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Shift Work Disorder – Um novo problema e um tratamento que não resolve o de base

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Saí mais cedo de um plantão noturno, no qual dormi “um pouco” (em tempo e com algumas interrupções). Após a passagem dos casos para quem veio me substituir pela manhã, peguei meu carro e fui embora. Meio banzo, como de costume nestas circunstâncias. Colegas que trabalhavam comigo foram direto para plantões em outros hospitais. Tendo chegado em casa decidido a não comprometer minha capacidade de dormir logo mais a noite, e preferencialmente cedo, resolvi que iria aproveitar o dia, mesmo cansado. Comecei colocando em dia a revisão de artigos recentemente publicados nos temas de meu interesse. E encontrei, em meio a pesquisa de novidades em quality & safetyShift work and the assessment and management of shift work disorder (SWD)Sleep Medicine Reviews, fevereiro 2013.

E lá fui eu, ainda um tanto quanto banzo, avaliar o material. Esta questão do “plantonismo” é algo que me desperta interesse e que estudo. Inclusive participei recentemente de discussão sobre o tema cujo resultado foi compartilhado aqui neste portal através de Passagens de plantão e de caso envolvem risco para o paciente, bem como há pinceladas do assunto em muitos de meus posts. Sou absolutamente realista e sei que o “plantonismo” [o que critico inclusive] dificilmente deixará de existir para cada um de nós, e em qualquer modelo assistencial (cobertura de noites e finais de semana, por exemplo). Mas tenho insistido que um formato onde a continuidade intra-hospitalar não é nada respeitada e o tipo de vínculo é determinante de passagens esporádicas e sem critérios dos profissionais pela(s) instituição(ões) não é bom para ninguém. Em relação ao modelo hospitalista especificamente, lembro que, apesar de estar muito comumente atrelado a shift work (plantões), ao menos nos Estados Unidos, as boas organizações são capazes de organizar escalas onde pouco se aplica o que sistematicamente critico (vide meu comentário em Hospitalistas em vídeos que valem mais que mil textos).

Shift work and the assessment and management of shift work disorder (SWD) – muito interessante por dois aspectos: detalha a importância do tema; parece representar um típico caso de Disease Mongering*.

*Ação que visa alargar os limites diagnósticos de doenças pré-existentes ou até criar novas e promovê-las publicamente, buscando auferir lucro através da comercialização de medicamentos e/ou de procedimentos médicos a elas ligados.

Detalham a importância do tema através de dados realmente interessantes e relevantes, mesmo quando demonstrados a partir de estudos observacionais, onde não mais do que geram hipóteses. Mais de 15% da população em muitos países trabalha em regime de shift work, em muitas profissões. Nos EUA, entre os profissionais da saúde, este número é de aproximadamente 30%. Aproximadamente 26% de profissionais tipo rotating workers apresentam critérios para insônia ou sono excessivo. Há associação de plantonismo com diversos problemas de saúde em quem o pratica: problemas mentais, doença cardíaca, cancer, obesidade, alterações gastrointestinais, problemas reprodutivos, entre outros. Fadiga é uma queixa comum de quem faz plantões e pode comprometer o desempenho no trabalho e até causar acidentes.

Mas entre valorizar isto, e gerar critérios diagnósticos para Shift Work Disorder (SWD) e recomendações para o tratamento específico da condição… Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai… Recomendações que consomem a metade do artigo, sem sugerir mais fortemente que reduzir ou aprimorar o plantonismo possa ser o melhor remédio, e que incluem o emprego de hipnóticos e estimulantes como boas alternativas terapêuticas… Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai…

Transpondo este discussão para o Brasil, onde o multiemprego é muito mais prevalente, será o caminho através da utilização de estimulantes para “render melhor”, seja entre motoristas de caminhão ou profissionais da saúde? Muitas das sugestões apresentadas no artigo, porque sequer têm base além de plausibilidade parcial e de alguns estudos questionáveis, poderiam trazer novos problemas, sem resolver o de base.

Enquanto fica a sugestão de suplementação de cafeína, eventualmente através de energéticos, nos EUA, estas bebidas estão sob fogo cruzado. A Food and Drug Administration (FDA), agência nacional reguladora de alimentos e medicamentos, avalia impor limitações ao uso dos produtos e exigência de avisos sobre possíveis efeitos colaterais. Leia mais.

Enquanto fica a sugestão de estimulantes como Modafinil e Armodafinil, seus fabricantes são os patrocinadores do documento, dos estudos em que as drogas foram testadas e de seus autores. Ai, ai, ai, ai, ai, ai… Tenho dúvida a cerca dos endpoints dos estudos… de que adianta médicos mais “ligados”, se estiverem deprimidos, ansiosos ou estressados? No fundo, está tudo interligado… Outra perspectiva: parece bom se as medicações melhoraram o médico, mas enquanto não surgir junto a evidência de que reduz também o efeito negativo da privação de sono nos pacientes, será que estamos no caminho certo? Ou seria importante uma discussão anterior, quase sociológica, sobre a organização de nosso trabalho e seu impacto global?

Em rápida conversa agora com o amigo Alfredo Guarischi, do evento Safety, ele me passou um livro do Ministério da Defesa da Austrália. Apresenta uma excelente visão de como a fadiga é tratada em operações militares e na aviação – sem medicações. Interessante ainda como encaram uma soneca no intervalo do período de trabalho. No nosso artigo também discutem sonecas como abordagem do problema, sugerindo uma de 40 minutos no meio do plantão como estratégia para reduzir fadiga e melhorar tempo de reação em atividades dependentes de habilidades cognitivas ou motoras. Mas a nossa cultura vigente é de profissional super-herói, onde descansar é sinal de fraqueza e vagabundagem…

Bom, ainda um pouco banzo, encerro por aqui… Para escrever mais talvez fosse necessário um pouco de Metilfenidato, tão na moda. Embora o nosso artigo só cite ele, sem nenhum destaque, até porque é produto concorrente…

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