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Fórmula Inovadora para o Nordeste (Parte II)

By 20 de outubro de 2011 Colunas

Para ver a parte I desse artigo, clique aqui.

Geralmente boas idéias na área de informática não precisam ser avaliadas por autoridades como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ou a U. S. Food and Drug Administration (FDA) sobre seus possíveis efeitos tóxicos ou colaterais, embora como se sabe, algumas delas já causaram e podem vir a causar enorme repercussão e colapso social, o que indiretamente poderá prejudicar a saúde de milhões de pessoas de modo simultâneo e, ironicamente, com apenas alguns leves “clics” no mouse.

Talvez o que precisamos é estudar e aplicar alguns modelos que funcionem. Sim, claro, não apenas os eficientes modelos matemáticos criados pela turma da física e da bioinformática. Também modelos reais como é o caso notório de Israel e que, penso, merece ser citado aqui.

Praticamente com a mesma área territorial que o Estado de Sergipe (22.050Km2), Israel conta com pouco mais de 7,6 milhões de habitantes e possui apenas 63 anos de existência. No entanto, é nessa região semiárida, com escassez de água e outros recursos naturais, além dos constantes conflitos militares, onde florescem inúmeras empresas inovadoras.

Milagrosamente, como definem Dan Senor e Saul Singer no título do seu livro Nação Empreendedora – o milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina (Editora Évora, 2011), Israel conta atualmente com aproximadamente cerca de 3.850 empresas start-ups, quantidade maior do que a soma de empresas que estão presentes em países maiores, pacíficos e estáveis como o Japão, a China, Coréia do Sul, Reino Unido e Cingapura.

Algumas dessas empresas atuam justamente na área biotecnológica e de nanotecnologia voltadas para o desenvolvimento de dispositivos médicos e aplicações farmacêuticas. Como exemplo podemos citar a Given Imaging, uma empresa que criou a PillCam®, uma espécie de cápsula com uma microcâmara de vídeo para capturar imagens internas do tubo digestivo durante o diagnóstico de patologias gástricas ou intestinais, eliminando de vez as incômodas endoscopias.

(http://www.givenimaging.com/enus/Pages/GivenWelcomePage.aspx).

Os autores também comentam sobre a Beta-O2 Technologies, outra empresa no campo biomédico que desenvolveu um sistema implantável (pequeno biorreator) constituído por microalgas, fibra ótica e células betas do pâncreas para substituir os convencionais tratamentos para diabetes e eliminar as inconvenientes injeções subcutâneas diárias de insulina, com previsão de lançamento para 2015. (http://www.beta-o2.com/index.htm).

 

Resumidamente, os autores do livro atribuem essa explosão de criatividade e o sucesso econômico de Israel a um conjunto de fatores que parecem atuar de maneira sinérgica. No entanto, ressaltam que o principal fator é o elevado grau de comprometimento das pessoas para criar empresas inovadoras em torno de um objetivo comum, ou seja, proteger o território contra as ameaças constantes e garantir a sobrevivência da geração seguinte. Esse parece ser o ponto diferencial em relação a outros países com cultura militar semelhante, excelentes índices de educação e altamente empreendedores como EUA, Cingapura, Japão, China e Coréia do Sul.

Entre outros fatores, esse sentimento de comprometimento disseminado entre a população de Israel é conseguido principalmente porque todos os jovens antes de frequentar as universidades de excelente qualidade, participam ativamente de atividades laborais e militares. Para eles o contato com o mundo real que os rodeia é tão intenso que o aprendizado pela sobrevivência se transforma facilmente em seriedade, maturidade e elevada noção de responsabilidade, características que se tornam reflexo de suas vidas dentro das universidades e das novas empresas, que alguns deles acabam criando anos depois que terminam a graduação ou a pós-graduação. Para se ter uma ideia, a média de idade da maioria dos alunos na pós-graduação gira em torno de 32 anos.

Provavelmente essa maturidade atingida prematuramente e as adversidades superadas durante esse estágio probatório (são 2 anos de serviço militar para as moças e 3 anos para os rapazes) os tornem excelentes empreendedores, aptos para visualizar boas oportunidades de negócio e prever situações de risco no mercado. Além disso, ao final desse período, todos são estimulados a realizar viagens internacionais para diferentes destinos (inclusive ao Brasil e outros países da América Latina) como uma forma de superar o isolamento territorial e conhecer novas realidades e culturas.

