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Reposicionamento e Gestão Comercial para a Santa Casa

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Estramos assistindo agoniados os acontecimentos na Santa Casa de São Paulo, cujo cenário é complexo e extremamente delicado.
Nenhuma ação individual vai salvar a população – para mim não é questão de salvar a Santa Casa e sim a população – porque quem necessita ser salvo não é a Santa Casa, o Governo Federal, o Governo Estadual, ou qualquer outra instituição … é a população, porque em um sistema de saúde público absolutamente caótico como o nosso, antes do óbito de uma Santa Casa haverá um milhão de óbitos de pessoas que só têm ela para recorrer.
São diversas as causas das dificuldades da Santa Casa, mas eu gostaria de explorar um que é tão importante quanto qualquer outra que tenho visto ser citada em artigos: o planejamento e a gestão comercial.
Quando escrevo isso tenho certeza que boa parte dos que militam na Saúde Pública, incluindo Santa Casa, ou não entendem o que digo, ou acham heresia: “esse cara só pensa em dinheiro, e a Santa Casa é muito maior que isso”. Mas gostaria de defender meu ponto de vista.
Santa Casa é o único tipo de instituição no sistema de saúde que ainda é benemerente. Todas as instituições que eu conheci e eram benemerentes ou não são mais, ou praticam um nível de benemerência irrisório em relação ao que significavam para a sociedade antes.
Hospitais da administração pública direta e indireta não são benemerentes – são instituições políticas que prestam assistência de acordo com a definição do governante a que se subordina e, principalmente, sem coordenação real. No discurso são equipamentos integrados em um sistema, mas na prática são órgãos que fragmentam a assistência e atuam de forma individualizada na região em que se situam, por isso são ineficazes – até eficientes, mas ineficazes !
Hospitais privados com título de benemerência e/ou utilidade pública representavam no passado grande parte do que se oferecia de atendimento gratuito à população. Especialmente os que foram fundados por colônias de imigrantes, eram referências em atendimento gratuito e hoje são referências de atendimento pago (e muito bem pago, diga-se de passagem). Se somarmos tudo o que todos eles prestam de atendimento gratuito, em quase 100 % das cidades brasileiras não representam 10 % do que as Santas Casas realizam. Eles se profissionalizaram, exploram a Saúde Suplementar e sabem como receber do SUS o máximo que podem, e sem necessidade de praticar qualquer tipo de falcatrua.
Santa Casa, ao contrário, continua com a mesma missão da época da sua fundação, fazendo jus ao nome de Santa Casa ‘de Misericórdia’ – seu próprio nome define o foco da sua atuação no mercado !
Vamos lembrar que os grandes hospitais que surgiram no século passado em todo o Brasil se situam próximos aos cemitérios, porque hospital era um caminho para o óbito. E vamos lembrar os grandes hospitais que surgiram neste século em todo o Brasil estão longe dos cemitérios. Isso é suficiente para demonstrar que o sistema de saúde mudou substancialmente, e os hospitais também. Hoje hospital é uma empresa extremamente lucrativa, embora investidores ‘chorões’ tentem nos convencer do contrário !
Muito bem – se existe uma instituição que mudou muito pouco foi a Santa Casa, e por isso está passando por dificuldade.
Então chego ao ponto de defender a questão de que para salvar a Santa Casa, dentre as diversas ações que todos estão com muita propriedade citando, é fundamental que ela deixe de ser absolutamente benemerente e desenvolva uma gestão comercial que lhe garanta recursos para continuar existindo – não será possível continuar existindo se depender de verba pública: nenhuma outra instituição em qualquer segmento de mercado consegue sobreviver com verba pública, a não ser as próprias empresas públicas (evidentemente).
Como a Santa Casa atualmente não é uma instituição de alta profissionalização em gestão, o governo (seja ele qual for) ajudaria muito se financiasse projetos de planejamento estratégico para elas. Para que elas possam se reposicionar no mercado, definir alternativas de captação de recursos, atuar na saúde suplementar, desenvolver projetos rentáveis de ensino e pesquisa … enfim, para que passem a fazer tudo que os hospitais benemerentes já fizeram para atingir seu ponto de sustentabilidade e continuarem atuando no mercado sem depender de verbas públicas.
E o governo também ajudaria se financiasse projetos de consultoria para que as Santas Casas passassem a faturar contra o SUS tudo o que podem. Comentei neste blog no início do ano que acompanho a mudança de gestão do faturamento de um hospital público que em 2 anos, apesar de ter diminuído o volume de atendimento geral SUS em quase 20 %, aumentou o faturamento SUS em 38 %, ou seja, mesmo sem qualquer reajuste da tabela SUS no período, e faturando de acordo com as regras definidas pelo próprio SUS, teve aumento real de faturamento de quase 60 %. Se alguém tivesse perguntado há 2 anos atrás para o gestor de faturamento deste hospital se ele dominava o SIGTAP certamente ouviria que sim, mas o tempo demonstrou que não !
Isso está acontecendo nas Santas Casas e elas não sabem que necessitam de ajuda nisso. Mas necessitam e não tem recursos para obter o apoio.
Este relato sobre o assunto pode ser resumido em um pedido aos governantes: é melhor ajudar as Santas Casas a se reposicionarem no mercado e se profissionalizarem agora, para não ter que aumentar a verba pública gradativamente para financiar uma operação que já não condiz com a realidade brasileira há muito tempo !
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