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Sustentabilidade deixa de ser vista apenas como valor intangível

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Inseridas em uma lógica paradoxal, as instituições de saúde, criadas para tratar, prevenir e curar doenças, também são responsáveis por graves danos sociais e ambientais, afinal, lidam com grandes quantidades de lixo, substâncias químicas, resíduos tóxicos, alto consumo de energia e de água, além de interferirem em comunidades locais, entre outros fatores.

Ignorar os impactos do setor e não investir em medidas para minimizá-los é escolher o caminho da insustentabilidade. Esta foi a conclusão evidente do IT Mídia Debate sobre ?Responsabilidade Social Empresarial? que reuniu, além de uma plateia ativa, o consultor da Lanakaná Princípios Sustentáveis, Rodrigo Henriques; o diretor clínico do Hospital Santa Paula, Otavio Gebara; e o presidente do Conselho Consultivo do Projeto Hospitais Saudáveis, Vital de Oliveira.

Mesmo que lentamente, quando comparada aos setores financeiro e de energia, a Saúde já começa a entender a importância de olhar para os pilares econômico, social e ambiental de forma integrada. ?Há dez anos praticamente não existia uma área ambiental em nenhum hospital. Agora encontra-se com certa frequência em instituições mais estruturadas?, diz Oliveira, lembrando que o engajamento de profissionais da área cresceu com os problemas decorrentes do lixo hospitalar.

Assim, diante do interesse por um comprometimento efetivo com a sociedade e o meio ambiente, os caminhos parecem estar melhor delineados. O Projeto Hospitais Saudáveis (PHS) é exemplo disso, pois dedica-se a transformar o setor de Saúde em um exemplo sustentável, colocando o ser humano no centro da questão por meio de pesquisas, desenvolvimento e divulgação de tecnologias, práticas e informações setoriais, articulando-se junto a profissionais e empresas, e avaliando e prevendo riscos. A entidade representa no Brasil a coalização internacional Saúde Sem Dano e dentre suas ações prioritárias está a Rede Global Hospitais Verdes e Saudáveis (HVS), composta por 40 organizações dedicadas a reduzir seu impacto ecológico e promover a saúde pública.

Engajar-se em valores como esses é passar a olhar o serviço assistencial por um prisma mais holístico e, até, global. ?É pensar, por exemplo, se o empreendimento a ser construído vai atrapalhar a vizinhança, vai interferir na identidade do bairro. É pensar no transporte dos funcionários, como eles chegam?, afirma Oliveira, elencando uma série de outros aspectos, inclusive o modo de produção atual diante das mudanças climáticas, que podem alterar o perfil epidemiológico populacional.

O que está em jogo é não apenas a ?vitalidade? das empresas, mas a saúde do planeta, e como os prestadores de serviços de saúde podem, ou devem, desempenhar um papel de relevância nesse amplo contexto. Para isso, a PHS desenvolveu uma agenda com dez objetivos interligados, cada um com uma série de ações e ferramentas para serem implementados.
?Estruturar isso em uma agenda foi o modo que encontramos para levar ao gestor uma pauta organizada e, obviamente, cada um trabalha em cima das suas prioridades?, explica Oliveira.

Credibilidade documentada
Aliada à PHS pelo mesmo propósito, mas de forma diferente, a Lanakaná Princípios Sustentáveis promove o desenvolvimento de relatórios de sustentabilidade no setor seguindo as diretrizes da Global Reporting Initiative (GRI). De acordo com Henriques, da consultoria, a prática de comunicar o desempenho da gestão, não apenas limitando-se a demonstrar o desempenho econômico financeiro, tem crescido. O primeiro grupo brasileiro a investir na publicação do documento foi a Pró-Saúde, que administra cerca de 50 hospitais Brasil afora.

Diferente dos relatórios em que todos os colaboradores das empresas aparecem sorrindo em meio a resultados positivos, a proposta do GRI, segundo Henriques, é levar informações transparentes, isentas, a todos os públicos interessados (clientes, funcionários, fornecedores, governo etc), o que gera credibilidade no mercado.

?Lá vão constar práticas trabalhistas, índice de rotatividade dos funcionários, envolvimento em casos de corrupção, entre outros dados?, explica Henriques, e acrescenta que negócios também são feitos de riscos. ?As pessoas não são perfeitas, portanto, as empresas também não o são. Não tem como ignorar os problemas quando se fala, por exemplo, sobre OPMEs (Órteses, Próteses e Materiais Especiais de Uso Cirúrgico) em saúde. A organização tem que ter honestidade e pensar ?isso é um problema e vou abri-lo para resolver? ?.

Desde 2010, o Brasil é o País que mais contribui para o aumento de relatórios de sustentabilidade GRI (informações abaixo) nos serviços de saúde no mundo, mas o assunto ainda é pouco discutido entre os elos do sistema e possui baixa representação global frente a outros setores da economia. Em 2012 foram emitidos 2.357 relatórios no mundo, sendo que 305 foram de serviços financeiros, e apenas 39 de saúde.

Apesar dos avanços, os debatedores reconhecem que a questão econômica, influenciada por uma cultura de planejamento de curto prazo, ainda é a que fala mais alto dos três pilares. ?É muito difícil uma instituição de saúde ter um planejamento de longo prazo, de 15 ou 20 anos. É preciso que se construa uma verdadeira cultura de sustentabilidade, a começar por cada indivíduo ao sair de casa?, diz Henriques.

Sob a mesma percepção, Oliveira conta que é comum chegarem instituições a procura do ?selo verde? sem a mínima compreensão do valor embutido. ?Alguns dizem que querem fazer parte de um grupo de elite e não entendem que o PHS é para todos e que, para ser um integrante, é preciso desenvolver a capacidade de pensar fora dos parâmetros usuais, aspecto que a diversidade promove. Um hospital de Manaus (AM), por exemplo, pode desenvolver uma fibra de bambu que substitua a de carbono, e isso ser útil para outros?, conta.

Razão pela transparência
O estigma do valor intangível que ronda o conceito sustentabilidade começa a desvanecer estimulado por: rigorosos padrões exigidos e mensurados pelas acreditadoras (ONA, JCI etc); práticas de Governança Corporativa; facilidade na hora de captar financiamento junto ao BNDES e bancos estrangeiros; recomendações favoráveis da BM&FBovespa; movimento internacional de fusões e aquisições; seletividade de fornecedores etc.  

?A questão da sustentabilidade começou para nós em 2000 com a acreditação hospitalar ONA (Organização Nacional de Acreditação). Quando conquistamos as internacionais isso passou a ser absolutamente fundamental. Como instituição, precisávamos relatar o que estávamos fazendo para o entorno, para as comunidades envolvidas?, conta Gebara, do Hospital Santa Paula, localizado na zona sul de São Paulo e integrante do PHS.

Além de iniciativas como a troca de embalagens tetra pack por PET e redução de 60% no consumo de copos descartáveis depois de distribuir canecas para os funcionários, o Hospital Santa Paula plantou mais de mil árvores, de mais de 50 espécies diferentes, para minimizar a emissão de CO2, maior responsável pelo aquecimento global. Uma análise criteriosa das suas fontes de emissão de carbono, do consumo de energia elétrica e de gás, apontou para um total aproximado de 400 toneladas por ano e, segundo Gebara, o chamado Bosque Sustentável Santa Paula foi a saída para não só compensar o impacto ambiental, mas para fazer um trabalho de conscientização junto aos colaboradores.

De acordo com Oliveira, um hospital consome, em média, 10% da energia comercial do planeta, que representa uma fatia de 40% na divisão entre as energias domiciliar e industrial. Para se ter uma ideia, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) – tido como uma referência no mundo em se tratando de sistemas de saúde – colocou a redução de emissão de carbono entre suas principais ações. A meta da região, que emite 18 milhões de CO2 por ano, é diminuir em 10% até 2015 e em 20% até 2050. A Inglaterra é ainda mais agressiva e pretende baixar a emissão em 80% no mesmo período, sendo o único país a instituir uma lei para o controle do gás carbônico.

Mais um exemplo de responsabilidade ambiental do Santa Paula foi a construção do Instituto de Oncologia Santa Paula (HSP), inaugurado há dois meses, sob os preceitos sustentáveis e, que dessa forma, conquistou a certificação Aqua ? Alta Qualidade Ambiental – por sua estrutura de baixo impacto ao meio ambiente.

?Buscamos cerca de 40% do investimento para acelerar a obra junto ao BNDES e a certificação Aqua foi um diferencial para a concessão. Ficamos surpresos com isso?, diz Gebara, ressaltando que o Santa Paula está se antecipando em uma missão que ?todos um dia vão ter de cumprir?.

Outra evidência sobre como o tema está impactando na hora de fazer negócios foi o lançamento do ?Relate ou Explique para Relatório de Sustentabilidade ou Similar? pela BM&Bovespa, em 2011, que tem o objetivo dar visibilidade a práticas transparentes aos investidores e analistas. Em outubro de 2012, o número de empresas que aderiu à iniciativa passou de 203 para 253, um aumento de 12,64% em apenas cinco meses. Ao final de 2012, 58% das empresas listadas na bolsa havia aderido à recomendação.

O conceito transparência no setor da saúde costuma ser ainda mais delicado em relação a outros segmentos, afinal engloba indicadores hospitalares como taxas de infecção, mortalidade,  intercorrências que, em geral, o usuário do sistema não faz ideia de como interpretar. ?Quando você entra para fazer uma cirurgia é uma aventura. Você não sabe nada sobre o que vai acontecer lá dentro. Para o paciente, a importância está na imagem, e não no produto em si. E o relatório de sustentabilidade se torna chave nesse aspecto?, reforça Oliveira, do PHS, e acrescenta que o reconhecimento por parte da diretoria sobre a relevância desse documento e das certificações sustentáveis está diretamente relacionado com a sobrevivência da instituição. ?Quando o gestor de Saúde ignora isso, é melhor não esperar nenhuma política pública de seus governantes?, diz.

Gebara, do Santa Paula, confessa que recentemente se deu conta que o que realmente importa é a percepção emocional do paciente, e não a racional. ?Ele não volta em um hospital porque tem um robô Da Vinci, mas pelo modo como foi tratado?, diz, admitindo que a percepção da marca é a maior valia. ?Mesmo com a fonte pagadora não querendo pagar nada a mais pelo fato de o hospital ter um selo verde, é preciso coragem para investir em sustentabilidade, sabendo que isso vai ajudar na percepção emocional do paciente no futuro?.

Dez objetivos

01.Priorizar a Saúde Ambiental
02.Substituir Substâncias Perigosas por Alternativas mais Seguras
03.Reduzir, Tratar e Dispor de Forma Segura os Resíduos de Serviços de Saúde
04.Implementar Eficiência Energética e Geração de Energia Limpa Renovável
05.Reduzir o Consumo de Água e Fornecer Água Potável
06.Melhorar as Estratégias de Transporte para Pacientes e Funcionários
07.Comprar e Oferecer Alimentos Saudáveis e Cultivados de Forma Sustentável
08.Prescrição Apropriada, Administração Segura e Destinação Correta
09.Apoiar Projetos e Construções de Hospitais Verdes e Saudáveis
10.Comprar Produtos e Materiais mais Seguros e Sustentáveis

Serviços de saúde do Brasil que
já publicaram ou publicam
Relatório de Sustentabilidade GRI

Unimed do Brasil
Central Nacional Unimed
Federação das Unimed do Estado de São Paulo
Unimed Amparo
Unimed Campinas**
Unimed Circuito das águas
Unimed Blumenau
Unimed Cuiába
Unimed Rio
Unimed Vitória*
Unimed Cascavel*
Grupo Fleury
DASA
Hospital Sírio-Libanês
Hospital Albert Einstein
Hospital AC Camargo***
Hospital Municipal de Cubatão ( OSS Pró Saúde)Hospital Municipal de Araucária ( OSS Pró Saúde)Hospital Municipal de Foz do Iguaçu*** ( OSS Pró Saúde)

*Estas Unimeds estão classificadas no Database da GRI como produtos de saúde
**Esta Unimed esta classificada no Database da GRI como Turismo
*** Relatórios que não constam no Database da GRI

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