Por falar em viagens, quem visitar Israel provavelmente se encantará com a pluralidade de culturas, com a rica culinária, a simpatia e a cordialidade de seu povo. Também será capaz de sentir a história viva nas muralhas da Cidade Velha, entre as quais é possível observar a presença marcante das três maiores religiões do mundo (a judaica, a islâmica e a cristã). Ainda poderá surpreender-se com a paisagem do Monte das Oliveiras, com a potencialidade do Instituto de Tecnologia Technion, na cidade de Haifa, e finalmente, ao visitar o Museu do Holocausto (Yad Vashem), poderá entender um pouco mais sobre essa capacidade intrínseca do povo judeu para reagir frente situações complexas de maneira bastante criativa, dinâmica e flexível.

 

Acredito que em termos de Brasil, podemos encontrar alguns padrões semelhantes em determinadas regiões. Mas dentre elas, a que apresenta alguma semelhança, e com certeza potencial futuro como no caso de Israel, acredito que possa ser a região Nordeste. Isso porque além do clima semiárido e a escassez de água em comum, aí podemos encontrar pessoas extremamente criativas (aliás, comum a todos os brasileiros), talentosas e altamente comprometidas com um forte objetivo comum, que é a luta constante contra a seca e contra o retrocesso causado pela política assistencialista da região.

Sobre esse último ponto inclusive, é bem possível que o Nordeste sofra as consequências do que pode ser chamado de “Dilema do Coronel”, parafraseando aqui a teoria de Samuel P. Huntington, cientista político norte americano citado por Dan Senor e Saul Singer. Segundo essa teoria (The King’s Dilemma), apesar de que alguns governantes queriam manter o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a independência de seus cidadãos, muitos não são capazes de cumpri-lo na medida em que essa mesma independência começa a interferir com a manutenção do seu próprio poder.

Outro fato curioso é saber que a região Nordeste, de acordo com pesquisa realizada por Maria de Lourdes Nunes Ramalho em Raízes Ibéricas, Mouras e Judaicas do Nordeste (Editora Universitária – UFPB, 2002), conserva ainda hoje fortes reminiscências históricas e culturais (a festa junina, o repente, etc.) devido à marcante e próspera presença empreendedora de imigrantes judeus que remonta o período colonial do Brasil no século XVI. Nesse contexto, sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que a Inquisição atuou nessa época como um desleal competidor empresarial na região. Atualmente, porém, o grande desafio da região Nordeste, além da seca, e que precisa ser definitivamente solucionado, como se sabe, inclui a falta de oportunidades, a má distribuição de renda e a falha de décadas no sistema de educação.

Felizmente, com o crescimento de incentivos fiscais e legais, como a Lei do Bem (nº 11.196/2005), o crescimento de fundos de investimentos (nacionais e internacionais), além da criação de novos polos educacionais no interior de alguns Estados brasileiros (criação de novos campus universitários), em algumas décadas poderemos observar os primeiros resultados positivos de sucesso econômico no Brasil e principalmente no Nordeste.

Para tanto, além disso, também será indispensável contar com iniciativas empreendedoras e capazes de transformar consideravelmente a realidade e a visão da geração futura da região, como é o caso, por exemplo, do Instituo Internacional de Neurociência- Edmond e Lily Safra (IINN – ELS), fundado pelo prof. Nicolelis e que atualmente está instalado na cidade de Macaíba, no Estado do Rio Grande do Norte. Lá é possível observar um excelente trabalho em pesquisa aplicada na área biomédica e em tecnologia, além de investimentos generosos na educação de científica de jovens alunos das escolas públicas secundárias. (http://www.natalneuro.org.br/).

Talvez essa fórmula incipiente e inovadora presente no Nordeste do país, composta por empresas tecnológicas e comprometidas com a educação e o futuro dos jovens, possa funcionar inclusive para as demais regiões do Brasil com potencial latente de crescimento. Espero no próximo post comentar mais sobre outros brilhantes exemplos de empreendedorismo na saúde. Forte abraço a todos!

 “Os pequenos atos que se executam são melhores que todos aqueles grandes que se planejam.”

  George E. Marshall (Nobel da Paz, 1953).

João Fhilype Andrade é um empreendedor graduado em Farmácia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Tecnologia Farmacêutica (Nanotecnologia) pela Universidade de Navarra. Foi um dos coordenadores do projeto Multi-science, tem interesse por Comunicação da Ciência, Design da Informação e é apaixonado pela cultura Chutzpah.

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