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Profissão médica: Sacerdócio ou Negócio?

Créditos: Medical Reference
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Talvez os não médicos estranhem o título deste post, mas esses dois termos estão no centro de uma crise de identidade que tem afetado a medicina e os médicos ao longo de toda sua história. Afinal, a atividade médica representa uma entrega altruística e apaixonada de nossas vidas profissionais ao bem maior do próximo (no caso, o paciente); ou um business, uma atividade profissional remunerada, com expectativas de resultados financeiros concretos (para ser claro, lucro!), com metas orçamentárias bem definidas, gestão profissionalizada e métricas de qualidade e excelência?

Como você, médico, enxerga sua profissão?

Meu palpite é que, se rodássemos uma enquete sobre o assunto, o resultado mostraria que a maior parte dos médicos enxerga sua profissão como um sacerdócio. Pelo menos, esta tem sido a mensagem propagada por docentes nas faculdades de medicina e pelos conselhos regionais da profissão.

Acho que ninguém questiona o quão bonita e nobre é a profissão médica e como, de fato, muitos médicos se entregam à profissão como se fosse um sacerdócio. Mas o objetivo deste post é alertar para os perigos de não se tratar a profissão médica como um negócio.

Abaixo, cito alguns dos principais mitos relacionados ao “negócio” da medicina:

1.  Negócios na Saúde são “do mal”: na nossa sociedade, a atividade de negócios é tradicionalmente vista com desconfiança e desprezo. É o tipo de coisa com que nós, médicos, jamais gostaríamos de nos envolver. Tanto é que médico raramente discute sobre cobrança com seus pacientes. Esse “papel sujo” é da secretária! O que muitos não percebem, no entanto, é que o mundo vive uma nova era de negócios. Não há como negar que grande parte das transformações sociais das últimas décadas foram promovidas por novos negócios. A sociedade espera hoje que negócios criem valor social, resolvam dores reais das pessoas e tragam desenvolvimento econômico às sua regiões. Negócios são a melhor forma de fazer o bem e causar impacto de forma social e ecologicamente sustentável. Sociedades receptivas a negócios e empreendedorismo são sociedades em que há maior bem estar social e melhores índices de saúde. Se você é médico, abrace a sua profissão pelo que ela também é: um negócio!

2. Médicos não têm compromisso com resultado: uma das grandes mazelas de se tratar medicina como um sacerdócio e, não como um negócio, é o entendimento comumente aceito de que o médico não é responsável pelo resultado do seu trabalho. Como um padre que reza uma missa não tem compromisso com o resultado da evolução espiritual do seu rebanho, o médico também tem apenas compromisso com seus melhores esforços, mas não com o resultado do tratamento. E de fato, na maioria das vezes, o médico não pode ser responsabilizado pelo insucesso de um determinado tratamento. Mas a consequência disso é que a profissão acaba não engajando com as melhores práticas de negócio. Na maior parte dos casos, médicos raramente sequer medem seus resultados e comparam-nos contra os padrões de “mercado” publicados na literatura médica. Procure tratar sua profissão como um negócio: meça seus resultados e certifique-se de que eles estão próximos do referencial de qualidade aspirado. Ao contrário do que você pode pensar, você tem compromisso com os seus resultados!

3. Médicos são todos iguais: pela regulação médica, os médicos são praticamente proibidos de desenvolver suas marcas. Afinal, medicina não é negócio. Mas gostemos ou não, marcas são uma das formas mais práticas de transmitir percepção de qualidade. O mercado de planos de saúde, por exemplo, é dividido em planos com Einstein e Sírio e planos sem acesso a esses hospitais. Por que? Qual é a métrica que prova que essas instituições são superiores às outras? Porque simplesmente uma marca bem trabalhada normalmente está associada a serviços bem desenvolvidos e, embora a correlação entre marca e qualidade esteja longe de ser perfeita, ela certamente traz mais transparência ao mercado do que o que temos hoje com médicos. Certamente alguns médicos não são uma “Brastemp”, mas muitos outros certamente o são. A sociedade, no entanto, precisa conviver com nível absolutamente pobre de transparência, onde médicos são como um exército de aventais brancos, desprovidos de face ou qualquer outra coisa que os diferencie. Para os reguladores, médicos são todos iguais. Perdem os pacientes, que não conseguem separar o joio do trigo, e perdem os médicos, que são remunerados por planos de saúde e outros pagadores por aquilo que a classe optou por ser: um produto commodity, formado por profissionais que são todos iguais. Não aceite ser igual. Sempre que possível, institucionalize sua profissão, crie uma marca e construa ao redor dessa marca um negócio baseado nos melhores padrões de qualidade e resultado da indústria!

4. Médicos são profissionais autônomos: foi-se o tempo em que se podia dizer que o médico era verdadeiramente “autônomo”. Houve um tempo em que o médico tinha ao seu dispor no consultório quase tudo o que precisava para dar um atendimento de qualidade ao paciente. E houve um tempo em que praticamente tudo que o paciente precisava era um (“1”, “hum”) bom médico. Há muito que isso mudou. Hoje pacientes precisam ser vistos por inúmeros especialistas que deveriam, mas raramente trabalham em equipe, buscando oferecer um atendimento integrado ao paciente. Hoje, o diagnóstico raramente independe de exames realizados em clínicas de diagnóstico, e as opções de tratamento cada vez mais demandam estruturas e condições que vão muito além de um simples comprimido. Mas o médico não aprendeu na faculdade a trabalhar em equipe. O médico foi treinado para ter todas as respostas e ser o conselheiro soberano do seu paciente. Esta postura é a antítese do mundo de negócios. Em empresas, trabalho em equipe e satisfação do cliente são valores fundamentais. E não apenas a nova medicina exige trabalho em equipe, como nossos pacientes cada vez mais exigem satisfação, na forma de um serviço eficiente e eficaz. Aprenda a trabalhar em equipe e se comunicar efetivamente com os demais profissionais que também seguem seus pacientes. É o que o seu paciente espera!

 

 

 

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