O ceratocone é uma distrofia que aumenta progressivamente a curvatura central da córnea – que vai adquirindo um formato cônico e distorcendo a visão. Uma em cada duas mil pessoas apresenta essa doença que é uma das principais causas de transplante de córnea no país, já que em 20% dos casos há evolução para perda de visão. Recentes avanços de uma técnica que vem sendo desenvolvida nos últimos dez anos têm se mostrado promissores, chegando a evitar 50% dos transplantes de córnea. Trata-se do crosslinking, ou enrijecimento do colágeno da córnea, um tratamento conservador que evita a progressão da doença.
Na opinião do oftalmologista Renato Neves, diretor-presidente do Eye Care Hospital de Olhos, em São Paulo, trata-se de uma alternativa segura e que traz importantes benefícios para os pacientes. “O crosslinking pressupõe a aplicação de riboflavina (vitamina B) na córnea. Esse agente fotossensibilizante, quando exposto à radiação de luz ultravioleta A a cada cinco minutos, durante um total de 15 a 30 minutos, estimula novas ligações entre as moléculas de colágeno. A técnica não só promove um aumento de rigidez biomecânica da parte anterior da córnea e estabiliza o ceratocone, como, em alguns casos, proporciona melhor visão”.
Colírios antibióticos e anti-inflamatórios são necessários durante alguns dias, até que o paciente passe a enxergar com clareza. Entretanto, resultados mais efetivos podem ser conferidos dentro de um prazo de 90 dias. Mais de 100 artigos revisados de várias partes do mundo demonstraram que a efetividade do crosslinking gira em torno de 93%. “O endurecimento da córnea é o que previne danos nas estruturas oculares profundas, sendo que não há risco para a lente nem para a retina. Essa técnica, que vem sendo aprimorada desde que começou a ser empregada, significa um avanço muito importante para a Oftalmologia”, diz Neves.
Na opinião do oftalmologista George Waring IV, professor assistente da Medical University of South Carolina, nos Estados Unidos, o ceratocone é uma doença ocular ainda muito subdiagnosticada. Para ele, a ocorrência é de cerca de uma em cada 500 pessoas na prática clínica – daí a importância de haver aprimoramentos nas técnicas que estabilizam a doença logo no início, preservando a visão dos pacientes. O ceratocone é uma alteração congênita que aparece geralmente entre 12 e 15 anos de idade. A doença progride na adolescência, sendo frequente a necessidade de adaptação de lentes de contato rígidas para melhorar a visão – além do transplante de córnea em casos mais graves. É comum, também, a associação com um quadro alérgico, que leva a uma coceira crônica que contribui ainda mais para o afinamento da córnea.
Fonte: Dr. Renato Augusto Neves, cirurgião-oftalmologista com mais de 60 mil cirurgias realizadas, diretor-presidente do Eye Care Hospital de Olhos (SP) e autor do livro Seus Olhos. (www.eyecare.com.br)