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Você sabe o que é CRM aplicado à Saúde?

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Aprendi este conceito com Alfredo Guarischi (médico) e Felipe Koeller (piloto e investigador de acidentes aeronáuticos), pioneiros no Brasil em “CRM para a Saúde”.

CRM, do inglês Crewn Resource Management, é um treinamento onde busca-se o aprimoramento de habilidades não técnicas (na área que for), como comunicação, relação interpessoal, consciência situacional, tomada de decisão, cultura justa e gerenciamento do erro. Ou seja, nada mais é do que um treinamento de trabalho em equipe.

Uma das principais estratégias de transformação da cultura da aviação comercial na década de 1980, vem sendo lentamente aproveitada na saúde. No sistema de saúde do U.S. Veterans Affairs, compararam os resultados cirúrgicos de 74 hospitais, nos quais as equipes tinham recebido treinamento, com de 34 hospitais que ainda não haviam implementado o programa. Os resultados demonstraram  menor mortalidade nos hospitais que realizaram o CRM. Houve ainda uma resposta “dose dependente” – treinamento adicional resultou em reduções ainda maiores. Vários outros estudos também demonstraram benefícios do treinamento de equipes, mas houve outros com resultados negativos. O peso das evidências apoia a premissa de que o treinamento de trabalho em equipe melhora tanto a cultura de segurança quanto os desfechos clínicos.

Os programas CRM na área de saúde apresentam uma variedade de formas e tamanhos. Todos focam em melhorar as habilidades de comunicação, em moldar um ambiente mais coeso, em encorajar os prestadores a manifestarem suas preocupações, em lidar com os erros de forma acrítica. Guarischi e Felipe montaram o GERHUS: Gerenciamento de Recursos Humanos na Saúde. Depois deles outros surgiram, e isto é muito bom, digo mais, fundamental.

Robert Wachter, expert de renome internacional em segurança do paciente, defende – a partir da literatura e da sua própria experiência na University of California, San Francisco (UCSF) – algumas premissas, entre elas:

Utilizar a aviação e outras analogias semelhantes fora do segmento da saúde, mas sem exageros.

Segundo ele, na UCSF, a utilização de pilotos de aviões em alguns treinamentos foi muito útil. Pilotos podem confessar para audiências compostas por profissionais médicos que sua cultura era semelhante à deles, e que participaram dos programas de treinamento de forma relutante no início, mas que agora acreditam que tal treinamento seja essencial para a melhoria da segurança e para a diminuição dos erros. Entretanto, profissionais de saúde serão rápidos em levantar as diferenças entre a sala cirúrgica e o avião. A maior diferença, de acordo com Wachter, reside no fato de a equipe do cockpit ser composta por dois ou três indivíduos com treinamento, expertise, renda e classe social semelhantes, trabalhando a portas fechadas. Livrar-se dessa hierarquia é fácil se comparado a fazer o mesmo em uma emergência superlotada. Essas e outras diferenças indicam que os exemplos da aviação devem ser rapidamente substituídos por exemplos da área de saúde, algo que Alfredo e Felipe foram fazendo progressivamente enquanto aprimoravam seus cursos.

Segundo Wachter, não devemos esquecer ainda que as organizações estabelecem os comportamentos, mentalidades e atitudes que medem e controlam. “Precisamos mudar do raciocínio focado em “uma intervenção para treinar equipes” para aquele que visa a criação e sustentação de um sistema organizacional que apoie o trabalho em equipe. O melhor treinamento para equipes não irá atingir os resultados desejados se a e a organização não estiver alinhada para apoiá-lo”. Guarischi ainda tem precisado reforçar questões mais básicas: organizações precisam se convencer da importância deste tipo treinamento. Quando convencidas disto, a envolver TODOS os profissionais (algumas proponhem-se a subsidiar apenas médicos e enfermeiros). Havendo necessidade de limitar participantes, o ideal é fazer preservando o caráter multidisciplinar que a atividade deve ter. Assim como Alfredo, defendo que os melhores resultados são com cursos in company.

Referência: Understanding Patient Safety

Leituras complementares:

1. Neily J, Mills PD, Young-Xu Y, et al. Association between implementation of a medical team training program and surgical mortality. JAMA 2010;304:1693-1700.

2. Dunn EJ, Mills PD, Neily J, et al. Medical team training: applying crew resource management in the Veterans Health Administration. Jt Comm J Qual Patient Saf 2007;33:317-325.

3. Mayer CM, Cluff L, Lin WT, et al. Evaluating efforts to optimize TeamSTEPPS implementation in surgical and pediatric intensive care units. Jt Comm J Qual Patient Saf 2011;37:365-374.

4. Weaver SJ, Rosen MA, DiazGranados D, et al. Does teamwork improve performance in the operating room? A multilevel evaluation. Jt Comm J Qual Patient Saf 2010;36:133-142.

5. Wolf FA, Way LW, Stewart L. The efficacy of medical team training: improved team performance and decreased operating room delays: a detailed analysis of 4863 cases. Ann Surg 2010;252:477-485.

6. Morey JC, Simon R, Jay GD, et al. Error reduction and performance improvement in the emergency department through formal teamwork training: evaluation results of the MedTeams project. Health Serv Res 2002;37:1553-1581.

7. Riley W, Davis S, Miller K, et al. Didactic and simulation nontechnical skills team training to improve perinatal patient outcomes in a community hospital. Jt Comm J Qual Patient Saf 2011;37:357-364.

8. Nielsen PE, Goldman MB, Mann S, et al. Effects of teamwork training on adverse outcomes and process of care in labor and delivery: a randomized controlled trial. Obstet Gynecol 2007;109:48-55.

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