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Vamos ranquear os hospitais brasileiros usando de notificações de eventos adversos?

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A Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) de Portugal, que é a equivalente à Fiocruz brasileira, acaba de lançar um ranking dos hospitais públicos portugueses. Em grupo de discussão em rede social, médicos e enfermeiros portugueses reclamam que o resultado não condiz com a realidade e que tudo só está servindo para propaganda do governo, para uso demagógico dos dados pelo Ministério da Saúde português.

Sempre fui simpático à avaliação transparente de indicadores de qualidade e segurança assistenciais e que até mesmo gerassem este tipo de comparação. Mas, de fato, há uma complexidade magnífica nisto. E muitas questões e consequências difíceis de antecipar.

Não conheço in loco o sistema de saúde português. Mas a impressão, acompanhando o grupo de discussão deles, é de um sistema em grave crise. O presidente do Partido Social Democrata, Pedro Passos Coelho, também atual primeiro-ministro de Portugal, segundo informações que correm no fórum, está dizendo que o ranking de hospitais mostra que há melhores unidades de saúde devido às reformas do Governo. “Quem ouve a oposição a falar fica com a ideia de que o SNS foi destruído, de que não temos saúde e estamos à beira do caos. O ranking mostra que muitas instituições são de excelência”, teria dito.

Há uma semelhança com o que está acontecendo no Brasil: será que os trabalhadores da linha de frente estão fantasiando realidade? E deveriam ser tratados como “oposição”???

As semelhanças não param por aqui. Recentemente, nossa ENSP (leia-se Fiocruz, que é vinculada ao Ministério da Saúde brasileiro) posicionou-se em assunto relacionado à saúde pública de maneira que parecia estar a serviço direto do nosso Ministro da Saúde (leia aqui).

Na discussão envolvendo o sistema nacional de notificação de eventos adversos brasileiro (saiba mais lendo aqui – agosto/2013 e aqui), passados 6 meses, seguimos sem nenhuma resposta de como pretendem garantir proteção das informações e das pessoas. Questiono lideranças hospitalares diversas e o que mais ouço é que estão pouco preocupados, pois irão notificar o que não lhes desperta insegurança. Ou seja, o sistema nacional de notificação de eventos adversos brasileiro é um natimorto!

Mas ainda assim, a partir de conversa com pessoa que conhece os bastidores, fica claro que nosso governo pretende usar das informações (de todo NOTIVISA, na verdade) para um ranking parecido com o português. Robert Wachter, expert em qualidade e segurança, é bastante enfático ao apontar limitações do método (leia aqui). Será um natimorto [no sentido de que deste jeito não irá melhorar segurança do paciente] que ainda servirá como canal de propaganda oficial do governo brasileiro?

Alfredo Guarischi, membro da recém lançada Câmara Técnica de Segurança do Paciente do Conselho Federal de Medicina, irá estimular no CFM a discussão de qual deve ser a postura dos médicos frente à solicitação de envio de informações delicadas para uma central na qual poucos de nós confiamos à essa altura da história. O mesmo Alfredo que há anos vinha estimulando um sistema destes. Este é o lado mais triste de tudo! Um sistema de notificação, consagrado na aviação, pode se tornar um grande problema na saúde brasileira.

Para acreditarmos em “Cultura Justa”, será preciso outra atmosfera. Tudo indica que nenhum dos dois países está preparado. Casualmente, meses atrás, material de minha autoria foi avaliado por pessoas ligadas à ENSP postuguesa. Um capítulo onde discuto erros associado aos cuidados em saúde, no qual descrevi casos reais em que participei diretamente, e o resultado não foi o esperado. Denunciaram “negligência” – minha, portanto. Fossem as situações que descrevi exemplos de “erros do mal”, teríamos que mandar prender eu e 90% dos médicos brasileiros. Aprendi que mesmo entre quem discute o tema segurança do paciente, nos dois países, não distinguimos bem os defeitos de processos, as falhas predominantemente sistêmicas, das situações que envolvem as “maças podres” e as violações, os mal profissionais. Como ainda não superamos sequer esta etapa, é mais do que compreensível que se escondam os erros… e que agora se escondam as notificações.

Meus amigos portugueses, quem, profissionais da linha de frente ou governo, em nossos países, está mais incapaz de distinguir entre a experiência subjetiva e a realidade externa?

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