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Políticos ocidentais acordam para a importância da saúde mental

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A última edição de outubro da revista The Economist destaca que vários políticos ocidentais estão acordando para a importância da saúde mental, colocando o tema em suas plataformas eleitorais e em projetos de políticas públicas, particularmente neste mês no Canadá, no Reino Unido e nos Estados Unidos.

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Infelizmente, este tema está longe do radar dos nossos dirigentes e formuladores de políticas públicas. O editorial destaca que os custos relacionados à questão mental podem custar até 4% do PIB em perda de produtividade, custos em assistência médica e previdência social, de acordo com a OCDE. Na Suécia, dois quintos dos novos pedidos de afastamento decorrem de problemas de saúde mental. O Fórum Econômico Mundial estima que até 2030, os custos cumulativos da saúde mental chegam a 16 trilhões de dólares.

Infelizmente ainda se investe pouco em pesquisa neste campo. No Reino Unido se gasta em pesquisa para câncer o equivalente a 1,500 libras por ano e em saúde mental o equivalente a menos de 10 libras por paciente tratado. Um estudo britânico constatou que para cada libra gasta em pesquisa com saúde mental, se recuperam 37 libras por ano em aumento de produtividade e redução de custos em assistência médica. Uma breve pesquisa nas bases de dados Lilacs e Scielo constata que também na América Latina a pesquisa em saúde mental não é compatível com a dimensão da questão para a sociedade.

A sua alta prevalência, início precoce na vida, persistência e potencial incapacitação podem trazer grande impacto na qualidade de vida das pessoas. Além disso elas envolvem complexas etiologias que incluem interações entre fatores de risco genéticos e não genéticos. Apesar do grande avanço no diagnóstico e tratamento, ainda hoje, a doença mental pode gerar estigmatização e discriminação.

O estudo “Global Burden Disease” publicado em 2015 na revista Lancet, coloca quatro distúrbios relacionados à saúde mental no ranking do “top 10” causadores de incapacidade no Brasil, sendo depressão (2.o), ansiedade (3.o), uso abusivo de drogas (9.o), uso abusivo de álcool (10.o). Esta mesma pesquisa constatou que o número de anos de vida com incapacidade (YLD) para distúrbios mentais e abuso de substâncias aumentou 45% entre 1990 e 2013.

Sabemos também que a relação entre doença mental e física pode ser causalmente cíclica, em que uma pode gerar ou complicar a outra; doença mental levando a má alimentação, pouca atividade física e maus hábitos de saúde e a doença física prolongada pode afetar negativamente o bem-estar emocional.  Sabe-se que pacientes com depressão e outros distúrbios de humor apresentam elevados custos em assistência médica em comparação com outros fatores de risco, inclusive obesidade e hipertensão. Além disso, traz impacto significativo na produtividade no trabalho e maior risco de incapacidades.  As pessoas com depressão apresentam piores resultados no tratamento de doenças crônicas e, por isso, é muito importante a integração entre os provedores de cuidados destas patologias e os profissionais de saúde mental

Na saúde suplementar, a ANS lançou em 2008 a publicação Diretrizes Assistenciais em Saúde Mental na Saúde Suplementar onde foram abordadas cinco linhas de cuidado para (a) Transtornos mentais graves e persistentes, (b) Transtornos psiquiátricos decorrentes do uso de álcool e outras drogas, (c) Transtornos depressivos, ansiosos e alimentares (d) Saúde mental e crianças e adolescentes (e) saúde mental de idosos. Em 2010, estabeleceu no Rol de Procedimentos a cobertura a inclusão de doze sessões de psicoterapia anuais, sendo que este número foi aumentado para dezesseis a partir de 2016.

O Mapa Assistencial da Saúde Suplementar 2014, publicado pela ANS, apresenta a evolução dos procedimentos e serviços relacionados à saúde mental. As consultas psiquiátricas e os atendimentos psicológicos aumentaram de maneira consistente entre 2012 e 2013. Com relação às internações, apesar do aumento do número de internações em hospitais-dia (superior a 50% em relação a 2012), ainda há um grande predomínio das internações em hospitais psiquiátricos (mais que o dobro em relação aos hospitais-dia).

Pesquisa realizada pelo laboratório de inovação assistencial da ANS-OPAS sobre programas de saúde mental oferecido por operadoras de saúde, que está em fase de análise, constatou que cerca de 30% oferecem ações e programas relacionados à saúde mental, mas aproximadamente 70% delas não utilizam as linhas de cuidado propostas pela ANS. Dentre as ações se destacaram o suporte social ao idoso, ações para transtornos alimentares, abordagem do tabagismo, ansiedade e depressão. As principais barreiras estão associadas à fragmentação no cuidado (pelos médicos, hospitais, clínicas, psicólogos), pouca disponibilidade de serviços com atenção multidisciplinar, preparo técnico inadequado dos prestadores e também baixa prioridade para a questão da saúde pelas empresas clientes.

Deste modo, há um enorme campo de desenvolvimento para que o cuidado seja mais integrado, resolutivo e efetivo, com consequentes redução nos custos assistenciais e de perda de produtividade. Talvez um primeiro passo seja incluir o tema na agenda dos gestores, em vários níveis, demonstrando que há um outro lado da moeda (qualificação do cuidado em saúde) além das questões gerenciais e financeiras (auditorias, OPMEs, tabelas, tributos, etc).

 

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