acham exagero;

·         Poderão os países importadores de carne bovina dar preferência ao gado Argentino, país pintado de amarelo, do que o Brasileira, país pintado de vermelho;

·         Poderão investidores preferir montar uma indústria no Paraguai, pintado de amarelo, do que no Brasil.

Vamos assistir acirradas disputas comerciais, tendo como pano de fundo a questão sanitária – exemplo:

·         Vimos os Estados Unidos abrir frente comercial contra a China há alguns anos atrás e depois um “entendimento” quando os interesses se alinharam;

·         No início da pandemia uma nova crise, e depois de alinhada a questão do fornecimento dos suprimentos (máscaras, respiradores), um “entendimento”;

·         Agora nova crise em relação à origem do vírus e a transparência de informações sobre infectados.

Culpar a China pelo COVID-19 não é uma discussão técnica … se fosse:

·         Se existe um país que pôde enfrentar a pandemia da melhor maneira possível no mundo, evidentemente este país é a China;

·         O fabricante mundial dos equipamentos e insumos não teve problemas para se equipar contra o vírus … é muito esperado que haja um número infinitamente menor de óbitos nos países que conseguiram se equipar melhor;

·         E os orientais (todos eles) diferentes dos ocidentais são disciplinados em relação às determinações do governo, e muito mais respeitosos em relação aos próximos … é uma questão tradicional de educação e cultura … só quem conviveu muito com eles pode entender (tive esta sorte);

·         É evidente que os resultados de ações sanitárias na China, Japão, Coréia … tendem a ser muito melhores do que em países onde pessoas sem qualquer formação em saúde opinam sobre o que não sabem, e se rebelam contra as ações de enfrentamento à pandemia !!!

A briga EUA x China serve de exemplo para o que pode acontecer com o Brasil no “novo normal pós pandemia”:

·         Certamente alguns países se utilização da “imagem sanitária brasileira” como argumento para resolver diferenças políticas, ideológicas e comerciais;

·         Praticarão políticas protecionistas da sua economia para descumprir contratos, justificar para a população maior gasto no mercado local do que em importações com o Brasil …;

·         E a história comprova que não vai adiantar recorrer à OMC – no mundo dos negócios “manda quem pode e obedece quem tem juízo” … sempre foi assim !

Claro que tudo isso pode ser apenas uma previsão pessimista … vamos então ser otimistas: nada disso vai acontecer, e quando acabar a pandemia “todo mundo vai ajudar todo mundo” … os países desenvolvidos terão compaixão com o Brasil … os Estados Unidos vão dividir os investimentos entre a recuperação do próprio país e o resto do mundo, especialmente os das Américas Central e do Sul por quem historicamente sempre tiveram muito apreço … os produtores do agronegócio europeu voluntariamente vão se sacrificar por um período de tempo para ajudar nosso agronegócio a não entrar em colapso a ponto de fabricarem menos vinho para consumir os do sul do nosso país !!!

Ou entender que o risco é real, e neste cenário de “nenhuma preocupação” com a imagem sanitária do Brasil para o mundo por parte do governo, nos prepararmos para uma “grande  emoção” !

Enio Salu

About Enio Salu

Histórico Acadêmico·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo·  Pós Graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas·  Professor em Turmas de Pós Graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós Graduação em Administração Hospitalar da Fundação UnimedHistórico Profissional·  CEO da Escepti Consultoria e Treinamento·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas·  Associado NCMA – National Contract Management Association·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Própria·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado