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Sobra Dinheiro e Falta Competência

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Quando analisamos o volume de dinheiro destinado à saúde no Brasil e o resultado que o cliente (paciente) tem vem pergunta: temos competência para gerir o sistema de saúde ?

Acho que não … e me incluo na lista !

Quem passa pelo ?impostômetro? da Rua Boa Vista em São Paulo no final do ano vê que o Governo arrecada R$ 1,5 trilhão por ano em impostos e, pelo menos na teoria, 15 % disso deve estar destinado à saúde da população. A saúde mereceria mais que 15 % do orçamento, porque não existe nada mais valioso que a vida, mas mesmo assim, 15 % de R$ 1,5 trilhão significa poder gastar R$ 1.125 por ano com cada um dos 200 milhões de brasileiros ? é muito dinheiro … mas muito dinheiro mesmo:

  • Qualquer operadora de planos de saúde no mundo cobraria muito menos que isso ?por cabeça? para cuidar de 200 milhões de pessoas.

Mas o dinheiro que circula na saúde não é só este: a saúde suplementar arrecada ?por baixo? mais uns 60 bilhões (sem contar planos odontológicos):

  • Fora o que a população gasta com ?dinheiro do bolso? em medicamentos, médicos e clínicas particulares, dentistas, material ortopédico, ?coisas que o convênio não cobre, etc. (no mínimo 10 % do seu orçamento pessoal);
  • Fora o que gastam milhares de empresas em programas de medicina ocupacional e preventiva para seus funcionários (medicina do trabalho é caro demais … quem já teve empresa ou trabalha em RH sabe disso);
  • Fora o que gastam milhares de entidades de classe subsidiando atendimento médico e odontológico, como o SESC, SESI, Sindicatos, etc.;
  • Fora o que gastam e doam milhares de empresas e pessoas para instituições filantrópicas;
  • E fora ?mais um monte de receita? que eu nem mesmo desconfio que seja direcionada para a saúde.

Todo este dinheiro e a população se sujeita a um resultado medíocre, tanto no atendimento SUS, quanto na Saúde Suplementar !

(*) toda vez que comento isso vem alguém e dá exemplos de bom atendimento:

  • No SUS, mas circulo no meio há mais de 20 anos e afirmo: casos com o HC de São Paulo, por exemplo, são exceção ? a regra do atendimento SUS é horrível ? ?Deus? me livre ter que ser atendido na maioria absoluta dos hospitais SUS que conheço;
  • Na Saúde Suplementar, mas também afirmo com toda a minha experiência: a maioria dos hospitais privados tem boa hotelaria … e só !

Não temos competência para consertar um sistema que está errado: baseado no que é feito e não no resultado que deveria dar. Não se remunera a ?cura da doença? ? se remunera o que é feito para tratá-la (que varia caso a caso) e a hotelaria que se oferece (como se o doente privilegiasse ?sofrer em um lugar bonito e confortável? ao invés de ?deixar de sofrer numa espelunca?).

Pagamos a mesma coisa por uma cirurgia bem feita ou mal feita, porque a tabela de preços não considera a diferença entre uma e outra ? não temos padrões para medir o resultado de uma ou outra. Chegamos ao cúmulo de remunerar um parto onde mãe e filho falecem no ato cirúrgico, ou seja, ao invés de remunerar ?um nascimento? remuneramos ?um duplo óbito?.

Vemos estudos e sinais de que o colapso do sistema é eminente, ?um monte? de ações paliativas para consertar um ou outro problema relacionado a remuneração, mas nenhum movimento para se mudar este sistema irracional. Enquanto o sistema consegue ir captando cada vez mais recursos para se financiar, vamos ajustando uma ou outra coisa ? nenhum indicador de eficácia real do sistema para a população é estabelecido.

O sistema é tão ruim que não consegue agradar ninguém: governo, operadoras, prestadores de serviço, profissionais de saúde, população ? ?todo mundo? reclama, ou que é mal remunerado, ou que é mal atendido, ou que paga caro por algo que deveria ser de graça e … todos tem razão !

Como é um sistema com foco no tratamento da doença e não no resultado que o cliente (paciente) necessita, privilegia a excelência da prestação do serviço e não a cura da doença. Por isso é cada vez mais caro: a lógica não é fazer mais com o mesmo dinheiro, é ter mais dinheiro para fazer mais.

Não existe nenhum segmento de mercado que tenha tanto dinheiro a disposição quanto o da saúde ? não existe país que tenha proporcionalmente mais dinheiro que o Brasil para cuidar da saúde da população.

Se com tanto dinheiro o resultado é tão ruim, ou mudamos o sistema, ou mudamos todos os que estão fazendo sua gestão.

Como continuo confiando que existem pessoas brilhantes na gestão do sistema de saúde, até porque convivo com alguns deles, fico com a opção de mudar o sistema !

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